2. AS TRANSFORMAÇÕES DO RURAL A PARTIR DO TRABALHO
3.3 As possibilidades a partir do "lixo"
A partir do quadro acima exposto acerca da questão dos resíduos O enfrentamento desta realidade segundo Ribeiro et al. (2009, p. 34) "passa necessariamente pela mudança dos padrões de consumo, mas também pela coleta diferenciada e recuperação de todos os tipos de resíduos sólidos, transformando-os em matéria prima para a produção de novos produtos".
Na década de 90 foram acionadas novas prioridades na gestão de resíduos sólidos no Brasil. A Conferencia Rio 92 e a consolidação dos compromissos assumidos através da Agenda 21 foram de fundamental importância para disparar o processo de atenção e preocupação com a gestão dos resíduos sólidos no país. A redução e a produção de resíduos na fonte geradora e o envio aos aterros e lixões, por meio da implantação de programas de coleta seletiva, bem como o desenvolvimento de atividades de educação ambiental passou a fazer parte das bandeiras dos movimentos sociais e do setor público. É a partir desta década que surge uma forma de coleta seletiva nas quais os poderes públicos dos municípios estabelecem parceria com cooperativas ou associações de catadores. Segundo Ribeiro et al. (2009, p. 11) "após quase duas décadas, constata-se que estes programas multiplicaram-se pelo país e se tornaram um modelo de política pública de resíduos sólidos, com inclusão social e geração de trabalho para população de baixa renda”.
A mesma autora refere que são inúmeros os motivos que contribuíram para esta nova realidade, sendo que um dos principais foi o retorno das eleições diretas na década de 80 quando se abriu espaço para novas propostas de gestão municipal, firmadas na valorização da participação e mobilização social, na inclusão de temas socioambientais, assim como no reconhecimento dos catadores ou coletores como um dos atores centrais de um programa compartilhado de gestão dos resíduos. A exemplo do que afirma a autora, em 2000 é criado o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, e um dos principais resultados da mobilização deste movimento foi que a atividade de catação foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho e incorporada ao Código Brasileiro de Ocupações.
São inúmeras as experiências nos diversos estados do país no qual os modelos de parceria adotados variam conforme as diferentes realidades locais. Normalmente, as parcerias com os grupos organizados têm ocorrido através da cedência de imóveis, equipamentos (prensas, enfardadeiras, esteiras) pelo poder público para a instalação de galpões para a realização da triagem dos resíduos coletados. Essas parcerias com as organizações (associações ou cooperativas) abarcam grupos variados, constituídos por catadores de rua, ex-catadores de lixões, desempregados e associações organizadas de bairros ou moradores. A remuneração dos trabalhadores organizados tem ocorrido, em geral, de modo
igualitário ou por produção, através da renda obtida com a venda do material reciclável coletado (RIBEIRO, 2009).
Os modelos de coleta dos materiais recicláveis encaminhados para estas centrais de triagem também variam, podendo ser realizadas pelas prefeituras em parceria com a organização de catadores, exclusivamente por catadores ou exclusivamente pelas prefeituras. O sistema de recolhimento também pode variar podendo ser porta a porta em dias diferentes da coleta regular do lixo comum ou então são utilizados os sistemas de entrega voluntária entre outros.
A parceria estabelecida entre os programas de coleta seletiva e as organizações de grupos organizados traz uma série de benefícios, principalmente com relação aos aspectos sociais de famílias de baixa renda que encontram na atividade com o "lixo" uma alternativa de renda e sobrevivência. Segundo Ribeiro et
al. (2009, p. 34), em primeiro lugar o benefício desta parceria relaciona-se a:
A valorização do trabalho do catador, promovendo a cidadania e a inclusão social. Em muitas cidades, os programas retiraram adultos e crianças dos lixões que serviam não apenas como fonte de materiais recicláveis, mas também como fonte de alimento e mesmo de automedicação.
Além deste aspecto social, outro benefício importante refere-se a garantia da maior quantidade e de melhor qualidade do material reciclável, aumentando as oportunidades de venda direta as industrias por melhores preços.
Apesar dos inúmeros benefícios há que se apontar que existem também muitos desafios que podem comprometer a sustentabilidade e os grupos organizados que trabalham em parceria com as prefeituras. A valorização do mercado de recicláveis atraiu uma série de atores novos a procura destes materiais, ou seja, assim como ampliou o interesse dos excluídos aumentou o numero de empresários que passaram a enxergar no lixo uma importante oportunidade de negócio. Assim, se os grupos vulneráveis não estiverem suficientemente organizados correm o risco de serem explorados pelo o que tem sido denominado de atravessador, que é aquele que dispões de condições para comprar os resíduos e comercializar diretamente com a indústria.
Já através do trabalho associativo ou cooperativo, baseados nos princípios da economia solidária há a possibilidade de realizar compras em comum a preços
menores e vendas em comum a preços maiores, além de ser uma oportunidade de resgate da dignidade humana e de desenvolvimento (SINGER, 2002).
Ribeiro et al. (2009, p. 13) faz a seguinte reflexão ao refletir o papel e a importância da sociedade civil a partir da perspectiva da cooperação.
A sociedade civil tem desenvolvido e multiplicado práticas que reforçam a autonomia e a legitimidade de atores sociais que atuam articuladamente numa perspectiva de cooperação, como é o caso de comunidades locais, ONGs e empresariado. Isso tem representado, em muitos casos, a possibilidade de mudar as práticas prevalecentes, rompendo com as lógicas da tutela e da regulação, definindo novas relações baseadas na negociação, na contratualidade e na gestão conjunta de programas e atividades. Essas novas práticas introduzem significados diferenciados nos processos de formulação e implementação de políticas sociais (RIBEIRO et
al., 2009, p. 13).
A Coopercicla que será apresentada nos próximos capítulos é um exemplo onde determinados sujeitos de uma comunidade local encontram a possibilidade de legitimar através da organização cooperada novas relações baseadas da negociação e introdução de uma prática de gestão compartilhada na medida em que a cooperativa negocia com a prefeitura a gestão dos resíduos dos municípios. São práticas que acabam "pressionando" ou impulsionando novos processos de implementação de políticas sociais públicas com a participação da sociedade civil.
A modificação de relação da sociedade atual com os resíduos sólidos é essencial nos esforços da busca da sustentabilidade, pois "todos tem direito ao ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações". (Artigo 225 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988).
4 O PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA
Este capítulo apresenta o percurso metodológico da pesquisa, através da apresentação do método e do planejamento da mesma, além dos procedimentos técnicos utilizados e sua operacionalização.