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As possibilidades formativas dos Novecentos

CAPÍTULO 1 – A MEDICINA ACADÊMICA NO BRASIL (SÉC. XIX-XX)

1.2 As possibilidades formativas dos Novecentos

A partir do último quarto do século XIX, vale lembrar, a medicina brasileira, impactada pelo avanço das novas tecnologias, é marcada pela instituição da microbiologia58 e por uma recepção bastante conflitiva no meio científico do período59. Genericamente, com a

58 Para um panorama desta disciplina entre os séculos XIX-XX, veja: CARRETA, Jorge A. “O micróbio é o inimigo”: debate sobre a microbiologia no Brasil (1885-1904). Tese (Doutorado em Política Científica e Tecnológica) – Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas, 2006. Em paralelo, ver também:

RIBEIRO, Maria Alice R. História sem fim... Inventário da saúde pública, São Paulo: 1880-1930. São Paulo: Ed.

da UNESP, 1993.

59 Confira: BENCHIMOL, Jaime L. Domingos Freire e os primórdios da bacteriologia no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2(1), p. 67-98, mar.-jun. 1995; ALMEIDA, Marta de. São Paulo na virada do século XX: um laboratório de saúde pública para o Brasil. Tempo, Niterói, vol. 10, n.19, p.77-89, jul./dez. 2005.

Fora dos meios científicos o discurso médico espraia e toma forma inclusive em uma classe geralmente pouco afeita aos discursos vindos do ‘alto’, mas que o assimila, o reinterpreta e o toma para si em razão da causa do operariado, veja: BERTUCCI, Liane M. Saúde: arma revolucionária. São Paulo, 1891-1925. Campinas:

ciência dos micróbios em tela, novos elementos para a compreensão da etiologia, da profilaxia e mesmo da dinâmica da pesquisa médica são muito lentamente inseridos na prática médica (como exemplo, o episódio da febre amarela). Paralelamente, é estimulada a criação dos Serviços Sanitários, sobretudo nos grandes centros urbanos – São Paulo e Paraná ao mesmo tempo, em 1892, e anteriores mesmo ao Rio de Janeiro que data de 1899 –, e dinamizada a constituição de laboratórios e institutos de pesquisa a bem de atender os principais problemas de saúde da época. Nesse campo, o Instituto Bacteriológico de São Paulo é considerado um dos laboratórios pioneiros do país.

Tempos esses de personalidades transformadas em mito, tais como Oswaldo Cruz, Vital Brazil, Adolpho Lutz, Carlos Chagas e tantos outros.60 Personalidades cujas ações trazem outra cientificidade à medicina, às práticas de cura e aos modos de pensar a saúde/doença da população brasileira. Mas há que se considerar que não seria esse um tempo de ruptura ou de demarcação de fronteira rígida com a medicina Oitocentista, posto que, como afirma Flávio Edler, estaria a área longe de uma concepção monolítica de ciência pautada na relação dual de um antes e depois de eventos específicos61. Isso porque a experiência colonial, ela mesma, demonstra a disputa entre a anatomoclínica (o hospital, a medicina exercida na cabeceira do leito do paciente), a topografia médica (a medicina que faz uso do método estatístico, cunhada, pejorativamente, de “medicina de gabinete”) e a medicina experimental (ou a medicina de laboratório)62 a permear todo o século XIX. Consideremos um pouco mais tal defesa, partilhada, em razoável medida, por Jaime Benchimol, sob a perspectiva de ainda outras instituições médicas que congregavam os profissionais da medicina brasileiros e que pensavam, à luz das experiências estrangeiras, os fundamentos dessa área.

A afirmação da medicina experimental, com maior visibilidade na virada dos séculos XIX-XX, já era observada antes mesmo da organização da Escola de Manguinhos, ainda considerada por alguns63 como o marco inicial da medicina científica brasileira.

Publicações CMU/UNICAMP, 1997.

60 Veja, por ex.: BRAZIL, Lael Vital. Vital Brazil, vida e obra, 1865-1950. Niterói: Instituto Vital Brazil, 2001;

BENCHIMOL, Jaime L. Adolpho Lutz: um esboço biográfico. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol.

10(1), p. 13-83, jan.-abr., 2003; CHAGAS FILHO, Carlos. Meu pai. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1993.

61 Essa discussão pode ser resumida na seguinte oposição: uma, a imagem clássica da medicina pré-pasteuriana, casuística, de rejeição à observação metódica e à experimentação científica e, portanto, uma medicina pré-científica; e outra, a medicina atual, que reafirma a suposta rejeição pelas instituições médicas imperiais às conclusões dos trabalhos experimentais em parasitologia médica de Wucherer (fundador da Escola Tropicalista Baiana) ou ainda demarcadora da ruptura pela notável participação de Oswaldo Cruz nos rumos da saúde pública brasileira, daí o científico, o racional, pautado em novos saberes, como a fisiopatologia e o emprego teórico-metodológico da moderna medicina experimental. È tal oposição que se discute.

62 EDLER, Flávio C. A Escola Tropicalista Baiana: um mito de origem da medicina tropical no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 9(2), p. 357-385, maio-ago. 2002.

63 Situam-se nessa perspectiva, por exemplo, os estudos de Nancy Stepan (Gênese e evolução da ciência

Diferentemente, para Benchimol, seria a Escola Tropicalista Baiana o possível começo. A designação identificava o grupo de médicos reunidos em torno do periódico Gazeta Médica da Bahia (1866-1915) que, “na fronteira entre o paradigma miasmático/ambientalista e a teoria dos germes”, buscou produzir e difundir investigações originais sobre as patologias nativas da região, “bem como [firmar] suas posições independentes face à medicina acadêmica européia e ao establishment médico local.”64 Dentre os também chamados tropicalistas, o destaque para três médicos estrangeiros que, em Salvador, fundam o periódico: o português, filho de pais alemães, Otto Wucherer (1820-1873), o escocês John L.

Paterson (1820-1882) e o português José Francisco da Silva Lima (1826-1910). Todos eles com relações importantes nos países europeus onde o novo modelo da ciência experimental se espraiava por meio da correspondência de uma rede informal de médicos – a princípio desconhecidos, mas que tempos depois se tornaram reconhecidos nomes da parasitologia e da medicina tropical –, que davam sua contribuição à Gazeta. A identidade dos tropicalistas deslocava então a atenção do meio ambiente (teoria miasmática) para as etiologias parasitárias específicas (parasitologia), como as das investigações de Wucherer: ancilostomíase e filariose, ou ainda outras, como beribéri e ainhum, doenças associadas ao clima tropical. Mas a morte de Wucherer, em 1873, interrompe a pesquisa sobre a biologia e os hábitos do parasito da ancilostomíase, que será retomada, em meados de 1880, por Adolpho Lutz.

Para Benchimol, é nesse momento que o grupo tropicalista deixa de existir, absorvido pelo establishment médico e pelas mudanças políticas brasileiras do período. E se, contraditoriamente, até o advento da República não havia sido possível formar discípulos para dar prosseguimento à obra começada na Gazeta, os principais integrantes do grupo tropicalista que se transferem de Salvador para o Rio de Janeiro, a capital brasileira, acabam por ascender profissionalmente, especialmente nas pesquisas em parasitologia helmíntica dando novo fôlego e lugar à Escola Tropicalista. Nos conturbados anos de 1880 e 1890, diz Benchimol, e “à frente de periódicos, de cadeiras na faculdade e de cargos políticos e honoríficos puderam [os tropicalistas agora residentes no Rio], sim, influenciar a nova geração de médicos formados na última década do século [XIX].”65

É nessa mudança de cena, de Salvador para o Rio de Janeiro, de Monarquia para a República, que Benchimol observa a ocorrência de um processo conflitivo na medicina,

brasileira: Oswaldo Cruz e a política de investigação científica e médica, São Paulo: Artenova, 1976) e de Benedito Oliveira em edição por ele coordenada (Um lugar para a ciência: a formação do campus de Manguinhos. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003) - este último, sobretudo da questão arquitetônica de Manguinhos.

64 BENCHIMOL, Jaime L. A instituição da microbiologia e a história da saúde pública no Brasil. Ciência &

Saúde Coletiva, 5(2), 2000, p. 266.

65 BENCHIMOL, op. cit., 2000, p. 269.

marcado por “novos atores e interesses, novas doenças e dinâmicas de pesquisa”, e que marcará os anos de 1890. Dentre as várias pelejas, destacam-se os desacordos sobre o diagnóstico, a profilaxia e o tratamento de doenças epidêmicas nos centros urbanos do Sudeste, como a epidemia do cólera no Vale do Paraíba, em 1894-1895, a chegada da peste bubônica a Santos, em 1899, e a intermitente caçada “ao micróbio” da febre amarela no Rio de Janeiro – este último, em ação bem sucedida de Oswaldo Cruz, no centro da capital brasileira, que já contava até então com 800 mil habitantes. Esses eventos desnudam a medicina cambiante e desencadeiam contradições entre os médicos-pesquisadores filiados aos institutos vacinogênicos e bacteriológicos, inclusive à organização do serviço sanitário66 que resultam em movimentos populares expressivos como o foi, no caso do Rio de Janeiro, a Revolta da Vacina em 1904. Contudo, esses elementos identificam a medicina experimental na fronteira da microbiologia e da medicina tropical: a nova matiz que viraria o século.

Para Oswaldo Cruz, à frente do Instituto Soroterápico Federal (ISF), bem como no cargo de diretor da Saúde Pública, no governo de Rodrigues Alves e no subseqüente de Afonso Pena, no início dos Novecentos, esse novo momento exigiria também um novo posicionamento institucional, com investimentos na fabricação de produtos biológicos, na pesquisa e no ensino, de modo semelhante aos fundamentos do Instituto Pasteur de Paris. A

“dilatação de fronteiras” dos cientistas de Manguinhos, como diz Benchimol, tinha também conotação geopolítica, no sentido de adentrar os sertões brasileiros67, para o estudo e o combate de doenças como a malária. Feito o investimento nas novas instalações, bem como na ampliação das ações do ISF, Oswaldo Cruz redige o regulamento do Instituto de Patologia Experimental, criado em dezembro de 1907 e rebatizado como Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em março de 1908. Em 1906, foi inaugurada a primeira filial em Belo Horizonte – MG. Em 1909, um dos seus filiados, Carlos Chagas, descobre uma nova doença tropical até então confundida com a malária ou a ancilostomíase, cujo inseto era conhecido como “barbeiro”, por atacar de preferência o rosto humano. Tal doença ficou conhecida como Doença de Chagas68. Sua descoberta consolidaria a protozoologia como uma das importantes áreas de

66 Destaques do Serviço Sanitário de São Paulo, cf.: ALMEIDA, Marta de. República dos invisíveis: Emílio Ribas, microbiologia e saúde pública em São Paulo (1898-1917). Bragança Paulista, Editora da Universidade São Francisco, 2003; TEIXEIRA, Luiz A. Rodolfo Mascarenhas e a história da saúde pública em São Paulo.

Rev. Saúde Pública, São Paulo, 40(1), p. 3-19, 2006; Idem. Em prol da ciência, em benefício da saúde. Estudos de Sociologia, Araraquara, 16, p. 79-100, 2004.

67 Cf.: LIMA, Nísia T. A cidade descobre o sertão. Notas sobre a viagem de Roquette-Pinto a Rondônia e a dos médicos Arthur Neiva e Belisario Penna ao Brasil Central. In: ALMEIDA, Marta de; VERGARA, Moema de R.

(Orgs.). Ciência, história e historiografia. São Paulo: Via Lettera; Rio de Janeiro: MAST, 2008, p. 139-160;

BERTUCCI, Liane M. Médicos-educadores no sertão do Brasil nos anos 1910. XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 2007. Anais... São Leopoldo, RS: UNISINOS, 2007, v. 1, 8 p.

68A parasitologia é impulsionada através das descobertas de Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, e margeia o

pesquisa do IOC, fato que reflete um somatório de condições que possibilitaram a Chagas tal feito, como, por exemplo, o aprendizado de habilidades técnicas e teóricas em sua formação como um dos cientistas de Manguinhos. A essa descoberta seguiu-se ainda a do suposto

“micróbio” da varíola, uma problemática real na epidemia do Rio de Janeiro de 1908.

A ampliação do campo de ação do IOC, sinalizando positivamente aos médicos que haviam então se dedicado ao laboratório e não à clínica hegemônica, levou para o Instituto novos agentes, como Adolpho Lutz, que, em 1908, deixou a direção do Instituto Bacteriológico de São Paulo (IBSP)69. Entretanto, em 1910, mudanças acontecem no IOC e o investimento de seu fundador se volta a percorrer os estados do Norte, Centro e Nordeste brasileiro em comissões médico-sanitárias, às quais se seguiriam ainda outras expedições, como a de Adolpho Lutz e Astrogildo Machado, entre abril e junho de 1912, ao Vale do Rio São Francisco; a de João Pedro de Albuquerque e Gomes de Faria, entre março a julho de 1912, atravessando os estados do Ceará e Piauí; e a de Artur Neiva e Belisario Penna, de março a outubro de 1912, percorrendo 7 mil quilômetros nos estados da Bahia, Pernambuco, Piauí e Goiás. Se, por um lado, ainda para Benchimol, tais comissões sanitárias se mostraram improfícuas, por outro, as expedições reuniram um conjunto de materiais das patologias brasileiras aos laboratórios do IOC. Ademais, “os relatórios escritos pelos cientistas, ricos em observações sociológicas e antropológicas, e a extraordinária documentação fotográfica que produziram constituem o primeiro inventário moderno sobre as condições de saúde e vida das populações rurais do Brasil.”70 Em São Paulo, ao mesmo tempo, acontecia a corrida contra a febre amarela e os investimentos de Emílio Ribas, inclusive na defesa da concepção microbiológica e da higiene, à frente do Serviço Sanitário do estado.71 Essas ações em torno da ciência médica e de organização de instituições de serviço específicas da área corriam juntas às discussões e expectativas de implantação do ensino da medicina em outros centros do país e para além dos casos do Rio e de Salvador, como será destacado adiante.

Nesse breve panorama da organização da medicina científica (alopata) brasileira, ficou ausente, entre outros, o enfoque às ações contra as doenças mais proeminentes do período (como a varíola, a sífilis, a tuberculose) e a possibilidade de interlocução dos médicos nos Congressos Médicos Latino-Americanos e das Exposições Internacionais de Higiene paralelas

caminhar da medicina tropical desde a criação da SMRJ em 1829 com seu amplo programa de saneamento, em especial das instituições (hospitais, cemitérios, escolas, quartéis e prostíbulos), cf.: MASCARINI, Luciene M.

Uma abordagem histórica da trajetória da parasitologia. Ciência & Saúde Coletiva, 8(3), p. 809-814, 2003.

69 Veja: BENCHIMOL, op. cit., 2003.

70 BENCHIMOL, op. cit., 2000, p. 283.

71 ALMEIDA, Marta de. Combates sanitários e embates científicos: Emilio Ribas e a febre amarela em São Paulo. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 6(3), p. 577-607, nov.-fev. 1999-2000; Idem, op. cit., 2005.

aos eventos – lugares de importantes trocas e de intercâmbio científico no continente72. Contudo, é possível observar ainda outros importantes lugares de atuação da classe médica para além do exercício da clínica e que era realizado, sobretudo, nos hospitais da Santa Casa de Misericórdia (SCM). Médicos filiados ao exercício da medicina experimental, geralmente envolvidos em sociedades médicas (no Rio era a SMRJ, e em São Paulo, a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, SMCSP73), motivariam, no país, a criação de instituições que tinham na pesquisa médica o seu lócus de atuação. Daí a importância, ainda que precária a princípio, dos Institutos Soroterápicos, pouco tempo depois, origem dos Institutos Butantan (São Paulo, 1901) e Manguinhos (Rio de Janeiro,1900)74; e adiante, passagem para a criação dos Institutos Pasteur (São Paulo, 1903)75, e de Higiene (com participação da Fundação Rockefeller, 1918)76, como ocorrido no caso paulista.

Partindo do específico na área médica e pensando as políticas públicas a respeito da organização dos serviços de saúde brasileiro, vale o destaque à criação das Inspetorias de Higiene, bem como à expedição do Regulamento dos Serviços Sanitários, ambos a cargo dos estados, em fins dos Oitocentos (São Paulo e Paraná, 1892; Rio de Janeiro, 1899)77. Outro ponto são as ações e instituições daí decorrentes (adrede ao regulamento, a constituição de laboratórios de bromatologia [ciência dos alimentos], entre outros)78 como ponto fundamental de visibilidade do exercício da medicina científica, uma vez que, em se tratando de saúde pública, tais ações partiriam de nomeados ao cargo que ocupassem a exigência de serem

“médicos diplomados por qualquer das Faculdades de Medicina da República ou universidades estrangeiras reconhecidas pelo Governo”79, ainda que com todas as dificuldades inerentes ao cargo público, com falta de recursos humanos e materiais, e os limites na

72 Cf.: ALMEIDA, Marta de. Circuito aberto: idéias e intercâmbios médico-científicos na América Latina nos primórdios do século XX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 13, n. 3, p. 733-757, jul.-set. 2006;

Idem. Da Cordilheira dos Andes à Isla de Cuba, passando pelo Brasil: os congressos médicos latino-americanos e brasileiros (1888-1929). São Paulo, 2004. Tese (Doutorado em História Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

73 Veja: TEIXEIRA, Luiz A. Na arena de Esculápio: a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (1895-1913). São Paulo: Ed. UNESP, 2007; Idem, op. cit., 2004, destaques da SMCSP entre 1895 e 1920.

74 Cf.: BENCHIMOL, Jaime L.; TEIXEIRA, Luiz A. Cobras, lagartos e outros bichos: uma história comparada dos Institutos Oswaldo Cruz e Butantan. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1993.

75 Cf.: TEIXEIRA, Luiz A.; CARDOSO, Maria R.; TAKAOKA, Neide Yumie. Instituto Pasteur de São Paulo:

cem anos de combate à raiva. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 11(3), p. 751-766, set.-dez., 2004.

76 O Instituto de Higiene de São Paulo é considerado o embrião da atual Faculdade de Saúde Pública de São Paulo. Ver: FARIA, Lina R. A Casa de Geraldo de Paula Souza: texto e imagem sobre um sanitarista paulista.

História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 12, n. 3, p. 1011-24, set.-dez. 2005.

77 ALMEIDA, op. cit., 2005.

78 Entre os laboratórios criados pelo governo do estado, está o Laboratório de Analises Químicas e Microscópicas (PARANÁ. Decreto n. 5 – 4 jan. 1909. Decreta a criação do Laboratório de Analises Chimicas e Microscopicas. Curitiba, Coleção de Leis do Governo do Estado, p. 4-5).

79 PARANÁ. Lei n.23 – 1º junho de 1892. Decreta a criação da Inspectoria Geral de Hygiene na capital. Curitiba, Coleção de Leis do Governo do Estado, p. 78-79.

expansão do atendimento desses serviços, que cerceavam o campo de atuação dos gestores geralmente à capital do estado, como o ocorrido no caso paranaense até às primeiras décadas do XX. Por outro lado, constituíram-se em espaços possíveis de atuação do médico e do exercício do seu poder na ordenança social, regulando o modo de vida de uma sociedade que rapidamente se urbanizava. Este processo civilizador, difícil não lembrar o tema caro a Norbert Elias, ainda que trate de outro tempo e lugar80, é também um processo medicalizador, sobretudo se considerarmos as afirmativas de Michel Foucault de que “a medicina moderna é uma medicina social”81, ou seja, que esta como parte da estratégia biopolítica do poder, visa, para além do corpo individual, o corpo social. Por mais que cause certo incômodo o ‘fetiche’

de Foucault, em suas análises presas à estrutura do capital, as interpretações de sua lavra acerca do poder e das estratégias deste sobre o indivíduo e o meio social, em especial o poder dos médicos, é expressamente pertinente. Daí que se pode reconhecer, sem muita resistência, que a higiene, ramo da medicina, se constituísse, em fins do XIX e início do XX, eixo importante no papel da manutenção e do controle de hábitos saudáveis como questão desse poder social e dos médicos no exercício deste82. Nesse sentido, pensar a medicina, seus agentes e suas instituições é também pensar as suas formas de poder, como destaca Foucault.

Continuemos, então, a observar esse alcance.

Entre os séculos XIX-XX, instituições variadas, públicas e privadas, destacam-se no campo de atuação da medicina científica, organizada, sobretudo, nos principais centros brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo, e denotam a atenção de seus agentes às novas tecnologias da biociência. Entretanto, a convivência de instituições de pesquisa desse quilate, sobretudo as do eixo Rio–São Paulo, por vezes não foi pacífica. Disputas acirradas ocorreram na competição pelo espaço de visibilidade de seus produtos e dos seus (renomados) pesquisadores. O reconhecimento da importância destas instituições na área médica chamava a atenção de outros estados brasileiros, como o Paraná, que via, nesses exemplos, o desejo de criação de instituições equivalentes. Em Curitiba, chegou-se a fomentar, nos anos iniciais da

80 A esse respeito, sobre a modelação do comportamento humano e social, com Norbert Elias, na sociedade europeia renascentista, ver: O processo civilizador: uma história dos costumes, vol. I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, em especial, p. 65-213 (Capítulo 2 – A civilização como transformação do comportamento humano); Idem, O processo civilizador: formação do Estado e civilização, vol. II. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, em especial, p. 215-224 (A transformação de guerreiros em cortesãos).

81 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 79.

82 No Paraná, dois estudos competem para a compreensão dessa noção: LAROCCA, Liliana M. Higienizar, cuidar e civilizar: o discurso médico para a escola paranaense (1886-1947). Curitiba, 2009. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Setor de Educação, Universidade Federal do Paraná (versão Defesa Pública); PYKOSZ, Lausane C. A higiene nos grupos escolares curitibanos: fragmentos da história de uma disciplina escolar (1917-1932). Curitiba, 2007. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Setor de Educação, Universidade Federal do Paraná.

década de 1910, o interesse pela criação de um Instituto Pasteur. Tal expectativa rondava a cidade, especialmente nos casos em que a assistência pública local não dava conta83, como diante dos incessantes casos de ataques dos “cães hydrophobos” 84. Perambulando pela cidade, sem eira nem beira, grupos de “cães vadios”, assim chamados na imprensa paranaense, avançavam, indistintamente, sobre as “gambias” das pessoas que por eles cruzavam às ruas.

década de 1910, o interesse pela criação de um Instituto Pasteur. Tal expectativa rondava a cidade, especialmente nos casos em que a assistência pública local não dava conta83, como diante dos incessantes casos de ataques dos “cães hydrophobos” 84. Perambulando pela cidade, sem eira nem beira, grupos de “cães vadios”, assim chamados na imprensa paranaense, avançavam, indistintamente, sobre as “gambias” das pessoas que por eles cruzavam às ruas.

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