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As Potencialidades do Complexo Blumenauense

T êxtil e Vestuário I I Áreas Originais

MICRO PC CAD-CAM CIM SDCD CLP

1.3 As Potencialidades do Complexo Blumenauense

Neste ponto do trabalho, analisa-se as potencialidades e o comportamento do complexo têxtil de Blumenau no sentido de vislumbrar a consolidação da postura de agrupamento pré- competitivo.

Pela responsabilidade que a produção do MVI representada no cômputo nacional (10% do volume total), credita-se a este complexo o título de “maior pólo têxtil do Brasil”. Não só na área específica de produção industrial, o pó{o é a “coluna vertebral” da economia local, posto que foi atividade geradora de outras.

Sua expansão econômica, a partir de 1990 (maior ímpeto) transcendeu as divisas territoriais de Blumenau e possibilitou o surgimento de empresas - satélites em cidades vizinhas como Gaspar, Ilhota, Brusque (o “berço da fiação catarinense”), Jaraguá do Sul, Pomerode, Indaial, Timbó, Rodeio, Ascurra e outras.

O motor da expansão, como já tratado no início deste trabalho, resume-se a vários fatores de ordem objetiva e subjetiva somatizados com o momento histórico. Tem-se em destaque as correntes imigratórias européias para a região do MVI, permeadas de consideráveis contingentes de mão-de-obra especializada e de uma elite industriosa, os quais, carrearam capitais para o alavancamento industrial que, em resumo, propiciou o aparecimento de outras atividades coligadas. O fato confere ao distrito industrial uma característica importante para o desenvolvimento da planta na forma de cluster: uma origem étnica comum (mormente germânica), que concebe o trabalho como vocação além da necessidade ou imperativo social, pois vê no mesmo, no dizer mais simples dos antigos: “a razão da vida. ”

Essa origem comum permite ao parque fabril o estabelecimento de laços entre os agentes empresariais, importante para a concretização da eficiência coletiva, ainda que pese o individualismo como típico do europeu e da concorrência capitalista liberal.

A indústria do MVI é tida como altamente diversificada a partir de dois segmentos produtivos imperantes como a malharia e a tecelagem, prevalecendo nos mesmos, quase que absolutamente, o uso do algodão como base do produto e, em baixa escala, o incremento com fibras sintéticas derivadas de petróleo (viscose, poliéster, nylon) no acabamento ou decoração.

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O tamanho desenvolvimento da indústria na região resultou em altos volumes de produção carentes de circulação em outros mercado, implicando na necessidade de escoamento para o exterior.

A concorrência internacional, por sua vez, foi e ainda é facilitada pela baixa agressividade dos ofertantes de produtos à base de algodão - que também são primazes no MVI. Na atualidade, estima-se que V* do volume é exportado somente para as economias centrais, assim conferindo ao distrito a respeitável potencialidade exportadora - um dos requisitos - chave para a estruturação de uma política de colaboração competitiva.

Um outro traço caraterístico reinante é o alto grau de heterogeneidade quanto à especialização da produção combinado com a diversidade de tamanho das empresas, ambos conferidos pela disparidade de condições de instalação fabril e de competição mercantil no âmbito local.

Do lado da grande empresa, conta-se com seis grupos de maior expressão (Teka, Hering, Karsten, Artex, Cremer e Sulfabril), todas de caráter familiar e com importante influência setorial, econômica e política. Com exceção da Sulfabril (Sociedade Anônima de capital fechado), vocacionada em malharia e vestuário (igualmente à Cia. Hering, nesse quesito), as demais participam do mercado bolsátil e têm seu foco de atuação em artigos de cama, mesa e banho. A concentração destes últimos gêneros têxteis em reduzido grupo, deriva da elevada monta de capital inversível em ativos fixos de fiação e tecelagem. Contrariamente, as empresas versadas em malharia e vestuário, operando com artigo de alta elasticidade preço da demanda, carecem de menores capitais para investimento em produção, o que leva esse ramo a concentrar- se em numeroso grupo de PMEs.

Em se tratando de tamanho de empresa, convém frisar que a concentração das atividades de fiação e tecelagem para tecido tende a permanecer resumido às GEs. Tal assertiva fulcra-se no fato momentâneo de advento de alta tecnologia à base da microeletrônica e da mecatrônica, de elevado custo e, assim, de acesso difícil para detentores de pequenos capitais. A prevalência dessa situação responde, como já visto, reitere-se, pelo atraso tecnológico das PMEs em relação aos grupos de maior poder.

As dificuldades natas da escassez de capitais para inversão em alta tecnologia culminam em perdas de competitividade frente às GEs, posto que o maquinário de última geração, tautologicamente, confere níveis privilegiados de produção e qualidade final aliados à possibilidade da prática de preços menores e redução de riscos na competição. O que se tratou pela ótica da eficiência de custos, ainda que privilegie grandes grupos, constitui-se outro fator positivo para a competição em escala mundial e também para a prática da organização industrial nos padrões da eficiência coletiva.

Tem-se presente a consolidação da griffe regional, quando se trata de marcas de artigos de cama, mesa e banho, detidas estas pelos grandes grupos, com reputação nacional, tornando o local conhecido como pólo têxtil por excelência.

Quiçá, para muitos, na contramão da tendência horizontalista, ainda que se desfazendo de laços verticais em relação ao fornecimento de matéria-prima (algodão, principalmente), não foram poucas as empresas que, obstinadas pelo angariamento de vantagens comparativas, buscaram proximidade com as fontes. A maior tecelagem da América Latina (Teka), verbo gratia, abriu estabelecimento em Eduardo Gomes (RN), tendo em vista tal vantagem e ganhos de escala.

Não mais pelas vantagens comparativas, com ênfase à riqueza natural, mas agora pelas vantagens competitivas (ganhos estruturais e conjunturais), tem-se a ameaça de êxodo para regiões que praticam menores salários e tributos. O Nordeste brasileiro, nesta perspectiva, luze como Eldorado, ainda favorecido por deter a maior oferta do algodão nacional. A minacidade do empresariado assim pensante vem sendo aplacada por ações concretas do Estado na esfera fazendária através de concessões fiscais e, na área federal, pela disposição de políticas de fomento a juro subsidiado. A onda exodista também retraiu-se devido à abertura comercial de 1990, que propiciou a importação do algodão a preços mais vantajosos que os nacionais. Nesse particular, a questão da marca regional (de projeção mundial), característica de Blumenau e cercanias, como fator subjetivo de existência empresarial, desempenhou o papel de resistor ao êxodo.

Ainda que imperem essas condições mínimas para a articulação do conglomerado industrial nos moldes de cluster, as vontades de implementação são remotas, pois as estruturas industriais praticadas em Blumenau, seja na planta administrativa ou produtiva, são deveras

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heterogêneas; o individualismo, exceto nos momentos de precisão coletiva, é também forte barreira a uma atuação grupai.

A verticalização da cadeia também se faz sentir no ramo de malharia e vestuário. As empresas desse jaez apresentam fortemente essa característica à montante. O fio, na maioria dos casos, é produzido pela própria unidade fabril e o algodão é adquirido de terceiros fornecedores. N o que concerne ao domínio do mercado nacional, predomina a presença de produtos das GMEs (Hering, Sulfabril, Dudalina) em contraposição à demanda local imediata freqüentemente atendida por pequenas unidades.

O baixo custo dos ativos fixos de malharia, comparados aos de tecelagem, permitem o crescendo de novos investimentos no ramo verificados a cada dia, ainda que Blumenau esteja pulverizada com esse tipo de atividade.

O surgimento constante de unidades de malharia e facções de manufatura tem sua origem também nos fatores de trabalho. A especialização da PEA local em atividades ligadas ao setor têxtil é outra importante vantagem para o estabelecimento de pequenos empreendimentos, visto que, pelo menos 2/3 dos trabalhadores locais já tiveram passagem por alguma fábrica do ramo. O nível de salários praticado também é promissor.

O subsetor de confecção é mais freqüentemente encontrado na praça comercial, devido aos custos fixos bem menores e ao uso intensivo de trabalho remunerado a baixos salários. O serviço concentra-se no feitio de vestuário derivado de malhas fornecidas pelas GMEs. É comum, nessa atividade, a cessão de máquinas de costura, malha bruta, moldes e talhadeira, enquanto que o grupo cedente ocupa-se com a produção da malha, embalagem e expedição dos manufaturados pelos cessionários façonistas.

A cessão da atividade de confecção a terceiros independentes de grupos fabris ocorre graças à descontinuidade e fragmentação de processos produtivos inerentes à malharia de vestuário. O contrário acontece com a produção de tecidos planos, em que reduzidas atividades diretamente ligadas ao feitio físico podem ser cedidas. Da parte de fiação e tecelagem de tecidos, terceiriza-se as atividades de uso intensivo de mão-de-obra ou aquelas complementares ao processo principal.

Pelo notado, a atomização produtiva capitaneada pelas facções é um desvio do modelo de colaboração pré-competitiva concebida nos moldes clássicos e praticados na Europa Centra e Meridional, em especial por conhecidos grupos como Guccio Gucci e Benetton.

Como as GEs, ainda consideravelmente verticalizadas, possuem o know-how completo do processo, inclusive respeitável trânsito nos meios de promoção de produto (mídia e eventos) e da estrutura final de vendas e expedição, tem-se a formação de uma típica network.

O observado em Blumenau é que GMEs operam com certa desarticulação entre si, no que trata à colaboração inter-empresarial e, no instante, contratam trabalhos de pequenas empresas para compensação de atividades complementares ao processo principal, sem haver uma política subscrita em comum na busca de vantagens coletivas aos envolvidos.

A s relações travadas, por imposição do acirramento da concorrência externa, são rigorosas em termos de qualidade final, cujo descumprimento implica em resilição sumária dos contratos. Tal fato é explicado pelo baixo de grau de especialização dos pequenos frente as GMEs extremamente exigentes. Logo, nota-se que a relação é conflituosa devido ao despreparo para assumir padrões de trabalho agressivos.

Materializando certos traços de informalidade, as facções como subcontratadas agem sem qualquer controle burocrático nas relações com as GMEs, e muito freqüentemente, no trato com trabalhadores. É uma prática que desguarnece a todos os envolvidos na relação, constituindo-se uma causa para desconfiança das GEs, que costumam operar modelarmente com absoluto controle sobre seus atos e de terceiros ligados.

A ausência de contrato formal na relação, por outro lado, fortalece as GMEs em caso de ruptura, pois basta suspender o fornecimento de matéria-prima (malha ou tecido), requisitar ativos fixos cedidos, intempestivamente até, e sem geração de penalidades cíveis.

N esse contexto, há que se ressaltar a solvência das GMEs nas relações de contratação. Os altos níveis de capitalização destas e, mesmo a tradição de rigoroso adimplemento do compromissos, faz com que se exerça, e se justifique, pesadas exigências aos subcontratados. As queixas de inadimplência, na maioria, provêm das GMEs em relação aos pequenos produtores.

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vácuos deixados pelas GMEs, em especial no fornecimento de produtos proff-line, como estopas, uniformes, panos para louça e outros artigos destinados a hotéis, bares e similares, ainda pouco interessantes a grande indústria.

Os canais vislumbrados para escoamento desse tipo de produção ainda são as mini-lojas marginais de rodovias, out-lets centers, CICs (centros industriais e comerciais, calçadões de negócios (que ocupam, às vezes, ruas inteiras), aonde são destinados os produtos das PMEs. Para efeitos de lembrança, são atuantes nas adjacências de Blumenau ainda restam o Centro Comercial de Azambuja (Brusque), CITI (Centro Comercial e Industrial de Timbó), o CIC de Blumenau, e também às margens das rodovias um sem-número de lojas e mesmo residências que vendem produtos das PMEs para os ditos “sacoleiros”.

Em 1990 verificou-se o surto desse tipo de negócio que, inicialmente, absorvia excedentes inclusive das GEs, sendo pioneiros os pontos já falidos como a “Parada V \ Celeiro do Vale e Shopping M all - todos em Blumenau, e não de menor importância os pontos congêneres restantes no MVI, cuja profusão e viabilidade dos negócios oferecidos atraíam turistas - compradores de várias regiões do Brasil e do cone sul-americano, que retornavam às origens para revenda. N os primórdios, o aparecimento do turismo de compras no MVI foi espontâneo, porém, devido ao êxito, logo mereceu a atenção do Governo Estadual e dos prefeitos locais no que toca a incentivos fiscais e infra-estrutura para instalação de pequenas confecções, lojas e todo o aparato para acomodação de compradores e viajantes.

Há que se ressaltar que o arroubo das PMEs no varejo, somado à escâncara comercial e invasão do mercado por produtos do Sudeste Asiático, assestou perdas para as GEs. A irresponsabilidade fiscal daquelas e o descuido das autoridades fazendárias e trabalhistas para com a crescente onda de empresas clandestinas obrigou o alto empresariado a injunções políticas. Entre os principais resultados, que forçaram uma relativa eqüidade de condições, tem-se protocolado leis e acordos de moratória fiscal, linhas de crédito para reestruturação, flexibilização dos contratos de trabalho, tetos de isenção para exportadores, etc.

A predisposição dos empresários ligados as GEs, a consecução de políticas de incentivo e a existência de canais de distribuição locais, constituem-se importantes condições para o arregimentamento de grupos em torno de pleitos comuns e contínuos, de modo mais homogêneo

e sistemático, visando a concretização da atmosfera industrial da forma que grupos alemães e italianos conseguiram, por conseqüência, para auferir vantagens decorrentes dessa atuação.