4. A aprendizagem humana e a educação ao longo da vida na Formação de
4.4 As políticas públicas nas ações educativas para a Formação do Condutor no
O trânsito é um espaço público que, “em condições seguras, é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito”. Cabe, portanto, a esses órgãos, dentro de suas competências, responder “por danos causados aos cidadãos em virtude de ação, omissão ou erro na execução e manutenção de programas, projetos e serviços que garantam o exercício do direito do trânsito seguro” (CTB, 1997). Ou seja, “no Brasil, o direito à vida, direito maior do cidadão, é dever constitucional do Estado” (SHÄFFER, 2002, p. 162),
O fato de o Estado ser responsável pela segurança no trânsito não exime os cidadãos de suas responsabilidades. Entretanto, à medida que o bem-estar comum esteja ameaçado pelas necessidades individuais, o poder público deve intervir efetivamente para garantir a organização do espaço social. Nessa perspectiva, “o comportamento humano no trânsito, tanto do pedestre quanto dos motoristas, é fundamental para entendermos a dinâmica e a ocorrência dos acidentes: não somos máquinas, somos seres humanos e, portanto, falíveis no mais alto grau” (VASCONCELLOS, 1998, p.87). Por isso, o Estado deve investir seus esforços para minimizar os conflitos de trânsito, na educabilidade
23 Dispõe sobre a formação teórico-técnica do processo de habilitação de condutores de veículos automotores elétricos como atividade extracurricular no ensino médio e define os procedimentos para implementação nas escolas interessadas. Disponível em <https://infraestrutura.gov.br/images/Resolucoes/RESOLUCAO_CONTRAN_265.pdf>. Acesso em 02 de dezembro de 2019.
humana e na melhoria das relações sociais dentro desse espaço. Ball (2013) completa, dizendo que as
relações sociais são bens – algo para ser “investido”, produzindo “retorno”. Elas devem ser “produzidas” porque não estão aí, não são naturais, não têm materialidade própria nem uma história própria, não possuem uma narrativa nem uma base em experiências mútuas ou em uma história comum. Ao contrário, as relações sociais são contínua e deliberadamente produzidas, reproduzidas e consumidas” (p. 151).
O sistema político e econômico do Brasil, segundo Vasconcellos, tendo se constituído por “uma república federativa dentro de um Estado de direita e de economia capitalista, isso tem várias implicações na construção da cidade e de seu sistema de transporte” (2012, p. 10). Por esse princípio, a ocorrência de divergências nos interesses da população e da sociedade a respeito dos bens econômicos e de consumo pode comprometer o investimento em mobilidade e nos processos educativos dos cidadãos. Por outro lado, entende-se segundo Delors (1997) que a educação
é o papel que cabe ao político, a quem compete definir o futuro por uma visão a longo prazo, assegurar ao mesmo tempo a estabilidade do sistema educativo e a sua capacidade de se reformar, garantir a coerência do conjunto, estabelecendo prioridades e, finalmente, abrir um verdadeiro debate da sociedade sobre as opções econômicas e financeiras. (p. 169)
Porém, fundamentando-se na difícil circulação dos usuários no trânsito e, principalmente, apoiando-se na considerável quantidade de acidentes graves e com vítimas fatais no trânsito, tornou-se necessário ao Estado, por meio do Sistema Nacional de Trânsito, adotar medidas para combater essa drástica realidade.
A nível mundial, a ONU (Organização das Nações Unidas) lançou, em maio de 2011, 2011-2020 a Década24 de ação pela segurança no Trânsito, para promover a diminuição
do número de vítimas no trânsito, que se trata da nona causa de mortes no mundo. No Estado do Rio Grande do Sul, em 2010, eram alarmantes as estatísticas de vítimas fatais, pois chegaram a 2.190. Portanto, com a intensificação das ações de fiscalização e educação, esse número diminuiu, mas ainda não atingiu um quadro ideal.
Para Vasconcellos (2012), a intervenção no trânsito parte de três princípios fundamentais. Inicialmente, é preciso eliminar a dissociação entre o conteúdo da educação formal para o trânsito e o que acontece na prática. O segundo princípio é em
24 Disponível em <https://nacoesunidas.org/campanha/seguranca-transito/> Acesso em 19 de agosto de
função de verificar a falha na sinalização, que reforça comportamentos em desacordo com as leis. O terceiro princípio diz respeito à vivência das pessoas nos bairros, que pode servir de base para análises e discussões sobre os comportamentos inadequados no trânsito. Para Bourdieu,
dado que concentra um conjunto de recursos materiais e simbólicos, o Estado tem a capacidade de regular o funcionamento dos diferentes campos, seja por meio de intervenções financeiras (como, no campo econômico, os auxílios públicos a investimentos ou, no campo cultural, os apoios a tal ou qual forma de ensino), seja através de intervenções jurídicas (como as diversas regulamentações do funcionamento de organizações ou do comportamento dos agentes individuais) (2011, p. 51).
Na formação de condutores, que são as maiores vítimas dos acidentes de trânsito, as ações convergem na intervenção da educação informal e nas ações de educação não formal e formal. Na educação formal, os CFCs são o foco do trabalho, que ainda está bastante vinculado à legislação e às normas de trânsito, sendo que de modo tímido tem se concentrado na formação continuada dos profissionais dos Centros. Seguem algumas ações de educação desenvolvidas pelos órgãos, com enfoque nos CFCs, nos anos de 2018 e 2019:
Figura 8 – Ações de educação continuada para profissionais de CFC 2018
Fonte: DETRAN/RS25
25 Disponível em: <https://www.detran.rs.gov.br/detranrs-oferece-curso-para-instrutores-de-centros-de- formacao-de-condutores-5bb9a8ba0a8e7> e <https://www.detran.rs.gov.br/encontro-reune-responsaveis- pedagogicos-de-centros-de-formacao-de-condutores>. Acesso em 04 de novembro de 2019.
Figura 9 - Ações de educação continuada e integração para os CFCs 2019
Fonte: DETRAN/RS26
Salientamos, com isso, que o mais importante na formação do condutor, nas ações educativas promovidas pelo Estado, é ter a convicção de que a educação deve ser adequada ao público com que está trabalhando, estando sempre ao alcance das reais necessidades da população. Além disso, é preciso ter a ideia de que ele deve estar atuante para as mudanças no trânsito, a fim de facilitar o acesso das pessoas à educação e ao deslocamento seguro no trânsito. Ball (2013) enfatiza que,
no interior desse mundo social de aprendizagem, tudo é possível e nada é estável. Não existem certezas ou complacências onde descansaríamos e nos alojaríamos. Devemos nos tornar desenvolvedores ao invés de “sujeitos estáveis”, capazes de uma realização de si diferente em contextos distintos e mutáveis, abandonando os essencialismos modernos (p. 150).
Por isso, a vontade do Estado aliada ao interesse social, com o entendimento de que o trânsito afeta a todos, independente do modo de circulação, pode ter como consequência a exigência de maiores investimentos públicos para o espaço do trânsito. É obvio que, somando a isso, deve haver contribuições de cada um no âmbito dos valores e da coletividade. Isso, por sua vez, deve ser motivado pelo Estado.
26 Disponível em <https://www.detran.rs.gov.br/balada-segura-aposta-na-integracao-entre-prefeituras- conveniadas-e-centros-de-formacao-de-condutores> e <https://www.detran.rs.gov.br/detranrs-qualifica- instrutores-de-transito-para-educacao-de-adultos> Acesso em 04 de novembro de 2019.
5. A abordagem didático-pedagógica nos processos de ensino-aprendizagem nos