2 A POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE: BREVE DISCUSSÃO TEÓRICA
3.3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS E A INTERSETORIALIDADE: UM
No Brasil a intersetorialidade vem ganhando maior interesse por parte dos estudiosos, destacando a área de políticas públicas, de tal sorte que esse
processo como assevera Pereira (2014, p. 24) “apoia-se no reconhecimento de que a relação concertada entre ‘setores’ implica mudanças substanciais na gestão e impactos dessas políticas, bem como ampliação da democracia e da cidadania social”.
Nas políticas públicas a intersetorialidade pode ser vista enquanto meio para superar as práticas fragmentárias que são impostas pela relação Estado x sociedade, que oferece os serviços de forma setorizada. Sendo que, as políticas públicas são o campo que permitem análises partindo de “características gerenciais nas teorias da administração pública e em debates acerca das finalidades de seu uso sob o ponto de vista ético, político e de projetos societários” (TUMELERO, 2010, p. 1).
Neste sentido, entende-se que a intersetorialidade deve transcender um único setor, isto é, deve ser apreendida enquanto estratégia de articulação entre esses setores e, por isso, requer pesquisa, planejamento e avaliação para que sejam desenvolvidas ações que beneficiarão todos os setores envolvidos no processo, por meio da articulação de saberes e experiências em prol de um objetivo comum, sendo assim:
[...] a intersetorialidade, considerada um rompimento da tradição fragmentada da política social, que a divide em ‘setores’, admite que ela propicie mudanças de fundo; isto é, mudanças nos conceitos, valores, culturas, institucionalidades, ações e formas de prestação de serviços, além de inaugurar um novo tipo de relação entre Estado e cidadão (PEREIRA, 2014, p. 26).
A intersetorialidade nessa perspectiva, portanto, sinaliza em direção a concretização de direitos sociais, constituindo assim um caminho à promoção da cidadania e, consequentemente, com perspectivas de mudanças, o que encoraja os atores envolvidos neste processo a criarem mecanismos de efetivação desse processo de articulação e agregação.
Segundo Monnerat e Souza (2014) a intersetorialidade é um mecanismo estratégico à gestão e construção de interfaces entre diferentes setores com vistas ao enfrentamento de problemas sociais que são transponíveis a gestão do governo ou das políticas públicas, ou seja, as ações desenvolvidas deverão
ser de responsabilidade de diferentes setores para que o objetivo comum seja alcançado.
Yazbek (2014), por sua vez, destaca que a intersetorialidade é a articulação entre políticas públicas que se efetiva pela construção de ações conjuntas direcionadas à Proteção Social, de tal forma que essa articulação deverá envolver os diferentes setores à superação da fragmentação das necessidades sociais da população. Essa articulação deve pautar-se, portanto, pela descentralização das ações, alcançando os municípios e suas redes de atendimentos.
A intersetorialidade supõe também a articulação entre sujeitos de áreas que tem suas especificidades e diversidades e, portanto, experiências particulares, para enfrentar problemas complexos. É uma nova forma de gestão de políticas públicas que está necessariamente relacionada ao enfrentamento de situações concretas. Supõe vontade, decisão, que tem como ponto de partida o respeito à diversidade e às particularidades de cada setor ou participante. Envolve, portanto estruturação de elementos de gestão que materializem princípios e diretrizes, a criação de espaços comunicativos, a capacidade de negociação e também trabalhar os conflitos para que finalmente se possa chegar, com maior potência, às ações (YASBEK, 2014, p. 98).
De acordo com Sposati (2004), a intersetorialidade no campo das políticas públicas vem trazer para a discussão a ideia de complementaridade, pois o conceito de políticas setorizadas tem alçado vôos maiores no sentido de integrar as políticas públicas para estabelecer uma interrelação entre os setores da saúde, educação, habitação, assistência social, dentre outros. Sendo que, esta articulação pressupõe a descentralização e deve levar em consideração a territorialidade e a heterogeneidade das ações.
Pode-se inferir, portanto, que a relação da intersetorialidade com as políticas públicas transcende o âmbito da articulação. Ela vislumbra a complementaridade entre essas políticas, de tal forma que uma agrega-se a outra por meio de suas experiências e contribuições, as quais favorecem a interrelação entre os setores de políticas públicas.
De acordo com Garajau (2013), a intersetorialidade no campo das políticas públicas está relacionada a operacionalização e gestão social, de tal
forma que a participação de todos os envolvidos no processo de desenvolvimento das ações é de caráter indispensável, uma vez que são esses sujeitos os detentores dos saberes necessários para a troca de experiências, assim como serão aqueles que terão os resultados dessa relação em prol de um objetivo comum.
Articular saberes requer uma ‘readequação’ dos serviços ofertados pela gestão pública, além de uma readequação na caracterização e envolvimento dos sujeitos no processo de operacionalização das atividades de gestão. Percebe-se que a estrutura posta nos modelos tradicionais, os planos e as ações, perpassam por uma padronização pautada em decisões e definições das necessidades coletivas formuladas a partir da perspectiva de técnicos e especialistas. Incluir a intersetorialidade como eixo de operacionalização da gestão social no campo das políticas é um desafio, pois historicamente a administração pública não foi organizada por esta referência (GARAJAU, 2013, p. 3).
É importante destacar que as experiências intersetoriais devem estar previstas nas agendas públicas partindo do comprometimento dos diferentes setores em suas atribuições específicas, para vislumbrar ações articuladas que atendam a todos, considerando que o planejamento e articulação que propõem a intersetorialidade são balizadores à integração das diversas áreas de políticas públicas.
A partir da explanação apresentada, percebe-se, portanto, que a intersetorialidade no campo das políticas públicas é trabalhada em diferentes abordagens como mostra a discussão dos autores. Entretanto, todos indicam a importância da intersetorialidade enquanto um mecanismo para transcender as ações e serviços em seus níveis setoriais, ou seja, as políticas públicas para sua eficiência e eficácia deverão estar articuladas umas as outras, de forma a buscarem a integralidade no atendimento das demandas sociais em seus diferentes campos, assim como a importância da intersetorialidade enquanto princípio organizativo que favorece a operacionalização das políticas públicas, como é caso da saúde.
3.4 POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE E A INTERSETORIALIDADE: ATUAÇÃO