3 A ORIGEM DOS GRANDES MACIÇOS DE ÁRVORES PLANTADAS DO BRASIL: A POLÍTICA FLORESTAL ENTRE AS DÉCADAS DE 1960 E
3.2 AS POLÍTICAS FLORESTAIS NO BRASIL ENTRE 1966 E
Léa Goldenstein (1975), em estudo clássico sobre o reflorestamento para a produção de celulose, fruto de sua pesquisa de livre-docência, já afirmava, logo na introdução, a relação entre o desenvolvimento desigual do capitalismo e a divisão internacional do trabalho, determinações importantes para entender a atuação desse setor no Brasil. Estava posta, para a autora, a necessidade de compreender o processo de industrialização dependente dos países periféricos.
Ela explicita que no momento em que estava realizando o estudo, ocorriam não só mudanças em um setor específico, mas uma reorganização mais ampla, na qual o Brasil passava da fase em que se caracterizava como exportador de matéria-prima para aquela em que se constituía como exportador de produtos semielaborados e finais. Essa mudança seria dada, ainda segundo a autora, por forças dirigentes tanto dos países periféricos quanto pela
30 O BNDE surgiu em 1952 (Lei nº 1.628) como uma autarquia federal, com objetivo de ser o órgão formulador
e executor da política nacional de desenvolvimento econômico. Em 1971 ele se transformou em uma empresa pública, e atuou, nesta década, como uma peça fundamental na política de substituição de importações, com maiores investimentos feitos para os setores de bens de capital e insumos básicos. Em 1982 foi adicionado o '“S” (de social) ao nome do banco, tentando refletir novas preocupações em relação ao desenvolvimento, e também neste ano as três subsidiárias existentes desde 1974 para atuar no mercado de capitais fundiram-se na BNDES Participações S.A. (BNDESPAR). (BNDES, sítio eletrônico)
necessidade dos países centrais, e caracterizaria ainda uma nova divisão internacional do trabalho (DIT), baseada, entre outras coisas, na expansão das multinacionais através de subsidiárias no terceiro mundo. Isso demonstraria que:
[...] a economia dos países “centrais” se relaciona com a dos países “periféricos” e deles depende, agora não mais apenas para fornecimento de matérias primas e como mercado para produtos manufaturados, mas também para colocação e reposição de seu excedente de capital. (GOLDENSTEIN, 1975, p. 8)
As mudanças do lugar do Brasil e de outros países periféricos na DIT ao longo do século XX foram estudadas por diversos autores, e há um relativo consenso de que havia uma necessidade das indústrias dos países centrais de que os periféricos não fossem mais apenas exportadores de matéria-prima, no pós-Segunda Guerra Mundial (GOLDEINSTEIN; SEABRA, 1982; SINGER, 2001).
Singer (2001), discorrendo sobre essa questão, aponta que a expansão das multinacionais nesse período acabou sendo um dos fatores que levou à maior industrialização dos países periféricos. O autor faz uma periodização do século XX no Brasil que segue o critério do desenvolvimento econômico do país em relação às mudanças do capitalismo em nível global.
Para isso, ele entende que existem três momentos distintos de desenvolvimento econômico no país. O primeiro, até 1930, é caracterizado como o início da industrialização, porém no interior de uma economia ainda subordinada à oligarquia agrário-exportadora, baseada na exportação do café e dependente das oportunidades das políticas intervencionistas para esse produto; o segundo período, entre 1930 e 1980, foi quando ocorreu uma grande mudança da posição do Brasil na divisão internacional do trabalho, baseada fortemente na atuação estatal; e o terceiro período, que abarcaria as últimas duas décadas do século XX, foi marcado pela abertura econômica em bases neoliberais e pelo grande desemprego e alta inflação (SINGER, 2001).
O primeiro período estabelecido por Singer (2001) – até 1930 – é entendido por Goldenstein e Seabra (1982, p. 27-28) como extensão de longa fase que perdurou desde o século XVI até as primeiras décadas do século XX, caracterizada por uma economia agrário- exportadora que produzia um território essencialmente desarticulado, com uma economia nacional formada por várias economias regionais, que tinham em comum “[...] a valorização do setor externo, realizando um ‘crescimento para fora’.” (GOLDENSTEIN; SEABRA, 1982, p. 28).
Francisco de Oliveira (1981) faz uma periodização da economia brasileira em consonância com os autores supracitados, e destaca que com o ciclo do café houve concentração econômica e formação da região Sudeste, enquanto havia economias regionalizadas na região Nordeste e “vazios” econômicos no Centro-Oeste e Norte.
Já a segunda fase da inserção do Brasil na economia mundial no século XX é marcada pela formação do mercado nacional. Ela inicia-se nos anos 1930, “[...] tendo como marco a ascensão da burguesia industrial à condição de componente do bloco hegemônico de classes dominantes do país.” (GOLDENSTEIN; SEABRA, 1982, p. 30). Nesse momento, a urbanização passou a ser o motor da acumulação geral no país (GOLDENSTEIN; SEABRA, 1982,, p. 30).
Singer (2001) salienta, em relação à passagem do primeiro para o segundo período, que com a grande depressão nos anos 1930, os países centrais abandonaram o liberalismo econômico, passando a vigorar um maior intervencionismo estatal. Nos países periféricos a situação não foi diferente, e no Brasil, após a chamada Revolução de Trinta, o Estado passou a comandar políticas de intervenção em diversos setores e regiões:
A intervenção direta do Estado na produção, incentivando-a ou limitando-a, passou a ser corriqueira e cada vez mais geral. A ideia de que a empresa privada deve se auto afirmar no mercado livre, competindo com outras, foi deixada de lado. Qualquer grupo de produtores tinha o direito de esperar e de pressionar pela intervenção protetora do Estado e pouco a pouco todos passaram a fazê-la. (SINGER, 2001, p. 97)
Assim começou no país a política de fomento à industrialização por meio da substituição de importações, que se tornou a maior estratégia de desenvolvimento do país organizada pelo Estado, a partir da criação de meios de financiamento dessa industrialização (SINGER, 2001, p. 97). E o corporativismo – entendido pelo autor como a mediação efetuada pelo Estado entre as classes sociais – tornou-se “[...] característica estrutural do Brasil, de 1930 em diante, adquirindo ora conotações repressivas, quando o regime político é ditatorial, ora conotações democráticas, quando o regime político é dessa espécie.” (SINGER, 2001. p. 104).
Esse segundo momento foi caracterizado, para Goldenstein e Seabra (1982, p. 30-31) e Oliveira, F. (1981), pela implementação de diferentes ramos produtores de bens intermediários de capital, concentrados na região Sudeste e em especial em São Paulo. Essa concentração foi possibilitada por alguns fatores, entre eles, a política federal de fim de restrições estaduais e municipais de circulação de mercadorias; e a abertura de estradas de
rodagem e ligação ferroviária com o sul. Com isso, diminuíram os custos de transporte e a proteção dos mercados regionais, fazendo com que as mercadorias produzidas no Sudeste competissem com aquelas produzidas nas demais regiões, que em desvantagem comparativa (escala e tecnologia de produção) entraram em crise e muitas vezes encerraram suas atividades.
Singer (2001, p. 104-111) destaca, em relação a esse momento, a criação de estruturas de ligação interna no país como fator determinante para a política de substituição de importações, em especial a criação de rodovias para unir o litoral ao interior do país. Assim, a partir da década de 1950 começaram a entrar no Brasil multinacionais – entre as quais se destacam as automobilísticas –, que acabaram permitindo uma maior industrialização do país. É importante salientar que essas multinacionais estavam interessadas em que os países periféricos servissem de plataformas de exportação, e foi isso que permitiu a renovação do lugar do Brasil na DIT, como também aponta Goldenstein (1975).
Durante a guerra fria ocorreram mudanças na posição dos países centrais em relação aos periféricos, e nas décadas de 1960 e 1970 muitas multinacionais começaram a investir na implantação de fábricas na periferia do capitalismo, gerando também o desenvolvimento de algumas indústrias nacionais (SINGER, 2001, p. 110).
Esse desenvolvimento da economia deu-se pela expansão do mercado externo, em “[...] uma combinação sempre instável de vinculação com a economia mundial capitalista e de acumulação nacional de capital” (SINGER, 2001, p. 127). Ele foi comandado pelo Estado e financiado pelo BNDE, Banco do Brasil e também pelo Banco Mundial e Interamericano (SINGER, 2001, p. 127).
Sérgio Magaldi (1991), em estudo sobre o setor de papel e celulose, aponta que havia um processo – em curso desde a Primeira República, mas que se completou apenas no período da ditadura militar – de requalificação da base de acumulação no Brasil, em torno de um projeto de industrialização que incluiu mudanças de ordem político-institucional. Essas transformações passaram pela reorientação de investimentos e mudanças nas relações entre o urbano e rural, desembocando numa mudança da posição ocupada pelo Brasil na divisão internacional do trabalho (MAGALDI, 1991, p. 15).
O autor analisa o lugar da produção agropecuária nessas transformações, marcado, segundo ele, pela grande preocupação de não elevação do preço dos alimentos para o crescente contingente de trabalhadores urbanos, nem o das matérias-primas naturais utilizadas pelos setores urbano-industriais. Ou seja, a agricultura deveria se modernizar, mas sem ser obstáculo para o processo de acumulação urbano-industrial (MAGALDI, 1991, p. 16).
Para compreender esse lugar da agropecuária no projeto de desenvolvimento nacional, o autor também recorre a uma periodização com objetivo de identificar e sistematizar momentos do desenvolvimento macroeconômico das atividades agrárias, e a forma como elas interagem com a “[...] estrutura produtiva comercial-financeira organizada pelo capital em geral, e com o desenvolvimento dos diversos ramos industriais conectados àquelas atividades [agropecuárias] em particular.” (MAGALDI, 1991, p. 49).
Haveria três grandes períodos caracterizados por padrões agrários e relações de produção predominantes. O primeiro, que abrange desde a chegada dos portugueses no (depois denominado) Brasil até a passagem do século XIX para o XX, teria sido marcado pelas grandes explorações sob o regime escravagista e por relações não caracteristicamente capitalistas, como o colonato, com a existência, paralelamente – complementar e marginal – de uma economia de minifúndio. A produção seria caracterizada pelo controle exercido por mecanismos de comercialização e intermediação financeira, em geral ligados a capitais externos, em consonância com a análise de Martins (2004) já apresentada (MAGALDI, 1991).
O segundo momento, demarcado entre o início século XX e a década de 1960, seria balizado pela captura das atividades agrárias pelo capital de corte oligopolístico, com diversificação econômica e aceleração do processo de industrialização, “[...] comandado por uma articulação entre capitais nacionais, capitais transnacionais e Estado, através do qual se completa a unificação geoeconômica do país.” (MAGALDI, 1991, p. 51).
E o terceiro momento, que iria da década de 1960 até o presente – 1991 –, seria o período no qual ocorreria o:
[...] coroamento e aperfeiçoamento dos processos engendrados no período anterior. É marcada[o] pela acentuação da concentração de capitais na agricultura, e sobretudo na indústria, através do progressivo controle dos instrumentos-chave do funcionamento da economia – e de grandes massas de capitais – por um grupo reduzido de corporações empresariais, materializadas na forma de conglomerados e ‘holdings’. Verifica-se o aprofundamento da trama de relações de interdependência entre os diferentes setores e ramos da economia. Na intensificação aperfeiçoada das formas de apropriação da renda da terra pelo capital, assiste-se à consolidação dos monopólios nas esferas da produção e da circulação (e muitas vezes em ambas) [...]. (MAGALDI, 1991, p. 52)
O autor expõe que a grande propriedade fundiária manteve, durante todos os períodos, centralidade na acumulação e reprodução do capitalismo no Brasil. Isso porque a apropriação – ocupação do solo sob grandes domínios conservou-se como prática fundamental para a reprodução das elites agrárias, de tal maneira que essa forma dominante de ordenamento assume novas feições e qualidades – de acordo com a inserção do país na DIT e o
desenvolvimento das forças produtivas internas – mas nunca deixando de ser base de acumulação, ainda que articulada à corporação capitalista de matriz industrial (MAGALDI, 1991, p. 8).
Nesse sentido, Magaldi (1991) ainda salienta que não há registros, em nenhum período, de tentativa significativa ou séria de reverter essa situação, ou seja, reverter o processo de concentração fundiária que se repõe de diferentes formas na história do país. Pelo contrário, o que houve foi, nos três períodos, ações do Estado pautadas no estímulo à especulação fundiária em larga escala, com o desenvolvimento rural capturado por práticas produtivas centradas em grandes domínios patrimoniais (MAGALDI, 1991, p. 52).
Outra característica que atravessaria os períodos definidos pelo autor seria a manutenção do controle da produção agropecuária pelo setor de comercialização, composto por frações da burguesia ligadas ao abastecimento urbano e/ou às exportações de produtos primários, que dividiria com certos ramos da indústria o controle sobre as atividades agrárias no país31 (MAGALDI, 1991, p. 53). Esse processo não só se reproduz, como se aprofunda com a tendência concentracionista e a verticalização que interliga a produção à comercialização em setores do agro, tal qual ocorre no ramo de produção de papel e celulose.
Léa Goldenstein (1975) aprofundou justamente a passagem do segundo para o terceiro período delineados por Magaldi (1991), a partir das transformações ocorridas no setor de papel e celulose. A autora afirma que, após a Segunda Guerra Mundial e em especial a partir do final da década de 1960, estava ocorrendo uma redistribuição geográfica das áreas produtoras de madeira:
Pode-se dizer que está em andamento [1975], fortemente relacionada com a produção de madeira, uma redistribuição geográfica, em nível mundial, das áreas produtoras de madeira. E isto nos levou a considerar, depois de examinar os recursos florestais disponíveis no mundo e as suas condições de renovação, a importância para os países centrais dos programas florestais que estão sendo empreendidos em países dos continentes africano e sul-americano. Suas características de florestas de produção voltadas para exportação da madeira as equipara (apesar das diferenças decorrentes de uma transformação industrial de matéria prima obtida, mais avançada), às grandes plantations comerciais que há séculos vêm caracterizando a ocupação da terra nos países tropicais, ao mesmo tempo que o aproveitamento industrial da madeira, próximo aos locais de produção, e sua exportação como produto semielaborado, se subordinam à nova divisão internacional do trabalho, que,
31 O Comitê Internacional ao Desenvolvimento Agrícola (Cida), citado por Goldenstein, também analisa a
relação entre as grandes propriedades, a produção agropecuária e os setores não agrícolas: “Há [no Brasil] um contínuo movimento de capital entre o setor agrícola e os setores não agrícolas, que sempre tem o efeito de fortalecer o ‘latifundismo’, mas não a agricultura, uma vez que apenas uma pequena parte do capital é empregada para tornar eficientes, a longo prazo, as operações das empresas agrícolas existentes.” (CIDA. Posse
e uso da terra e o desenvolvimento sócio-econômico do setor agrícola – Brasil. União Pan-americana,
embora em outro nível, mantém a dinâmica das relações de dependência.
(GOLDENSTEIN, 1975, p. 14)32
Mas como se deu essa redistribuição geográfica das áreas produtoras? A autora destaca que até a década de 1970, celulose e papel eram um negócio entre países ricos; os países de economia planificada centralizada apareciam como exportadores de madeira para pasta; e o terceiro mundo tinha participação muito pequena no comércio, como exportador de madeira e importador de celulose e papel (GOLDENSTEIN, 1975).
Desde a década de 1960, e em especial na de 1970, porém, transformações significativas estavam em curso, com progressiva escassez da matéria-prima madeira nos países tradicionalmente produtores (em especial os países nórdicos da Europa e os da América do Norte), o que trazia algumas consequências, como a alta dos preços; o desenvolvimento de pesquisas para uso de madeiras variadas; e
[...] o interesse pela produção de celulose nas regiões do mundo em que a madeira é mais barata e [onde poderia haver] a transferência dessa matéria-prima intermediária para os países produtores e grandes comerciantes de celulose e papel.
(GOLDENSTEIN, 1975, p. 30)33
Nesse momento, ocorriam também, ainda segundo Goldenstein (1975, p. 83), mudanças na tendência mundial de consumo de madeira. Havia grande aumento da demanda; profunda modificação de como se dava o consumo (até a década de 1970, 50% do uso de madeira era de lenha para consumo doméstico, situação que começou a se modificar, com o estacionamento desse consumo e o crescimento de outros); e tanto em volume quanto em ritmo, era a produção de celulose que mais crescia.
32 Goldenstein (1975) faz, assim, uma comparação entre as plantations do sistema colonial no Brasil e as atuais
áreas de plantações de árvores. Para a autora, a principal convergência (mesmo admitindo-se que existam diferenças entre os dois tipos de ocupação do solo pela agricultura) é a vinculação da produção à exportação. Magaldi (1991), que utiliza largamente a obra de Goldenstein (1975) como referência, aponta que, apesar dessa semelhança, não seria possível chamar as plantações atuais de plantations, pois estas se realizavam em latifúndios com “poucos vínculos com o restante do espaço colonial”, enquanto hoje o agronegócio que ocupa latifúndios para produção voltada ao mercado externo está muito relacionado com outros segmentos da produção nacional e internacional, e cada vez mais dependente da indústria, tornando as semelhanças com as plantations apenas aparentes, mas não efetivas (MAGALDI, 1991, p. 127-128).
33 É importante destacar aqui que esse processo deu-se justamente no bojo da crise energética, que levou a
discussões sobre as matrizes utilizadas mundialmente (MAGALDI, 1991, p. 209), e acabou colocando a
natureza, na condição de recurso natural, como nova raridade para alavancar um outro ciclo de acumulação (PRIETO, 2011, p. 31-32). Não podemos esquecer que a escassez é discurso necessário para haver apropriação privada, tal como vimos no caso da terra. Assim, nesse momento estaria se delineando a captura da natureza como equivalente de mercadoria para poder ser comprada e vendida nos marcos desse modo de produção.
Segundo Magaldi (1991, p. 116), essa mudança nos padrões de consumo de madeira estava ligada a estratégias mercadológicas em nível global34, nas quais eram peças centrais a diversificação da produção e a inserção de novas mercadorias – ainda que similares a outras já existentes – como necessidades criadas para os crescentes mercados capitalistas. A indústria de celulose, nesse momento, surgia não só como fonte dos mais diversos tipos de papel, mas também como uma das fontes de produção de embalagens, mercadorias estas que tomam uma proporção gigantesca nesse novo momento de reprodução do modo capitalista de produção – tanto em quantidades produzidas quanto em diferentes qualidades físicas dos produtos – nas mais variadas mercadorias35.
Além disso, nas décadas de 1960 e 1970 havia forte pressão dos movimentos ambientalistas pelo fechamento de fábricas de celulose na Europa. A poluição das águas causadas por essa indústria, naquele momento, representava entre 75% e 90% de toda a poluição causada pelos parques industriais nos países nórdicos, o que se ao “[...] fator matéria prima disponível em quantidade e preço convenientes nos países menos desenvolvidos, e ainda ao fator mão de obra abundante e barata, que também caracteriza esses países.” (GOLDENSTEIN, 1975, p. 36).
Por último, é importante destacar que mudanças de ordem técnica na produção de celulose também influenciaram na redistribuição dos plantios de madeira pelo mundo. Tradicionalmente, a confecção da celulose estava muito associada ao uso de fibras longas de madeiras resinosas (por exemplo, o pinus), cuja abundância concentrava-se nos países nórdicos europeus e norte-americanos. Com o aumento da demanda e a escassez de matéria prima, a evolução técnica se deu para a produção a partir de fibras curtas de madeiras folhosas (por exemplo, o eucalipto), abrindo “[...] enormes perspectivas para a fabricação de pasta nas regiões tropicais e subtropicais.” (GOLDENSTEIN, 1975, p. 33). E, ainda, “Resolvidos os aspectos tecnológicos, as folhosas apresentam grandes vantagens [para a utilização industrial da madeira]: são plantas de rápido crescimento, apresentam bom rendimento por unidade de superfície e constituem matéria prima homogênea.” (GOLDENSTEIN, 1975, p.3 4).
Segundo Barcelos (2010, p. 47-48), até a Segunda Guerra Mundial não havia tecnologia disponível para a produção de celulose por meio de madeira de fibra curta; foi apenas no pós-guerra que a indústria papeleira japonesa desenvolveu tecnologia comercial
34 Vale lembrar que naquele momento estava ocorrendo o processo comumente chamado de terceira revolução
industrial, ou seja, a passagem da forma de produção industrial hegemônica do fordismo para o toyotismo.
35 Segundo Barcelos (2010, p. 65), atualmente quase 40% da produção de papel tem por objetivo seu uso como
capaz de utilizar esse tipo de madeira. Assim, foi possível passar a recorrer não só ao uso de madeiras locais, mas também aos manguezais do Sudeste Asiático, aos eucaliptos da Austrália, às madeiras de lei do sul da África, às espécies nativas do Chile e à madeira de florestas da Papua Nova Guiné, entre outros. A partir daí cresceu o comércio de celulose de fibra curta, reelaborando o mapa de localização das plantações, e expandindo para diferentes áreas do globo principalmente o eucalipto australiano.
Já segundo Magaldi (1991), Joly (2007, p. 33), Hilgemberg e Bacha (2001, p. 148) e Suzano Papel e Celulose (sítio eletrônico), foi a Suzano Papel e Celulose que começou, na década de 1950, a realizar pesquisas para a produção de celulose a partir do eucalipto (a empresa inclusive teria alugado um laboratório na Universidade de Flórida para esse fim), as quais levaram ao desenvolvimento de tecnologias para a produção de celulose por meio de fibras curtas. Independentemente de qual foi o início das pesquisas, o fato é que se investiu e