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1. DIMENSÃO CONCEITUAL

1.2 POLÍTICAS PÚBLICAS

1.2.1 As Políticas Públicas e a sua interface com o Desenvolvimento

O Estado brasileiro a partir dos seus fundamentos normativos e institucionais

tem, entre outras finalidades, a de promover toda uma filosofia e modelo de sociedade no marco do Desenvolvimento Sustentável. Isto não é isolado do saldo socioeconômico deixado pelo século XX. Bursztyn e Bursztyn (2012) colocam na crise energética o momento emblemático para que a ação reguladora do Estado (e as Políticas Públicas em geral) tivesse uma mudança significativa de foco. Por um lado, a proteção ao capital manteve-se, mas por outro a proteção ao trabalho, que passou a ser protegido no final do século XIX, foi relegado a um segundo plano, enquanto cresce a preocupação com a proteção ambiental.

A proteção da natureza, a preocupação com o meio ambiente sadio e com a qualidade de vida, são traços marcantes do século XX (Bursztyn e Bursztyn, 2012). No contexto internacional começam a se debater temas relacionados com, por exemplo: a gestão dos recursos naturais por parte dos países chamados

desenvolvidos e aqueles em vias de desenvolvimento, o comportamento do clima e

as fontes de energia.

O momento histórico passou a exigir mais do Estado no seu conjunto, pedindo uma postura mais proativa na realização de condições básicas para a consecução da dignidade humana, a igualdade social e a conservação e preservação da natureza. Neste contexto internacional sugerido, em particular na segunda metade do século XX, o tema do desenvolvimento virou um problema político, que desembocou na criação de políticas estatais visando sua promoção. O conceito de desenvolvimento à época, contudo, estava baseado em torno da perspectiva puramente econômica, sem abranger diretamente aspectos do meio ambiente, saúde ou direitos humanos. Os principais indicadores eram, assim, de natureza econômica, pois desenvolver um país significava implantar uma economia de mercado que pudesse incluir ao menos a maior parte dos seus cidadãos, passando os países industrialmente avançados a representar os modelos a serem seguidos pelos demais (CEPAL, 2010).

A partir do final da década de 1960, com aportes e estudos como os de Cechin (2010) e Mueller (2007), alguns fatores passaram a tornar evidente a necessidade de análise do sistema econômico como imerso num sistema maior, 36

com o qual interage e ao qual também impacta, qual seja, o meio ambiente. Entre tais fatores encontra-se; a acentuação da poluição que acompanhou a prosperidade pós-II Guerra nas economias industrializadas; as crises do petróleo da década de 1970; e a publicação pelo chamado Clube de Roma, do relatório intitulado "Limites do Crescimento", também conhecido como "Relatório Meadows", em 1972, (comentado anteriormente), que propunha o crescimento zero como solução possível para evitar o colapso ambiental anunciado.

Até então, o sistema econômico era abordado de forma isolada, autocontida, como se o meio ambiente pudesse fornecer recursos naturais sob a forma de matérias-primas ou insumos de maneira abundante e ilimitada; e servir como depósito, também ilimitado, aos resíduos desse sistema (Daly, 1991). Ainda em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou, em Estocolmo, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, na qual se tornou evidente a resistência dos países em vias de desenvolvimento às conclusões do Relatório Meadows. Para eles apresentava-se com isto uma afetação direta nas suas possibilidades de crescimento. Contudo, apresentou-se neste contexto um ganho significativo, já que a partir dali, por primeira vez, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado foi declarado formalmente como um direito fundamental do ser humano (direito que posteriormente seria inserido na CF/88 no Brasil).

Em 1980, em estudo intitulado "Estratégia mundial para a conservação", da

UICN (International Union for Conservation of Nature), foi utilizada pela primeira vez

a expressão "Desenvolvimento Sustentável". Ela se tornaria conhecida ao ser inserida em 1987, no Relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ligada à ONU, também conhecido como "Relatório Brundtland"

definindo-o como "aquele capaz de satisfazer às necessidades presentes sem

comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas próprias necessidades" (LEUZINGER e CUREAU, 2008). Este relatório adquire importância no contexto desta pesquisa, já que, ele estabelece de forma expressa e detalhada os objetivos a serem procurados pelas Políticas Públicas de desenvolvimento e meio ambiente, após o diagnostico da comissão, segundo o comenta Freiria (2011), estes são: a) retomar o crescimento como condição para erradicar a pobreza, b) manter o nível da população sustentável, c) mudar a qualidade do crescimento para torna-lo mais justo, equitativo e com menor ênfase nas matérias-primas, d) conservar e

manter a base de recursos naturais, e) reorientar a tecnologia e administrar os riscos, f) atender as necessidades humanas de alimentação, energia, água e saneamento, e, g) incluir o meio ambiente e a economia nos processos decisórios.

A proteção do meio ambiente começa a se tornar, assim, elemento fundamental no processo de desenvolvimento (entendido neste cenário como um processo impulsionado fundamentalmente pela ação do Estado). Essa mesma tendência integrativa, entre política pública, meio ambiente e desenvolvimento encontra-se também na Agenda 21 – que será comentada posteriormente -, documento apresentado durante a ECO92, onde a relação entre direito e gestão ambiental é transversal. O capítulo 8 da Agenda, que trata da integração meio ambiente e desenvolvimento na tomada de decisões, por exemplo, define como meta para a sociedade:

O objetivo geral é promover, à luz das condições específicas de cada país, a integração entre as políticas de meio ambiente e desenvolvimento por

meio da formulação de leis, regulamentos, instrumentos e

mecanismos coercitivos adequados a nível nacional, estadual, provincial e local. Reconhecendo-se que os países irão desenvolver suas próprias

prioridades, em conformidade com suas necessidades e planos,

políticas e programas nacionais e, quando apropriado regionais. (ONU, 2001:120).

Um dos aportes mais significativos deste documento como parte da narrativa e tessitura entre política pública e meio ambiente é, precisamente, o realce do direito e da gestão de cunho socioambientais na construção de estratégias e delineamentos para o desenvolvimento. Como se pode deduzir, estes não são conceitos que surjam isoladamente, pois, nesta ótica, toda forma de crescimento de um país ou sociedade não-sustentável seria oposta ao conceito de desenvolvimento em si mesmo e ao de conservação e preservação da natureza, ao implicar na redução das liberdades e o bem-estar das gerações futuras.

Assim, vai também se configurando uma concepção do desenvolvimento como apropriação efetiva de direitos, que se apresenta como o indica Sen (2000), na eliminação das privações de liberdade que limitam as escolhas e oportunidades dos agentes, ou seja, em expansão das liberdades, sendo esta o principal fim e meio do desenvolvimento. Sachs (2004) confirma esta perspectiva, quando faz referência ao crescimento econômico, o qual ainda que acelerado, não significa desenvolvimento. Com isto, não é suficiente criar estratégias, planos e programas para maximizar o

crescimento do Produto Interno Bruto – PIB de um país -, para que ele se desenvolva, pois o objetivo maior deve ser a redução da pobreza e atenuação das desigualdades, sem depreciação da força de trabalho e fundamentalmente dos recursos naturais.

Sem dúvida, o “descobrimento” da proteção ambiental como novo campo das Políticas Públicas levou a transformações importantes em todos os arranjos tradicionais da ação do Poder Público. Como consequência novos atores políticos (institutos de pesquisa, associações e movimentos ambientalistas, entre outros), inseriram-se como parte do debate ao redor da questão ambiental, reestruturando todo o processo institucional e político (FREY, 2000).

Bursztyn e Bursztyn (2012) apontam nesta mesma direção quando argumentam que, por seu caráter multidimensional, as Políticas Públicas de cunho socioambiental envolvem necessariamente outros atores da sociedade, além do Poder Público. Para estes autores, as atividades produtivas e as associações e organizações da sociedade civil devem estar articuladas à ação do Estado em matéria ambiental. Seja como objeto de regulação (por exemplo, a politica agrícola com o marco regulatório ambiental), seja como missão (no caso da educação ambiental, de responsabilidade, por exemplo, das universidades); ou como parcerias de diversa natureza entre setor público e privado.

A partir destes elementos, assenta-se a compreensão que a política pública socioambiental – em específico - é o conjunto de iniciativas governamentais, envolvendo diferentes organismos e setores de intervenção pública, em articulação com atores não-governamentais e setores produtivos, voltadas à conservação, proteção, uso sustentável e recomposição dos recursos naturais (BURSZTYN e BURSZTYN, 2012).

Vale esclarecer que o foco neste conceito, a partir do qual se pretende desenvolver a investigação, não é apenas o ambiente biofísico, mas também, o modo como a sociedade e as atividades produtivas interagem com os diferentes ecossistemas. O ambiente construído, que inclui infraestruturas em geral, tanto no campo quanto nas cidades, também faz parte dos alvos da ação do Estado.

Buscando transformar as dimensões do Desenvolvimento Sustentável em

critérios objetivos de Políticas Públicas, a CF/88 exerce o papel norteador da proteção socioambiental no Brasil (em associação, por exemplo, com a legislação

infraconstitucional como a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) ou o Sistema

de Unidades de Conservação (SNUC)) 14.