2. COOPERATIVISMO: HISTÓRICO E ATUALIDADE
2.2. COOPERATIVISMO DE CRÉDITO: PROXIMIDADE E CONTORNOS
2.2.3. As possibilidades, transformações e novos formatos
O debate que se trava em torno das transformações desencadeadas nas cooperativas de crédito aponta para suas diversas formas de atuação.
Levasseur e Rousseal (2001), bem como Parenteau (1997), ao analisarem o processo de adaptação das cooperativas de crédito Desjardins, destacam que, embora tenha ocorrido mudança, a essência do movimento foi preservada. Os autores realçam o seu papel na captação de poupança e importante fonte de recursos para o desenvolvimento econômico local.
Parenteau (1997), entretanto, alerta para a radicalização desse processo, sugerindo que se deve encontrar um ponto de equilíbrio diante do fetiche da tecnologia bancária, da busca na rentabilidade excessiva no mercado financeiro – de modo particular, nas operações nos títulos internacionais – e do processo de concentração excessivo, em função da maior eficiência e rentabilidade, além da estandardização.
O aviso anterior coincide com os argumentos de Guadaño (2006) em relação às grandes cooperativas, como as de crédito, através de suas sucursais e com
estratégias de integração em rede, que tendem a adotar condutas e estratagemas que diferem cada vez menos dos seus concorrentes, espalhando esse comportamento com maior facilidade.
Porém, como destaca Desrochers e Fichers (2005), é justamente essa integração que permite que as cooperativas de crédito alcancem maior competitividade. Os autores, utilizando o conceito econômico de custos de transação, ao avaliar o impacto de integração das cooperativas de crédito, inclusive nos países em desenvolvimento, identificam que, embora haja vários níveis de integração, há indícios de melhor desempenho organizacional por meio dessa estratégia.
Isso decorre da maior pressão exercida sobre os gestores, ampliando a eficiência organizacional e resultados financeiros. Desrochers e Fichers (2005) afirmam, ainda, que a estratégia de integração é mais importante, em termos de resultados financeiros, para cooperativas maiores e situadas em países desenvolvidos. Dessa forma, há uma tendência de que esse processo ocorra de forma crescente dentre as cooperativas de crédito, facilitando a rápida propagação de comportamentos, normas e valores, bem como de instrumentos de pressão.
Tormo (2002) argumenta que o cenário no sistema financeiro tanto traz oportunidades para as cooperativas de crédito – em virtude de proporcionar a ampliação dos serviços de crédito e o crescimento, através de outros negócios – como algumas ameaças – em decorrência da ampliação da concorrência. O importante, de acordo com o autor, é apresentar uma diferenciação em relação à concorrência dos demais atores bancários sem desvencilhar-se dos princípios cooperativos.
Nessa direção, as cooperativas de crédito têm como desafio construir estratégias que não estejam em confronto com os princípios cooperativos sem, entretanto, deixar de observar os elevados níveis de solvência, estabelecidos com bases em padrões internacionais21 para todo o sistema financeiro. Ao mesmo tempo,
21
O Índice de Basiléia, ou Índice de Adequação de Capital, consiste em um instrumento de regulação internacional que visa a diminuir os riscos de crédito e de operações no sistema financeiro. Tal índice foi definido pelo Comitê de Basiléia, o qual recomenda a relação mínima de 8% entre o Patrimônio de Referência (PR) – Patrimônio-Base – e os riscos ponderados conforme regulamentação em vigor (Patrimônio Líquido Exigido - PLE). A sua aplicação nas cooperativas de crédito segue a mesma tendência dos bancos, passando a sua adoção a ser exigida pelas autoridades monetárias.
os processos de intercooperação e gestão profissionalizada estão no âmago desse processo.
A equacionalização dessas variáveis representa um outro desafio, pois como ressalta Coderre et al. (2005, p. 111) há uma diversidade de grupos envolvidos (sócios, funcionários, investidores-doadores, clientes não associados e a comunidade) os quais apresentam uma diversidade de interesses (predisposição para se adquirir produto ou serviço, ser membro, ter um trabalho, fornecer apoio) que devem ser observados e analisados na construção das estratégias.
Nguyen et al. (2004) ressaltam que, além dos fatores intrínsecos aos característicos das cooperativas de crédito, a questão da qualidade dos serviços representa outro elemento das estratégias da cooperativa. De acordo com Nguyen et al. (2004), as cooperativas de crédito oferecem um serviço, tendo por foco o seu associado, fato que requer uma profunda atenção nesse processo. Elementos como os atributos do ambiente físico (proximidade do usuário ou adequação à execução da ação), os processos de relacionamento entre associados e as pessoas de contato, além do atendimento na cooperativa, constituiem fatores de grande importância na construção da proposta de ação da cooperativa.
Assim, a adequação da cooperativa ao contexto atual representa um processo complexo, uma vez que as cooperativas de crédito têm de levar em consideração esse conjunto de fatores, sendo diversas as opções de atuação.
Tormo (2002 p. 238), buscando delinear alguns contornos das respostas das cooperativas de crédito ao contexto atual, destaca três possibilidades de integração das cooperativas ao contexto local e ao mercado financeiro.
A primeira consiste em uma opção de pequenas cooperativas locais que, para fazer frente às novas tecnologias e às imposições do mercado, integram-se em cooperativas de segundo grau (centrais). Estas, por sua vez, podem adotar tanto uma fórmula jurídica de cooperativa como de sociedade anônima, sendo controladas, em sua totalidade, por cooperativas de primeiro grau. Desse modo, as cooperativas de crédito locais preservam a autonomia enquanto cooperativa e movimento, estando incrustadas nos seus territórios, ao tempo em que asseguram um espaço singular no sistema financeiro. As propostas do cooperativismo de crédito existentes na Alemanha, Holanda e parte da Espanha integram essa categoria.
A segunda consiste em uma opção mista, na qual as cooperativas de crédito podem abrir parte de seu capital para não associados, que adquirem ações com o intuito de obter lucro. Nesse caso, as cooperativas de segundo grau (centrais), controladas em parte pelas cooperativas locais ou regionais, disponibilizam ações ao mercado financeiro. As cooperativas de crédito da Finlândia e da França são citadas como exemplos ilustrativos.
A terceira opção compreende uma radicalização do processo anterior, no qual as cooperativas de segundo grau passam a ter participação majoritária de não associados, que detêm o poder decisório sobre as ações do sistema. As cooperativas da Dinamarca, Suécia e Bélgica são alguns exemplos citados com essas características.
As duas últimas opções são apontadas como tendências que se distanciam das premissas das cooperativas de crédito iniciais, uma vez que se abrem ao mercado financeiro, passando a controlar em maior ou menor grau as cooperativas de crédito. Essa falta de controle sob o capital da cooperativa de crédito sugere uma “descooperativização” (Idem, p. 283-239), termo utilizado para o distanciamento da cooperativa em relação aos seus associados. Isso porque o mercado financeiro e, de forma particular, o de ações, apresenta uma dinâmica própria. Knorr Cetina (2004, p. 119) destaca que, no mercado financeiro, as transações estão aglutinadas em vários centros globais, caracterizando-se pela sua fluidez – facilidade com que as operações são realizadas, quase que ininterruptamente. Nessa arquitetura global, as relações são estabelecidas a partir de um complexo conjunto de informações, as quais necessitam ser constantemente monitoradas para a compreensão da velocidade e da direção em que se devem efetuar as negociações, de compra ou venda de ativos (Ibidem, 2004).
Nesse sentido, Bonanno (2003; 2007) destaca que o setor financeiro, na globalização, adquire uma dinâmica diferenciada do capital produtivo e do trabalho, de modo que se locomove em direção a ocupar novos espaços. Observa esse autor que, no contexto atual, o capital financeiro se desloca com velocidade instantânea, de modo que barreiras geográficas dos países não representam um empecilho ao seu deslocamento. Bonanno (2007, p. 2-7) destaca que esse processo traz consigo uma homogeneização. Isso porque, segundo o autor, a lógica da racionalidade
instrumental decorrente da eficiência, calculabilidade e previsibilidade22 acaba por provocar uma homogeneização do espaço social.
Num contexto globalizado, onde a tecnologia da informação permite a construção de redes de empresas e instituições, a economia está organizada em redes globais de capital, gerenciamento e informação (CASTELLS, 1999, p. 498). Assim, os sistemas financeiros se encontram conectados formando uma estrutura de configuração complexa e, com base na tecnologia da informação, permitem a comunicação entre seus integrantes e realização de transações instantâneas. Essa rede consite em um “conjunto de nós interconectados”, que podem se expandir de forma ilimitada, de modo que novos nós podem ser integrados à mesma, desde que consigam estabelecer uma comunicação na rede, através do compartilhamento “dos mesmos códigos de comunicação (por exemplo, valores e objetivos de desempenho)” (Idem, p. 498-499). Dessa forma, a transformação nessa rede ocorre tanto nas relações sociais como técnicas de produção, afetando ainda a cultura e o poder de forma profunda (Idem, p. 504).
Assim, as opções e as escolhas das cooperativas de crédito podem se constituir em tentativas de estabelecer uma lógica própria para a ordenação do fluxo financeiro local, sendo possível que atuem, desde uma posição mais clássica, de controle do capital e atuação em uma lógica territorial pequena, até uma posição extrema de abertura do capital ao mercado financeiro. Em ambos os casos, a racionalidade instrumental consiste em um dos aspectos que as cooperativas de crédito têm de enfrentar, sem, contudo, desvencilhar-se de princípios cooperativos.
Decerto, pode-se argumentar que a legislação bancária, em vários países, não efetua mais a diferença entre cooperativas e bancos tradicionais, como destaca Ambruster e Arzbach (2004) para o caso da Alemanha.
O fato é que, no atual contexto, várias transformações vêm ocorrendo, diante da forte tendência à liberalização do mercado, com a redefinição do papel do Estado23 e do papel dos intermediários financeiros. Ao mesmo tempo, esse novo
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Para Bonanno (2007, p.5-6), a eficiência é compreendida como a capacidade de produzir mais com o mínimo de esforço. A calculabilidade é entendida como a relação entre o quantitativo que se pode obter e os atributos de qualidade nele contidos.
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O período fordista compreende quase todo o século XX, sendo um período de grandes transformações das relações sociais. Bonanno (2003; 2007) destaca que um primeiro período do fordismo consistiu em uma forte industrialização, sendo marcado pelo aumento do consumo e da
ambiente globalizado traz várias contradições, segundo Bonanno (2007, p.21), podendo ser reconvertido em oportunidade pelos grupos rurais, onde, através de proposições e práticas específicas, podem evidenciar formas peculiares diante de inserção no contexto de forte competitividade.