3 DO SÉCULO XIX PARA O SÉCULO XX: O HORIZONTE DAS ARTES NO RIO
3.1 O ENSINO DAS ARTES: PRIMEIROS PASSOS
3.2.1 As pinturas de guerra e a batalha da Azenha de Augusto de Freitas
A historiografia rio-grandense é composta de um expressivo número de episódios militares. Desde o século XVIII, a região esteve envolvida em batalhas em função de sua localização geográfica e da prestação de serviços militares ao Império, passando pelas guerras do período regencial e depois já entrando nos primeiros anos da República, manteve-se ainda envolvida em questões bélicas. Por dois séculos adiante, o Rio Grande estaria permanentemente em trânsito pelas suas fronteiras com Argentina e Uruguai, passando por tempos de paz e de guerra. Não é, portanto, de se admirar a vinculação de imagens de batalhas na elaboração de um grupo de obras de encomenda do estado dentro de uma região cujo aspecto militar é fortemente rememorado.
As pinturas relativas a cenas de batalhas, dentro deste corpus documental, são as já mencionadas Carga de cavalaria (ver Figura 3) e Tomada da Ponte da Azenha. Estas telas, somadas à Ponte da Azenha (ver Figura 10), de Luiz Cúria, fazem referência ao episódio inicial da Revolução Farroupilha, a batalha da Azenha que antecedeu a tomada de Porto Alegre em 19 de setembro de 1835. A obra de Luiz Cúria, não se trata de uma cena de batalha, mas a ponte representada na paisagem é rememorada em razão da guerra. Assim, desde a dificuldade encontrada em organizar as obras em grupos que tivessem ligação entre si para que as informações de pesquisa pudessem ser demonstradas de forma mais objetiva, optei pela inclusão desta paisagem, visto que as imagens tratam de um mesmo episódio. A Farroupilha teve muitas batalhas que ficaram registradas na historiografia e no imaginário popular, umas mais lembradas do que outras. A Batalha da Azenha, por exemplo, por representar o episódio inicial da revolução, é uma das mais representadas.
A questão da Batalha da Azenha enquanto acontecimento histórico é deficitário de documentação. Não se tratou de uma batalha de grandes proporções e não temos nenhum grande
estudo acerca dela capaz de trazer maiores informação além da data e do local. A força desta representação é, portanto, de cunho simbólico pois foi o primeiro embate dos longos dez anos da Revolta. A Tomada da Ponte da Azenha, executada por Augusto de Freitas, foi uma encomenda de Borges de Medeiros e sua administração. Para este pintor e nesta mesma ocasião, encomendaram- se mais duas obras, uma tratando da chegada dos açorianos e outra tratando da obra o Uraguay de Basílio da Gama.
A 31 de Agosto do ano findo foi contratado com o pintor rio-grandense Augusto Luiz de Freitas a execução de três telas que devem ser aplicadas aos plafonds de três salas do pavimento térreo. A primeira, medindo aproximadamente 5m23 X 4m96, deve ser colada no plafond da sala de recepções representa os primeiros povoados de origem açoriana, que aportaram ao nosso Estado. A segunda, medindo 5m46 X 3m76 deve ser colada no plafond da sala contigua precedente. Representa o combate inicial da revolução de 1835, ferido na ponta da Azenha, nesta capital. A terceira com 4m80 X 3m80, será colada no plafond do gabinete de trabalho do Presidente. Representa o episódio de Lindoya, do poema Uraguay de Basílio da Gama. (SECRETARIA DE OBRAS PÚBLICAS DO ESTADO, 1919, p 17.)
O documento em questão aponta ainda que as telas deveriam ser de boa qualidade, sem remendos, que seriam executadas no ateliê do artista em Roma, no prazo de três anos e meio. O valor mencionado pelas três obras é de 60.000$000 (sessenta contos de reis). Ao analisarmos os relatórios percebemos que cada detalhe da intenção do secretário foi contemplado no texto. As medidas das telas foram solicitadas detalhadamente, da mesma forma em que foram mencionadas as paredes do Palácio para onde se destinavam. Fato é que as obras jamais chegaram a este destino. É mencionado no parecer técnico dos documentos de tombamento destas obras como patrimônio do Estado do Rio Grande do Sul – realizado pela Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (CPHAE), no ano de 1986 – o fato de elas terem sido expostas no Palácio Piratini em razão do quinto mandato de Borges de Medeiros, da mesma forma que relata que as obras foram levadas ao prédio da Escola Normal na década de 1940. O relatório é assinado pela responsável pelo parecer, Mariza Simon dos Santos.
À direita da escadaria do saguão do IE temos a Tomada da Ponte da Azenha (ver Figura 8) que é, dentre as três, a que mais sofreu as agressões do tempo e encontrava-se em avançado estado de deterioração quando foi submetida ao processo de restauro. A imagem desta tela e o episódio que retrata estão intimamente ligados à cidade de Porto Alegre. Trata-se da primeira batalha da Revolução Farroupilha, que segundo Franco foi uma pequena batalha, com apenas um morto, visto
que as tropas imperiais, em desvantagem numérica, logo bateram em retirada permitindo desta forma que os rebeldes tomassem Porto Alegre. (FRANCO, 2006)
A Ponte da Azenha constitui-se um patrimônio arquitetônico de Porto Alegre e esteve presente nas comemorações do Centenário Farroupilha. A ponte, localizada próxima às avenidas Azenha e Ipiranga, foi totalmente refeita para as comemorações do centenário e reformada em 2008.
A tela, com predominância de tons verdes e amarelos, retrata um embate entre tropas imperiais e farrapas. As cores desta pintura podem ter sido alteradas durante a restauração devido ao fato de que era, sem dúvida, a mais danificada. Hoje, mesmo após o restauro, ainda se tem dificuldade em apreciar seus contornos. A isso soma-se o fato da pouca iluminação do local onde está exposta e o pequeno espaço que sobra ao observador, dificultando que este se posicione à boa distância da tela. Vemos na imagem a ponte de pedra, tomada por uma área verde no centro. Ao lado esquerdo, temos as tropas Farroupilhas identificadas pelas bandeiras e à direita, as tropas do Império que podem ser identificadas pela indumentária. Do lado dos imperiais é possível ver apenas um soldado à cavalo, da mesma forma que do lado Farrapo pode-se ver melhor dois cavaleiros e a silhueta de outro cavalo. O que predomina na imagem é o verde da vegetação. Sem dúvida, esta tela é a que melhor retrata o caso de abando ao qual estas obras foram submetidas no decorrer dos anos.