8 ANÁLISES E CONCLUSÕES
8.1 ANÁLISES
8.1.8 As Pinturas Murais de 1932 e 38
Ao realizarem as prospecções, em 2005, nas estruturas parietais de toda a edificação, encontraram indícios de pinturas murais, sem a indicação de data nem quem as executou. Com o intuito de buscar estas informações para aprofundar o fato, encontrou-se nos documentos do Arquivo Arquidiocesano de Florianópolis, o recorte de jornal de 11 de agosto de 1932, intitulado: “A pintura da Catedral Metropolitana- o início dos serviços”, no qual o Arcebispo contrata “o hábil artista conterrâneo sr. Arí Margarida, a pintura da Capela-mor da Catedral”. E declara que “os respectivos serviços já tiveram início, obedecendo a um bem elaborado projeto, que, executado com toda a técnica muito embelezará aquele templo [...] Ha dois anos foi aventada a idea”.
o momento que desvendou-se as pinturas murais através das prospecções, a princípio foram atribuídas à reforma e a ampliação de 1922. Mas o registro no Livro tombo indica data posterior, junho de 1938: “começaram neste mez os trabalhos de renovação interna da Catedral sob a direção técnica do sr. Manoel Rovina. O projeto foi competentemente aprovado pelo sr. Arcebispo” (LIVRO tombo IV, 1931-1943, p. 58 v). Também existe um contrato que relata a pintura interna da Catedral, com decoração e demais serviços, assinado e reconhecido em Cartório no dia 28 de julho de 1938, entre a Mitra Metropolitana
e Manoel Rovina, decorador, e Crispim Crespo, pintor (ANEXO D). Além de um croqui (Fig. 103), com a data de 1938, no qual constam desenhos e manuscritos descrevendo a aplicação de cores nos desenhos dos arabescos e nos frisos das pilastras e colunas. Apesar de não ter a assinatura do autor, as características reveladas no desenho se assemelham as pinturas encontradas pelas prospecções. Correlacionando o croqui à pintura, é possível determinar, que a execução das pinturas murais internas aconteceram em 1938.
fundo azul claro guirlandas verdes laços azues grega branco preto
fundo rosa claro ornatos alaranjados tocados a ouro
Entrada do altar mor
Barra mais azul com as molduras saliente ornatos dourados
fundo azul imitando damasco com ornato dourado
fundo cinzento claro ornato em relevo marrom claro realçado a ouro Teto central
2º parte
fundo cor de uva claro
fundo verde claro 3º parte da
catedral
moldura saliente
alaranjada fundo azul celeste
1938 friso fundo azul celeste ornato azul saliente
decoração ouro
Recobrir a (ilegível) da nave (ilegível) verde claro
1º sacristia do altar
Figura 113 - Croqui referente as pinturas murais de 1938. Com detalhamento e indicações na aplicação as cores sobre os elementos arquitetônicos.
Autor: desconhecido
Isto indica que as pinturas que cobriam todas as paredes, provavelmente forma executadas em 1938, o que não descarta a possibilidade de ter acontecido uma pintura anterior, em 1932, na Capela-Mor ou em outras dependências da edificação, como afirma a nota do jornal. Mas, a impressão que se tem é que talvez sejam pinturas distintas, feitas em fases diferentes.
Quanto à existência do pintor “Ari Margarida” só foram encontrados similares com este nome. Segundo Bortolin (2001, p. 223-224), os artistas que existiram com nomes parecidos são: Joaquim Antônio Margarida (natural de Desterro, 1856 - 1951) denominado pintor, desenhista, caricaturista e professor; seu filho Acary Margarida (Florianópolis, 1907-1981) aprendeu pintura com o pai cursou engenharia em São Paulo, foi desenhista e engenheiro de plantas do departamento de Portos e Rios Navegáveis de Santa Catarina; e Manoel Francisco de Oliveira, chamado de “Maneca Margarida”, não constam data de nascimento e morte, só informações de que viveu em Desterro na segunda metade do século XIX, era desenhista, professor de desenho linear, de ornamentação e de máquinas do Liceu de Artes e Ofícios, também foi professor particular; dentre seus alunos estavam Eduardo Dias (1872- 1945), que era pintor, escultor, restaurador e muralista, que muitas vezes para sobreviver, foi “caiador de paredes”. Executou pinturas no teto de igrejas, em Florianópolis: Nossa Senhora do Rosário e São Benedito; Nossa Senhora do Parto; e Nossa Senhora da Boa Viagem (Bairro Saco dos Limões), fazia pinturas de santos e paisagens; também restaurava obras e imagens, na Catedral restaurou a Nossa senhora de Lourdes e o Sagrado Coração de Jesus. Pe. José Besen emite sua opinião sobre essas pinturas:
[...] com a relação às pinturas que existiam na Catedral: existe um equívoco da parte do Patrimônio que busca na Catedral como antigo o que era novo. As pinturas afrescadas foram realizadas entre 1937-39 sob coordenação de Acari Margarida. Algumas foram de Eduardo Dias, hoje reconhecido como pintor importante, à época não tanto. Vieram também alguns de São Paulo, amigos do arcebispo Dom Joaquim 3.
Estas pinturas podem ter sido feita por algum dos artistas mencionados, pois eles atuavam profissionalmente neste período em que as pinturas internas foram executadas, o artista menos provável é Manoel Francisco de Oliveira, já que é desconhecida a data de sua morte, mas Eduardo Dias, Acary e seu pai, Joaquim Antônio, podem ter atuado neste momento, em conjunto ou sozinhos.
Da mesma forma não fica claro onde, o artista ou os artistas mencionados, executaram suas pinturas, supõe-se que elas podem ter acontecido em duas etapas. A primeira, talvez na capela-mor, em 1932, e posteriormente em 1938, em todo o interior da edificação.
As pinturas com características figurativas, como as cenas bíblicas e os medalhões, necessitam conhecimento e domínio no desenho da figura humana para serem executadas. O outro tipo de pintura, diferentemente da primeira é executada com estêncil4; ou seja,
possui forma repetitiva formando faixas decorativas ou panos de parede a exemplo de estampas ou papel de parede (Fig. 114).
Concluí-se, quanto aos artistas já citados, que tiveram formação e conhecimento de desenho técnico, com habilidades para executar obras compositivas e figurativas. Supõe-se que segundo suas trajetórias os artistas, Acary e Eduardo tenham mais habilidade nas figuras humanas e na composição de desenho artístico. No caso das pinturas murais com estampas decorativas através dos elementos repetitivos, podem ter sido executadas por algum pintor que tivesse mais conhecimento de desenho técnico e menos de desenho artístico, determinando o desenho a ser reproduzido sistematicamente pelo pintor ou por um grupo de trabalhadores. Resumindo, é mais fácil e exige menos habilidade na execução a pintura repetitiva, pois é só seguir o modelo pré-determinado.
Com base nos registros fotográficos encontrados (Fig. 114), essas pinturas internas produziram um grande impacto visual, presenciado pelos freqüentadores da Catedral daquela época e que hoje relatam saudosamente: “cobrindo e embelezando todas as paredes internas da Igreja”. Foram executadas nos mais variados motivos: faixas decorativas com elementos geométricos, abstratos; arabescos; medalhões com imagens sacras e cenas bíblicas.
A reabertura da Catedral, após a conclusão das obras, foi em abril de 1939, os valores pagos pelos serviços prestados foram custeados por doações dos fiéis (LIVRO tombo VI- 1932 a 1943, p.62).
4 Estêncil: técnica de pintura decorativa que usa molde vazado para pintar em série. A repetição do desenho do
A)
B)
C)
E) F)
Figura 114- Conjunto de imagens das pinturas internas visíveis até a reforma de 1974 A) Arco Cruzeiro e Capela-Mor
B) forro em estuque da Nave Central C) planta de localização
D) forro da Capela-Mor E) lateral direita da Catedral
F) forro em estuque da Nave Central
Autor da Fotografia: Foto B Fonte: Acervo do Pe. Pedro José Koehler-1974