Focalizando o Pirambu
4.2 As práticas do biopoder em Fortaleza e Pirambu
Todas as práticas sociais e econômicas que ocorriam na Capital provincial estavam articuladas ao pensamento médico social surgido na Europa e instalado no Brasil em meados do século XIX, ocasionando transformações rigorosas, tanto para a Administração pública como para a população. Sobre isto Ponte (2001) nos diz que
(...) a Medicina Social, também denominada ‘Medicina Urbana’ e ‘Medicina Moderna’, emergiu na Europa no século XVIII, momento crucial do desenvolvimento capitalista no Ocidente, e objetivava, sobretudo, medicalizar preventivamente o espaço e as populações urbanas [...]. Das três diferentes características fundamentais que a medicina social assumiu na Europa – a Medicina Estatal na Alemanha, a Urbana na França e a da Força na Inglaterra – as duas últimas nos importam mais no presente estudo pelas semelhanças que guardam com as características constitutivas do saber médico- social no Brasil (a partir dos meados do século XIX) (p. 69-70).
Essa prática de Medicina surgiu na Alemanha, antes da França e da Inglaterra. No século XVIII, a Alemanha desenvolveu uma prática médica efetivamente centrada na melhoria da saúde da população. Esse país, ao unificar-se tardiamente, desempenhou constante busca de melhoria do Estado, fortalecida pela Medicina, passando a funcionar melhor do que os outros países. Tal política é o que Foucault (1996) denomina de Medicina do Estado, em que
(...) a organização de um saber médico estatal, a normalização da profissão médica, a subordinação dos médicos e uma administração central e, finalmente, a integração de vários médicos em uma organização médico estatal, tem-se uma série de fenômeno inteiramente novos que caracterizam o que pode ser chamada a medicina de Estado (p. 84).
Nenhum Estado ousou propor uma medicina tão coletiva e estatizada como a Alemanha, mas foi na França e na Inglaterra que se desenvolveram novos tipos de Medicina social disseminados no mundo, inclusive no Brasil.
No caso da França, a Medicina social, surgiu em fins do século XVIII, apresentando três objetivos: analisar os locais de acúmulo no espaço urbano que poderiam provocar doenças ou disseminação epidêmicas, controle da circulação do ar e da água e a organização sanitária dos espaços comuns e de circulação. Essa medicina, também chamada de Medicina social urbana, interferiu, organizou e inspecionou todos os espaços da Cidade, à exceção da propriedade privada. Foucault (1996) estabelece comparações entre a Medicina praticada em França com a da Alemanha ao comentar:
(...) vê-se, assim, como se está bastante longe da medicina estatal, tal como é definida na Alemanha, pois se trata de uma medicina muito mais próxima das pequenas comunidades, das cidades, dos bairros, como também não é ainda dotada de nenhum instrumento específico de poder. O problema da propriedade privada, princípio sagrado, impede que esta medicina seja dotada de um poder forte. Mas se ela perde em poder para a Staatsmedizin alemã, ganha certamente em fineza de observação, na cientificidade das observações feitas e das práticas estabelecidas. Grande parte da medicina científica do século XIX tem origem na experiência desta medicina urbana que se desenvolve no final do século XVIII (p. 93).
Na Medicina urbana da França no século XVIII, o pobre não era tido como perigoso para a saúde da população, uma vez que realizavam determinadas funções nas cidades francesas (levar cartas, despejar o lixo etc.) e sua quantidade demográfica ainda era reduzida.
A partir do século XIX, porém, o pobre apareceu como perigoso por várias razões: o crescimento populacional dessa ordem social, o surgimento dos trabalhos que dispensavam os serviços prestados pelos pobres, as doenças e as agitações sociais. A medicina francesa, contudo, apresentou uma nova conotação, cujo objetivo era o controle político-científico do meio. A partir desse momento, o espaço urbano passou a ser dividido em espaços de pobres e de ricos; discurso que influenciou vários países, inclusive o Brasil, no qual, em alguns estados, a administração pública
se apropriou deste novo discurso, realizando o controle não só do meio como também da população.
Em meados do século XIX, o controle da sociedade começou a ser realizado a partir do corpo. A esse exemplo posso citar a Medicina inglesa, que apresenta o corpo como força de trabalho que precisa ser assegurado, controlado e preservado. A vida passa a ter valor, ou seja, passa-se a investir no indivíduo. Tal prática é chamada debiopoder, por Foucault (1996).
Na Medicina inglesa, desenvolveu-se como controle da saúde e do corpo dos pobres para torná-los mais aptos ao trabalho e menos perigosos às classes abastadas. Foucault (1996) aponta a criação da Lei dos pobres na Inglaterra como uma intervenção médica que assiste as necessidades de saúde dos pobres assegurada pelas classes ricas e seus representantes em busca de garantir a própria proteção.
Essa Medicina da força, juntamente com a Medicina urbana francesa, seguidas de suas características do século XIX, influenciará as práticas médicas e a organização urbana no Brasil do mesmo período, gerando grandes transformações socioespaciais.
Há indícios de que o pensamento higienista42 já havia chegado ao Brasil
desde o final do século XVIII, mas a reflexão sobre os problemas urbanos das cidades ocorreu somente com a chegada da Corte portuguesa ao País, em 1808.
O período em que a Coroa portuguesa se instalou no Rio de Janeiro promoveu na Cidade transformações econômicas, políticas e culturais intensas e as disseminaram no século XIX a outras cidades do País, como São Paulo e Fortaleza. Nesse sentido, Ponte (2001) assinala:
(...) este processo disciplinador, traduzido em práticas e discursos voltados para a normalização das cidades e para o reajustamento
42 Para Abreu (1997) o higienismo tem suas origens na “obra de Hipócrates intitulada Sobre os ares, as águas e os lugares e teve o médico inglês Thomas Syndenham (1624-1689) o seu grande sistematizador moderno. [...] Dentre os grandes vilões do meio ambiente destacava-se os pântanos, elo de ligação entre as ‘entranhas da Terra’ e a ‘atmosfera’, os quais, sendo locais de putrefação de matéria orgânica, acabavam por produzir uma série de “vapores” prejudiciais a saúde, que seriam depois disseminados pelos ventos para outros locais. Esses vapores, chamados de miasmas, eram verdadeiros causadores de epidemias, mas sua ação patológica era também facilitada pelas péssimas condições de higiene verificadas nas cidades” (p. 38).
social e moral das coletividades urbanas atravessou os principais centros urbanos do País naquele período, inclusive Fortaleza, ainda que em menor intensidade do que, por exemplo, o Rio de Janeiro, então capital federal, e a cidade de São Paulo. Tal compulsão saneadora, a exemplo do acontecido nas demais grandes cidades brasileiras, emergiu em Fortaleza ainda na segunda metade da centuária passada, a partir do momento em que a Capital, a reboque do incremento da exportação algodoeira entre 1850 e 1860 consolidou-se como principal centro político, social, comercial e financeiro do Ceará (p. 75).
No caso de Fortaleza, a Cidade passou pelo processo de remodelação e organização espacial43 fundamentada pelas idéias e práticas advindas da Medicina francesa e inglesa, sendo consentido pelo Poder público no sentido de controlar sua população, principalmente os retirantes, isolando-os, e de livrar-se dos focos epidêmicos que ameaçavam a saúde da elite. Nada mais viável do que endereçar esta população para a periferia da cidade, de modo que o Pirambu é um dos bairros receptores de migrantes.
A sociedade fortalezense (elite), preocupada e com medo do crescimento populacional, resultante da vinda de migrantes, passou a exigir intervenções do governo. Assim, o Poder público aplicou a Medicina para governar e controlar a sociedade, pois Medicina é uma estratégia biopolítica.
Nesse contexto, a biopolítica ou biopoder corresponde à Medicina social que a Administração pública utiliza estrategicamente na população a fim de governar a vida. Assim, aconteceu com as sociedades da Europa e do Brasil nos séculos XVIII e XIX, respectivamente, que passaram a ser controladas política e socialmente, tendo a Administração pública exercido seu poder sobre elas a partir do discurso da Medicina social ou pensamento higienista.
43 Segundo Costa (2002) a “teoria miasmática exigia a adoção de medidas de saneamento, uma higiene total, uma limpeza profunda do meio físico e social, pois onde reinasse a sujeira, a concentração, o amontoamento criava-se um ambiente propício a formação de miasmas e de doenças, fatores decisivos na mortalidade e morbidade dos habitantes. O espaço urbano foi considerado como o meio mais perigoso para a população. Cemitérios, matadouros, hospitais, cadeias, fábricas, lixões etc. foram transferidos para a periferia da cidade. Construíram-se redes de água e esgoto e passaram a fazer um controle das fontes, rios e chafarizes” (p. 64).