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De acordo com Rua (apud BRENER et al., 2005, p. 200) “as políticas públicas dirigidas aos jovens no Brasil são recentes e pouco consistentes.” Com base em balanço feito no início dos anos 1990, verificou-se que não havia naquele momento políticas públicas federais com destinação específica para as juventudes, visto que os programas existentes que atingiam os jovens não se constituíam como uma verdadeira política pública, mas nas palavras da autora um “estado de coisas” que não conseguiu alçar a condição de problema de natureza política e tampouco ocupar significativamente a agenda pública.

Já para Mota (2010) a trajetória das políticas de juventude tem suas primeiras expressões com o Código de Menores de 1927, extinto em 1970, que tinha por objetivo o ingresso de jovens no mercado de trabalho e, principalmente, o “saneamento social” de indivíduos indesejáveis. Também surgiram outras políticas na sequência, com o mesmo caráter de controle social através da educação. Sposito (2003) destaca também outras tendências de políticas de juventude e de adolescentes, no final da década de 1980, na área da saúde e são marcadas pelo foco da prevenção de condutas de risco (DST/AIDS, drogas, acidentes de trânsito e gravidez precoce). Mota (2010) destaca ainda a promulgação do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, que tornou-se um marco legal no ordenamento jurídico da proteção dos direitos desse grupo populacional contido entre 0 e 18 anos, introduzindo a doutrina de proteção integral, mas afirma que é a partir do início da década de 1990 que conseguimos visualizar inúmeras iniciativas governamentais articuladas, de modo particular com a UNESCO - Organização das

Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, sobretudo no segundo mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso, que visava a promoção dos direitos juvenis. Apesar do apresentado por pelo autor, observa-se que de fato, as políticas públicas anteriores ao governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), não denotam políticas públicas específicas de juventude, mas sim políticas públicas visando atender crianças, adolescente e até mesmo adulto, que acabava por contemplar parcelas do segmento juvenil, nunca compreendendo a sua totalidade, ou seja, a população de 15 a 29 anos, visto que esta definição de juventude denota os anos 2000. Somente com o aumento dos índices de violência e o narcotráfico, protagonizados por jovens, tornando o tema da criminalidade uma importante pauta, é que se começa a pensar de fato em políticas públicas de juventude, sendo isto a partir dos anos 1990.

A UNESCO publicou várias pesquisas sobre juventude contribuindo para o debate dessa categoria social com o objetivo de ajudá-la no seu empoderamento. Mota (2010, p.5) aponta que “No período de 1994 a 2002, no âmbito federal, foram lançados 33 programas focados nos jovens, dando a conotação de uma nova trajetória na formulação de políticas de juventude.”

A identificação dos referidos 33 programas que incidem sobre a juventude no âmbito federal é acompanhada também da constatação de que os mesmos não constituem uma totalidade orgânica naquilo que se refere à sua focalização no segmento jovem. Na análise do público a que se destinam, pode-se dizer que existem focos fortes, médios ou de fraca intensidade, sendo distribuídos da seguinte forma: a) o foco dirige-se explicitamente a adolescentes e/ou jovens (18 programas ou projetos); b) o foco é difuso entre crianças e adolescentes ou jovens e adultos (10 programas); e c) o foco dirige-se à população jovem apenas de modo incidental (cinco programas) (SPOSITO e CARRANO, 2003, p. 23).

Para os autores, tais programas4 não são exclusivos para juventudes, sendo constatado que a maior parte destina-se a crianças e adolescentes, sendo beneficiada, apenas, a parcela de jovens compreendida entre 15 e 18 anos. Tratava-se de programas desenvolvidos através de parcerias com governos estaduais, municipais e até mesmo ONGs. Brener et al(2005, p. 2000), contextualiza esta como uma época caracterizada por um modelo de administração pública em forte sintonia com os princípios de reorientação da ação do Estado preconizado pelas grandes agências de desenvolvimento social e econômico da globalização capitalista, notadamente o Banco Mundial, o FMI e

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Para melhor análise do programas e projetos do Governo FHC para a juventude vide SPOSITO, M. P. ; CARRANO, P.C.R. Juventudes e políticas públicas no Brasil. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, n.24, p.16-39, Set – Dez.2003.

o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Princípios orientadores, tais como a focalização em populações consideradas em condição de vulnerabilidade e risco social, a diminuição do aparato estatal e a realização de parcerias do setor público com os setores privados deram o tom da sinfonia do fazer política pública no Brasil dos anos 90. No segundo mandato de FHC surgem variadas ações federais destinadas direta ou indiretamente ao público jovem realizadas em parcerias com organizações da sociedade civil e prefeituras. Cassab et al. (2007) destaca a ação por parte do governo tendo como foco as juventudes intensificam no segundo mandato de FHC com a implementação de três programas que envolvem transferência de renda e impõe uma contrapartida: o Projeto Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano, Serviço Civil Voluntário e o Programa Bolsa Trabalho Renda.

Sposito (apud CASSAB et al., 2007) afirma que isso ocorre dada à repercussão midiática que alguns atos de violência praticados por jovens no país adquirem naquele momento. Trata-se, portanto, de ações emergenciais com caráter compensatório, fragmentado e focalizado, resultando em grande precariedade. Há uma ausência de articulação, acompanhamento, e avaliação dos programas federais, sendo dispersos na sua formulação, execução e dotação orçamentária. Autores como Leão (2004) destacam que tais políticas implementadas ao longo do governo FHC careciam de políticas estratégicas e efetivas que não submetam os jovens como indivíduos carentes, meros beneficiários de projetos e programas, mas que os entendam como sujeitos de direitos, agentes estratégicos da construção social. A autora destaca ainda que a própria concepção destas ações no governo federal nunca chegou a se constituir a partir de um corpo de definições políticas estratégicas com objetivos claros e articulados, passíveis de serem desdobrados em várias iniciativas diferentes, porém com unidade de princípio e perspectiva de ação comum.

De qualquer modo, mesmo que não se possa falar na esfera federal de políticas estratégicas orientadas para os jovens brasileiros, algumas propostas foram executadas, sobretudo com base na idéia de prevenção, de controle ou de efeito compensatório de problemas que atingem a juventude, transformada, em algumas situações, num problema para a sociedade (SPOSITO e CARRANO, 2003, p. 21).

Observa-se, portanto, que as ações governamentais vistas até então, tratavam o jovem como “grupo de risco”, carecendo do olhar da juventude como sujeitos de direito, ou como atores estratégicos no desenvolvimento tão pouco visavam à construção de seu capital social ou seu empoderamento.

Outra característica apresentada por Sposito e Carrano (2003) versa sobre a coordenação do governo FHC em relação aos programas e projetos, visto que nenhum órgão da administração federal demonstrou capacidade de concentrar e publicar informações acerca das políticas de juventude, sendo afirmado pelos autores que os diagnósticos, deste período, se relacionam com a constatação da ausência de registros sobre a avaliação e o acompanhamento gerencial das políticas.