2. AS LÍNGUAS DO MERCOSUL COMO GLOBAIS, DE INTEGRAÇÃO REGIONAL, NACIONAIS
2.3 Português, espanhol e guarani como línguas nacionais 65
2.3.1 As políticas linguísticas dos Estados nacionais 67
Na história brasileira, teve relevância significativa na promoção da língua portuguesa no território nacional um acontecimento político-linguístico que data ainda do período colonial (1755), chamado de Diretório dos Índios. Nele, explica Mariani (2004), o uso do tupi jesuítico, muito difundido na colônia, foi proibido em benefício do português, que deveria ser falado, ensinado e escrito nos moldes da gramática portuguesa vigente na Corte. Com isso, o Brasil deu os primeiros passos na política monolíngue que caracterizou sua transformação em Estado nacional. Tanto na independência, em 1822, quanto na proclamação da República, em 1889, a língua de Portugal foi entendida pelos dirigentes estatais como a língua representativa da nação, conceito que abafou a presença das línguas indígenas, africanas, de imigração e de fronteira no universo público brasileiro pelas décadas seguintes. Ou seja, do Império (passando pela República Velha, pelo Estado Novo, pela redemocratização) à Ditadura Militar, predominou nas Cartas Magnas do Brasil, o ideal de unidade linguística, que só foi questionado com a chamada Constituição Democrática, de 1988, que atentou, finalmente, para a diversidade das línguas do país, como mostra Fiorin (2008a).
Esse autor também recupera a presença do português nas Constituições Nacionais brasileiras: a língua portuguesa foi consagrada como oficial na de 1823; deixou de ser mencionada na de 1824 (outorgada por D. Pedro I) e na de 1891 (a republicana); voltou a ser citada na de 1934 (a polaca de Getúlio Vargas) como língua obrigatória nos estabelecimentos de
ensino; não foi citada na de 1937 (que instituiu o Estado Novo); na de 1946 foi alvo da instituição de uma comissão que definiria o nome da língua nacional; na de 1967 (a da ditadura militar) foi referida como língua nacional obrigatória para o ensino e o alistamento militar; e na de 1988 (a democrática) é apontada como língua oficial do Brasil em meio à diversidade das línguas indígenas que também compõem a nação.
Apesar da ausência da temática da língua na Constituição Federal de 1937, Getúlio Vargas, no ano seguinte, iniciou uma forte campanha pela nacionalização da educação, em cujas medidas incluíam-se, além da interiorização da rede pública, o uso obrigatório do português no ensino e a exigência de brasileiros natos para a direção das escolas rurais (PAYER, 2009; FERIGOLO, 2009). A continuidade dessa proposta está representada no Rio Grande do Sul pelas “brizoletas”, modestas escolas rurais construídas entre os anos de 1959 e 1963 por Leonel Brizola, herdeiro político de Vargas, com a intenção de erradicar o analfabetismo no estado (QUADROS, 2001). As brizoletas alcançaram as fronteiras do Rio Grande do Sul, notadamente rurais, e ajudaram a projetar a língua portuguesa com mais força nessa área, por meio do sistema de ensino.
As determinações legais sobre a língua na educação, especialmente em áreas rurais, na Era Vargas17, tiveram como objetivo principal não o combate à língua espanhola nas fronteiras internacionais do Brasil, mas sim o propósito de nacionalizar os imigrantes, que foi reforçado no contexto das guerras, em que estes, sobretudo, os italianos, alemães e japoneses tornaram-se potenciais inimigos da nação (PAYER, 2009). Outra razão que leva a crer que a língua espanhola não era o alvo central das medidas desse período são os acordos firmados entre os governos brasileiro e argentino, ao longo da década de 1930, permitindo a criação de instituições para a difusão da cultura de um país no outro, a convocação de intelectuais e especialistas em diversas áreas para intercâmbios e a promoção de outros projetos de aproximação (CANTEROS, 2010), como a construção da primeira ponte unindo Brasil e Argentina, entre as cidades de Uruguaiana e Paso de los Libres, em 1943. Mesmo assim, a política linguística da Era Vargas, ao referir-se genericamente a línguas estrangeiras, não excluía o espanhol das suas medidas de aportuguesamento, o que pode ter surtido significativo efeito sobre a imprensa da zona fronteiriça gaúcha que, nesse período da história, segundo Dornelles (2004), já contava com diversos jornais em circulação.
Na trajetória histórica da consolidação da nação, esta foi inscrita em uma condição linguisticamente unitária e homogênea, de modo que o português foi alçado à categoria de língua
oficial e nacional e, muito frequentemente, entendido como língua materna de toda a população do país. Assim, hoje, se observa uma tripla sobreposição (nacional-oficial-materna) no imaginário social brasileiro. Segundo Mariani (2009, p.4):
A configuração histórica e política do Brasil como nação institucionalizou a língua portuguesa como língua nacional e oficial, tornando-a hegemônica, sobretudo nos grandes centros urbanos e disseminando-a na região rural (....). Assim, se durante décadas concluiu-se a favor de uma homogeneidade lingüística no Brasil, nos dias de hoje coloca-se em discussão o fato de que o Brasil é um país multilíngue.
O plurilinguismo do Brasil é defendido por diversos linguistas, entre eles Oliveira (2007), que alerta para o fato de que, no país, atualmente, são faladas 210 línguas, das quais 180 são de nações indígenas e 30 de comunidades de imigrantes. O Censo de 2010 conferiu mais precisão ao montante das línguas indígenas faladas no Brasil: trata-se de 274 línguas, conforme divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (CENSO 2010: POPULAÇÃO INDÍGENA É DE..., 2012). Apesar de ter sido a primeira da história do país a mencionar a pluralidade linguística, na Constituição Federal de 1988, como observa Fiorin (2008a), nem as línguas de imigração (que até hoje constituem a língua materna de muitos brasileiros), nem as línguas africanas (preservadas nos cultos e no léxico incorporado ao português), nem a língua espanhola (largamente falada e mesclada ao português nas regiões de fronteira internacional do Brasil), são citadas como componentes desse plurilinguismo. Desse modo, a Constituição cita apenas as línguas que julga necessárias de proteção pelo argumento da unidade (o português é a língua da nação) e da origem (as indígenas são nativas).
Na Argentina e no Uruguai, o valor da língua espanhola como elemento identitário da nação foi igualmente importante, sendo traduzido, sobretudo, nas políticas linguísticas aplicadas à educação. A situação da Argentina pós-independência era a de um país que recebia enormes contingentes de migrantes europeus, especialmente de italianos. Nesse momento, a língua foi um dos pontos da discussão sobre a busca da identidade do novo país. Havia, na intelectualidade do período, os adeptos à adoção de uma língua indígena, que ajudasse a cortar os vínculos com a ex- metrópole, e os favoráveis à manutenção da língua espanhola, que facilitaria a inserção do país no comércio internacional agropecuário (PROLO; TAPIA-KWIECIEN, 2009). “Mientras [Andrés] Bello sostenía que había que seguir a pie juntillas a los españoles, [Domingo Faustino] Sarmiento pugnaba por la imposición de nuestra propia lengua con espíritu independentista y con una real conciencia lingüística” (LABRAÑA; SEBASTIAN, 2004).
Tendo-se decidido pela língua espanhola, o Estado argentino buscou promover a identidade nacional por meio de políticas linguísticas quederam exclusividade a essa língua
edeixaram de lado o aporte africano, indígena e migratório (CARULLO E MARCHIARO, 2009). Os autores calculam que a força dessas políticas fez com que, até 1920, a situação plurilíngue da Argentina praticamente deixasse de existir. Essas políticas estiveram calcadas, especialmente, no amplo sistema educacional público e laico do país, cuja expansão se deu ainda na segunda metade do século XIX. Pela escolarização em massa, buscou-se construir uma identidade nacional, usando a língua espanhola como aglutinadora dos diferentes elementos culturais que compunham a nação (PROLO; TAPIA-KWIECIEN, 2009). Como resultado, hoje, segundo Barei (2009), 95% da população argentina tem como língua materna o espanhol.
O Uruguai, no seu percurso de consolidação como nação, se caracterizou pela escassez de políticas linguísticas estatais (BROVETTO, 2010). Essa escassez permitiu, por algum tempo, que o Norte do país se constituísse como uma área de fala portuguesa. Segundo a autora (2010), mesmo estando a língua espanhola ameaçada pela intensa imigração europeia que ocorreuentre 1860 e 1920, apenas em 1887, foi aprovado o Reglamento de la Instrucción Pública, que consagrava a educação generalizada, laica, gratuita, obrigatória e em língua nacional (espanhola). Embora aprovado em 1887, o sistema alcançou a fronteira Norte apenas por volta de 1920 (BROVETTO, 2010). Quando implantado, explica a autora, foi o principal mecanismo de regulação linguística da área, mas funcionando ainda de maneira débil, pois, até então, o restante do país tampouco havia sido organizado na questão educativa. A característica bilíngue da fronteira com o Brasil, tratada como el mal fronterizo pelo governo uruguaio, fez com que, até a metade do século XX, todos os falantes de português do Norte fossem educados como os hispano-falantes do Sul, com proibição expressa de usar o português. Conforme Brovetto (2010), até hoje, o papel tradicional da escola local tem sido o de reforçar e promover o uso do espanhol e de corrigir as falas incorretas típicas da área.
Atualmente, a fronteira uruguaia com o Brasil é considerada bilíngue, com presença do espanhol e do português do Uruguai (BROVETTO, 2010). A autora usa a expressão “português do Uruguai” porque a história da zona fronteiriça indica que a presença do português nessa região não se explica por um avanço dessa língua desde o Brasil, mas que se trata de uma língua de herança colonial portuguesa. A esse dialeto chamou-se Dialecto Portugués del Uruguay (DPU). O entendimento de que o português é uma língua uruguaia orientou a recente Ley General de Educación (nº 18437/2009), que inclui uma breve, mas densa, referência a questões linguísticas (BROVETTO, 2010). A lei reconhece, conforme a autora, a condição heterogênea em matéria linguística da sociedade uruguaia e passa a integrá-la aos propósitos da educação, com o ensino
bilíngue português-espanhol por professores uruguaios nas escolas uruguaias. Também menciona o português como língua materna dos habitantes uruguaios (BROVETTO, 2010). No entanto, ressalta, não o menciona como língua nacional ou oficial; ao passo queo espanhol, este sim, é tratado em tais documentos como língua nacional e, por seu uso nos documentos do Estado, também é entendido como oficial.
A história da nacionalização do português e do espanhol nos paísesdo Prata é também a história da marginalização e da resistência do guarani. Enquanto o tupi ingressou em uma paulatina decadência até sua quase desaparição (exceto um ramo, o ñe'ẽngatu da Amazônia), de um modo geral, o guarani adquiriu uma fortaleza notável no que hoje é o Paraguai e as zonas co- lindeiras dos países vizinhos: Nordeste argentino, Sul boliviano e Sudoeste brasileiro (MELIÀ et al, 2008). Ou seja, o guarani foi transformando-se em uma das principais línguas fronteiriças da região do Prata. Apesar de sua presença em pelo menos cinco países da América do Sul e do seu reconhecimento como língua autóctone das nações, apenas no Paraguai, o guarani atingiu o patamar da oficialização, em 1992, esclarece o autor.
Melià (1988) explica que o que genericamente chamamos de língua guarani teve, desde o princípio da era colonial, diversas realizações dialetais diferentes. Na história da região do Rio da Prata, segundo o autor, podem-se identificar pelo menos três realizações distintas do guarani, conforme as posições que essa língua ocupava na estrutura social do país em formação: o guarani das florestas, dos colonos e o das missões jesuíticas. Rodriguez-Alcalá [20--] menciona ainda um quarto guarani, o dos índios administrados pelos franciscanos ou pelo clero secular. O guarani das florestas é o dos povos que retardaram o contato com o colonizador, se refugiando na mata (MELIÀ, 1988); “El guaraní de los colonos había dejado de ser una lengua indígena, y por otra parte no llegaba a recubrir todos los campos de la comunicación social; el guaraní colonial había perdido la batalla de la administración y de la cultura” (MELIÀ, 1988, p. 42); o guarani das missões jesuíticas, segundo esse mesmo autor, foi uma língua literária desde o princípio, sem dicotomias nas áreas semânticas. Já o guarani dos franciscanos e do clero foi o dos primeiros trabalhos gramaticais e traduções nessa língua (RODRIGUEZ-ALCALÁ, [20--]).
As principais investidas contra a língua guarani que, no período colonial, se estendia desde o litoral de Santa Catarina, ao longo do Rio Paraguai, Paraná, Apa e Miranda, chegando até o Chaco boliviano (BRAND; SOUSA; GUIMARÃES, [20--]), ocorreram a partir da nacionalização das ex-colônias espanholas e portuguesas. Uma das medidas danosas à língua foi o próprio estabelecimento das fronteiras geopolíticas entre os Estados. Os novos países
instituíram limites que separavam povos guarani de um mesmo grupo, como os Pãi Tavyterã, no Paraguai, que são, originalmente, os mesmos que os Kaiowá, no Brasil, como exemplificam Meliàet al, em seu Caderno e Mapa sobre os povos guarani, de 2008. Para os autores do estudo, sem dúvida, as fronteiras políticas dos Estados nacionais têm provocado, atualmente, fortes diferenças culturais, políticas, religiosas e linguísticas entre os povos de fala guarani dispersos pelos países platinos (ver Figura 6).
Outra medida lesiva à língua guarani foi a implementação de aparatos estatais em torno do português e do espanhol no ensino, na administração e na comunicação social dos países do Prata. Mesmo no Paraguai, para atingir o grau de oficial, o guarani passou por uma longa trajetória de resistência (MELIÀ, 1988). Segundo o autor, já em 1812, a Junta de Gobierno instruiu os professores de que a língua da sala de aula deveria ser o castelhano, e de que o guarani deveria ser eliminado. Mesmo que, durante a Guerra do Paraguai, o guarani tenha sido usado na imprensa e nas comunicações militares como modo de ludibriar o inimigo e como elemento de coesão nacional (FERNANDEZ, 2002; ZAJÍKOVÁ, 2009), na constituinte pós-guerra, houve um rechaço total de que as discussões pudessem ser em língua guarani (MELIÀ, 1988). Na Guerra do Chaco, novamente, o guarani ocupou a mesma função tática e coesiva (FERNANDEZ, 2002; ZAJÍKOVÁ, 2009), o que igualmente não resultou em atenção a essa língua pelos estadistas paraguaios, após a guerra18.
Apenas em 1967, foi reconhecida a existência do guarani pela Constituição Nacional do Paraguai, ainda que a língua oficial seguisse sendo o espanhol (FERNANDEZ, 2002). Na década de 1970, o país começou a discutir a questão do bilinguismo, até então ignorada, quando se viu diante de um impasse no sistema educativo: 25% dos alunos que chegavam à escola repetiam por falta de base (“no tuvo base”), que era, na ampla maioria dos casos, base linguística (MELIÀ, 1988). Com a redemocratização do país, em 1989, e a Constituição Nacional dela resultante, o guarani foi posicionado, ao lado do espanhol, como língua oficial do Paraguai, em 1992 (FERNANDEZ, 2002). Em 1994, uma reforma educacional instituiu a educação bilíngue obrigatória nos nove anos da educação básica, em todo o território nacional paraguaio (VILLAGRA-BATOUX, 2002; RODRIGUEZ-ZUCOLILLO, 2000), sendo o direito à educação em língua materna reafirmado pela Ley de Lenguas (nº 4251) do Paraguai, em 2010.
18
As duas guerras em que o Paraguai se envolveu foram a 1) Guerra do Paraguai ou da Triple Alianza, envolvendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, de1865 a 1870, e a 2) Guerra doChaco, entre Paraguai e Bolívia, de 1932 a 1935.
Conforme o censo paraguaio de 2002, 58,2% da população do país é bilíngue guarani- castelhano; 27,8% é falante monolíngue de guarani; 11% é falante monolíngue de castelhano e 3% de outras línguas (ZAJÍKOVÁ, 2009). Além disso, segundo informações do site Linguamón, o guarani paraguaio é um fenômeno linguístico entendido e definido com, aproximadamente, 35 denominações pelos seus próprios falantes, o que inclui modos de falar resultantes do seu contatocom o espanhol e com o português: yopará (guarani-espanhol), tripará (guarani-espanhol- português), guarani comum, guarani culto, guarani de escola, guarani teeté, guaraniymaguaré, guaranieté, guarani-guarani, ñe'ëindio, guaranhol, etc.
Contudo, nem a ampla difusão social da língua nem o reconhecimento do Estado paraguaio fizeram com o que o guarani alcançasse o mesmo status do espanhol, já que a língua guarani ainda é associada à oralidade, à informalidade e à ruralidade no país (MELIÀ, 1988; RODRIGUEZ- ZUCOLILLO, 2000). Como mostra Melià (2007, [sp]), o guarani é língua materna de 42,9% da população urbana e de 82,7% da população rural do Paraguai. Para o autor, “el hecho de que el país se haya tornado más urbano (no necesariamente más civilizado) en el último decenio sin duda afecta al desarrollo de las lenguas”, em favor do espanhol. Essa distribuição social da língua nos meios rural e urbano, como se verá noTópico 4.1, tem, também, influência sobre o uso de guarani e do espanhol pelos meios de comunicação do país.
Nesse sentido, para Melià(2007) e Zajíková (2009), ainda que a opção mais evidente no Paraguai pareça ser o bilinguismo, em realidade, a conjuntura atual conduz mais bem para a substituição do guarani pelo castelhano. Mesmo o fato de que, argumenta Melià (2007), a Constituição Nacional reconheça duas línguas oficiais (o castelhano e o guarani), ela não pôde assegurar o dever de falá-las e de delas fazer uso nas instâncias oficiais; e na prática nem sequer o direito de poder usá-las. Desse modo, o guarani não é língua de trabalho no âmbito social, tanto que está ausente do discurso jurídico, político e da administração pública (RODRIGUEZ- ALCALÁ, 2001).