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Novamente usamos a mesma terminologia com sentidos diferentes em ambas as áreas. Para o direito, responsabilidade é a “possibilidade de imputação de uma pena” (SALUM, 2009, p. 14). Já para a psicanálise, trata-se de uma posição subjetiva do sujeito.

É necessário que o direito coloque um limite no gozo do sujeito, possibilitando que este consiga se localizar diante de seu desejo, responsabilizando-se por

seus atos. A psicanálise em sua interface com o direito, pode contribuir para que os sujeitos que cometeram atos criminosos/infrações possam encontrar possibilidades de mudança de posição. (MENESES, FARIA, 2017, p.44).

Segundo Pereira e Chaves (2013), as lagunas do Direito são ótimos lugares para que algo do sujeito possa advir. A Psicanálise, nesse contexto, junto ao judiciário, pode colaborar para que o sujeito encontre em meio ao embaraço diante da lei seu lugar (MENESES E FARIA, 2017).

[...] tanto a etnografia quanto a história nos dão o testemunho de que as categorias do crime são sempre relativas aos costumes e às leis existentes.

Do mesmo modo que a psicanálise lhe afirma que a grande determinação do crime é a própria concepção de responsabilidade que o sujeito recebe da cultura em que vive. (LACAN, 2001 [1950], p 130).

A Psicanálise, trabalhando na interface com o Direito Penal, trataria de acompanhar a possibilidade de que o sujeito tenha capacidade de nomear e internalizar a responsabilidade. Por isso, para a psicanálise, a responsabilidade é universal. A responsabilidade é o chamado para que o sujeito possa responder, frente aos seus semelhantes, pelo ato que praticou (SALUM, 2009).

Gomes (2019), ao criticar o uso da psicanálise por operadores do direito que a procuram como “legitimação para suas concepções prévias, estereotipadas e individualizantes e ao tempo universalizantes a propósito do humano”, reafirma a forma com os conceitos psicanalíticos são utilizados de forma banalizada e leviana nesses contextos, afirmando que

A Psicanálise não é para dar sentido ao que o operador do Direito não pode entender em sua prática cotidiana. Ela não serve para nada, a não ser para nos servir do nada. É o prato de nada que nos mantém o apetite pelos pratos principais quando os mesmos nos são frustrantes ou enauseantes. A Psicanálise pode ser um jejum do Direito, e não seu tempero. A Psicanálise não é para completar, preencher, o Direito. Ela não serve para se gostar mais do Direito, mas para, possibilitando que seja questionado, seja suportável.

Ela não serve para tornar/manter belo o Direito, mas talvez justamente para, visibilizando sua feiura, nele se manter. Serve para entender que ele, como nada neste mundo e muito menos no mundo dos autos, não entende tudo.

(GOMES, 2019, online).

Para Ceccareli (2013), as contribuições da psicanálise são de grande importância, pois permitem a ampliação das indicações possíveis do tratamento do criminoso, uma vez que apresenta a compreensão de sua estrutura subjetiva. Porém, demonstrar o caráter subjetivo e simbólico do crime não significa que o criminoso não seja responsável. A famosa frase da Lacan: “ao irrealizar o crime, a psicanálise não desumaniza o criminoso” (LACAN, 2001 [1950], p. 137), significa que ela

cumpre papel de humanizar o sujeito e inscrever seu ato na estrutura edípica universal. A responsabilidade não implica no apagamento ou esquecimento do crime, mas ser declarado responsável conserva a humanidade do criminoso e sua tomada de posição frente ao ato que cometeu, sendo possível pela transferência ter acesso ao mundo imaginário do sujeito, que pode ser para ele a porta aberta ao real. Além disso, ao humanizar o criminoso, sendo reconhecido como sujeito, a psicanálise possibilita que o sujeito possa reconhecer sua falta e dar significação à sanção que lhe foi aplicada pelo Estado ao delito que cometeu (DIAS, 2014).

A teoria psicanalítica, assim como qualquer outra teoria psicológica que conheçamos, não nos autoriza a fazer previsões sobre o comportamento ou sobre a saúde ou a doença. Através da reconstrução do passado, tal como ele ficou inscrito na memória e nas vivências peculiares de alguém, pode-se lançar alguma luz sobre a natureza de seus conflitos atuais. A psicanálise é sempre retrospectiva. O passado por elucidar o presente. (RAUTER, 2003, p 91).

A Psicanálise pode contribuir para que o sujeito desperte para aquilo que o condena. Concordando que deve haver a sanção diante de um crime, mas sendo necessário que se tome cada caso em sua singularidade (DIAS, 2014).

O sujeito que não fala no trâmite judiciário, silenciado ou tendo sua fala terceirizada, pode ter na clínica psicanalítica a possibilidade de exteriorizar a sua verdade e significar o seu ato e a sanção que lhe foi dirigida pelo Estado. Pela transferência, o analista, pode ter acesso ao sujeito para além do criminoso, sendo importante que se considere os fatores históricos, subjetivos e sociais que permeiam o cometimento do crime.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa apresentou a relação entre a lei do Direito, a Lei da psicanálise e suas transgressões a partir da teoria psicanalítica. Foram abordados conceitos fundamentais para embasar tal temática como a conceituação de sujeito de ambas as áreas, o Complexo de Édipo e o mito da Horda Primeva, apresentado por Freud como o fundador da cultura e dos tabus, que vieram a se transformar em leis que organizam a sociedade.

O sujeito apresentou-se em suas faces, tendo diferentes concepções psicanalíticas e jurídicas. O sujeito da psicanálise, dotado de uma subjetividade única e regido pela Lei do inconsciente, nasce com instintos primitivos que devem ser reprimidos em nome do bem-estar social, mas essas renúncias deixam marcas que podem ser exteriorizadas no crime, como uma quebra deste contrato social estabelecido pelas leis jurídicas. Já o sujeito do Direito, é considerado um sujeito que tem plena consciência, dotado de obrigações e esvaziado de subjetividade e história pessoal, sendo facilmente controlado e normatizado pelo Estado.

O crime, fundador da cultura, segundo Freud, assim como todo ato humano, deve ser considerado em suas diversas formas, sendo necessário que se leve em consideração os fatores que levaram o sujeito à tal ato. Os criminosos por sentimento de culpa, sente no crime um alívio mental de uma culpa decorrente dos crimes do Complexo de Édipo (matar o pai e ter relações sexuais com a mãe), já os criminosos perversos, não sente culpa alguma, uma vez que esses sujeitos não têm relação nenhuma com a Lei ou com as leis.

O sistema judiciário enquanto regulador, passa por diversas mudanças em seus códigos, estando sempre pronto para cercear o desejo dos sujeitos em nome da normalização e regularização social. Porém, ao julgar os seus transgressores, não permite que a verdade dos mesmos seja exposta, crendo na punição e no encarceramento como forma de tratamento e possível reinserção social.

A atualidade nos mostra que somente isso não é suficiente, uma vez que as taxas de reincidência criminal são altas no Brasil. A Psicanálise pode contribuir na possibilidade de dar a esses sujeitos um espaço de fala e de tomada de posição frente ao seu ato.

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