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ENSINO DE SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO

10 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS INICIAIS

12 AS PRÁTICAS EDUCOMUNICATIVAS NO CONTEXTO DA REDE

MUNICIPAL DE ENSINO DE SÃO PAULO: UMA ANÁLISE

INTERPRETATIVA

Neste capítulo, apresentamos os resultados da pesquisa empírica acerca da política em educação midiática desenvolvida na rede municipal de ensino de São Paulo sob a perspectiva da educomunicação. O objetivo principal é expor e analisar os conteúdos que foram coletados no estudo de campo sobre a natureza dessas ações governamentais, de forma a subsidiar a análise comparativa com o conteúdo do capítulo 11, sobre a Mídia-educação no município do Rio de Janeiro.

Antes de apresentar os dados coletados através de observações in loco e de entrevistas, cabe destacar um elemento de aproximação entre os dois projetos: a relativa longevidade dos mandatos das autoridades sob as quais as propostas de educação midiática no Rio e em São Paulo foram conduzidas.

Schneider foi o responsável pela edição da Portaria n.o 5.792/09, que normatizou a prática educomunicativa do então denominado Programa “Nas ondas do rádio”. Conforme análise interpretativa das entrevistas, a Portaria de 2009 foi publicada quatro anos depois que a “Lei Educom”, de dezembro de 2004, foi regulamentada pelo Prefeito José Serra, em agosto de 2005. O Programa, em 2016, se transformou no Núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Ensino111.

Quanto aos dados empíricos, foram esquematizados de forma a facilitar tanto a leitura quanto a análise. Inicialmente, expomos as informações colhidas junto aos gestores da política em educação midiática no âmbito do NE da SME para, em seguida, proceder à descrição e interpretação das entrevistas colhidas na base do projeto, junto aos gestores, professores e alunos de quatro unidades escolares, o mesmo número de escolas pesquisadas no Rio de Janeiro.

Os tópicos ficaram assim distribuídos: em um primeiro momento, são apresentadas explicações sobre a gestão político-pedagógica de educação midiática da SME (NE); na sequência, as descrições das quatro unidades escolares visitadas, quais sejam: 1) EMEF Professor Roberto Mange (Jardim Ester, Zona Oeste); 2) EMEF Leonor Mendes de Barros (Vila Diva, Zona Leste); 3) EMEF Professor Florestan Fernandes (Jardim Guanabara, Zona Sul); 4) EMEF Professor Carlos Pasquale (bairro

111 Ressaltamos que as explicações quanto à história e à função institucional do NE e à implementação de

ações governamentais foram tratadas com o devido aprofundamento na Parte II deste estudo, no Capítulo 9.

Itaim Paulista, Zona Leste). Lembramos que o NE/SME foi o responsável pela indicação das unidades escolares, tendo como critério a participação no “Programa Imprensa Jovem” e em outros projetos educomunicativos.

Como ocorreu no Rio de Janeiro, trabalhamos, em São Paulo, com uma amostragem igualmente constituída por 35 entrevistados, composta de gestores da política, gestores escolares, professores e alunos. Reforçamos que, em cada tópico, são reproduzidos os trechos das falas dos sujeitos, seguidos das interpretações e reflexões acerca das entrevistas, aliadas à interpretação final da política em educação midiática na abrangência da rede municipal de educação de São Paulo.

Conforme a metodologia adotada, damos início à descrição dos dados empíricos começando com a descrição do órgão que representa, na atualidade, a política em educação midiática na SME/SP: o Núcleo de Educomunicação.

12.1 A GESTÃO POLÍTICO-PEDAGÓGICA DA POLÍTICA DE EDUCAÇÃO MIDIÁTICA NA SME/SP

Ao contrário do que ocorreu no Rio de Janeiro, onde o programa de educação midiática teve início com uma aproximação entre a Secretaria Municipal de Educação e o universo da educação para o audiovisual, trazido à esfera pública por uma iniciativa privada, representada pelas oficinas de cinema para crianças do Cineduc em São Paulo, foi a necessidade de dar solução a um problema de fundo sociopedagógico que asfixiava as escolas – a violência – que oportunizou o ingresso da universidade pública, no caso a USP, para a oferta de uma possível saída, via comunicação.

O recurso encontrado inicialmente foi o Projeto Educom.rádio, contratado junto ao NCE da ECA/USP, pelo Projeto Vida, da Secretaria de Educação, com o objetivo de mobilizar os professores e estudantes a fazerem uso do diálogo como solução para os conflitos que perturbavam o exercício da docência e dificultavam o convívio e a aprendizagem dos alunos.

De acordo com o idealizador do Projeto, Prof. Ismar de Oliveira Soares, em entrevista a esta pesquisadora, o que se buscava era trazer para o espaço escolar formal as conquistas da educação não formal, própria do universo do movimento social latino- americano. No caso, o Projeto Vida da SME/SP, ao adotar o conceito da

educomunicação sistematizado pelo NCE/USP112, entre 1997 e 1999, passou a admitir a

hipótese de que seria adequado mobilizar professores, alunos e membros das comunidades escolares a reverterem a perspectiva de conflito mediante o emprego dos recursos da comunicação, a partir das metodologias de ação propostas pela USP.

O desenvolvimento do projeto levado pelo NCE/USP à prefeitura privilegiou o uso do rádio no espaço escolar, pela acessibilidade do equipamento usado, sob a perspectiva de uma gestão solidária e compartilhada entre todos os membros da comunidade educativa, unindo toda a comunidade na busca de solução para os problemas que a afetavam. Isso não aconteceu com uma ou duas escolas, mas com 455, distribuídas em todo o território da cidade, envolvendo gestores, docentes e estudantes do ensino fundamental do 4.º ao 8.º anos.

Entre 2001 e 2004, o comando do processo se dividia entre o Projeto Vida, as coordenações das 13 Diretorias Regionais de Educação e o NCE/USP. As ações foram realizadas em polos que reuniam, aos sábados (portanto, fora do horário escolar), um determinado número de escolas, por região geográfica.

No primeiro dos sete semestres em que durou a experiência (estamos falando do segundo semestre de 2011), o Educom.rádio teve início mediante a formação de 5 polos (nas regiões Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro da cidade), com a presença, em cada um deles, de 25 pessoas de cada uma das escolas matriculadas. No caso, passavam a funcionar, durante 8 horas ao longo de 12 sábados, um total de 5 polos com 125 pessoas cada, entre alunos, professores e membros das comunidades. Para atender a esses polos, o NCE/USP disponibilizava uma equipe formada por um Articulador (mestrando ou doutorando), um assistente de Direção, um ou mais técnicos de som e 10 Mediadores, sendo que as duas últimas categorias eram formadas por estudantes universitários da região metropolitana de São Paulo. Além da equipe de gestão, o atendimento contemplava a presença de palestrantes (especialistas nos diferentes temas transversais, parte dos quais professores da própria ECA/USP) para trabalhar conteúdos que pudessem ser objeto das produções radiofônicas da comunidade escolar participante do projeto.

112 Sobre o conceito da Educomunicação, ver: SOARES, I. O. Comunicação/Educação: a emergência de um novo

campo e o perfil de seus profissionais. In: Revista Contat,. Brasília, ano 1, n. 1, jan./mar. 1999. p. 19-74, e SOARES, I. O. Gestão comunicativa e educação: caminhos da educomunicação. In: Comunicação & Educação, São Paulo, (23), p. 16-25, jan./abr. 2002. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/37012>.

O número de polos aumentou nos anos seguintes, passando de 13 (do 1.º semestre de 2002 ao 2.º semestre, de 2003) para 17 (no 1.º semestre de 2014), retornando para 13 (no último semestre de 2004). Ao todo foram formados 11 mil entre docentes, discentes e membros comunitários, todos certificados pela USP.

Um dos temas transversais era justamente o da Comunicação, sua história, seu funcionamento na sociedade e sua apropriação pelos cidadãos. Tal fato permitiu à equipe do NCE (que ao longo dos 7 semestres passou de 700 especialistas) promover uma efetiva educação midiática que, partindo da apropriação da linguagem radiofônica, chegava a todos os recursos da comunicação, entre as quais a digital.

A experiência tinha como conceito básico a Educomunicação, enquanto prática de conhecimento e de apropriação dos recursos da comunicação a partir de uma gestão solidária e participativa, tendo como meta o pleno exercício da cidadania.

A proposta articulada pelo NCE/USP se restringiu ao período de 2001 e 2004, tendo gerado uma Lei (promulgada em dezembro de 2004 pela então prefeita Marta Suplicy e regulamentada em agosto de 2005 por José Serra), além de uma herança cultural solidamente constituída. Com a saída do Núcleo da USP, a Secretaria de Educação, que a partir do governo Serra passara a avaliar a oportunidade de dar ou não prosseguimento ao projeto, viu-se na contingência de atender à demanda que emergia das próprias escolas, nomeando uma coordenação geral para a iniciativa113.

Coube, assim, ao Prof. Carlos Alberto Mendes Lima, com experiência em rádio escolar e que havia participado do curso do Educom.rádio, a missão de levar avante a iniciativa. O novo coordenador deu feição própria à condição do trabalho, buscando aliados internos, entre os quais os professores encarregados dos laboratórios de informática educativa nas escolas. Tal aliança se fez necessária, levando em conta a recusa do prefeito José Serra em empregar a verba empenhada pela administração anterior para a aquisição dos equipamentos para 200 das 455 escolas municipais. A meta foi aproximar a área da educomunicação à área da informática educativa.

De acordo com Luci Ferraz de Mello (2016), esta aproximação se efetivou. A autora tomou como objeto de sua tese doutoral o mapeamento dos possíveis pontos em

113O Projeto Educom.rádio foi examinado por uma série de pesquisas acadêmicas no Programa de Pós-graduação da

ECA/USP. Aqui damos destaque a duas investigações. A primeira é o doutorado de Patrícia Horta, intitulado “Educom.rádio - uma política pública em educomunicação” (PPGCOM, 2007), acessível em <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27154/tde-05072009-211722/pt-br.php>. A segunda é a dissertação de Ana Carolina Altieri Soares, intitulada “Educomunicação e cidadania na América Latina. A interface comunicação/educação a partir das práticas sociais no continente: estudo de caso de políticas públicas na Argentina e no Brasil” (PROLAM, 2012), acessível em <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/84/84131/tde-22102012- 124009/pt-br.php>.

comum entre os elementos definidores do paradigma da Educomunicação e a abordagem de avaliação para a aprendizagem (avaliação formativa), implementada a partir de 2011 pela Secretaria Municipal de Educação (SME/SP). A pesquisadora procurou definir os indicadores da ação e das competências educomunicativas, tendo como base a perspectiva defendida pelo NCE/USP, aqui nomeadas como práticas pedagógico-comunicacionais. Para tanto, analisou os projetos desenvolvidos nos espaços dos Laboratórios de Informática Educativa sob coordenação do Núcleo de Informática Educativa da DOT da SME/SP.

Os resultados obtidos confirmaram a hipótese principal da tese. A autora concluiu que o grau desta aproximação passou a depender da maior ou menor intensidade das práticas de natureza dialógica, bem como da maior ou menor oferta de espaços para o exercício do protagonismo por parte dos sujeitos envolvidos no processo, especialmente os alunos. É preciso lembrar que boa parte dos professores de informática educativa acabou frequentando os cursos sobre Educomunicação ministrados pela SME a partir de 2009114, sob a coordenação geral de Carlos Lima.

Como já sinalizamos, foi justamente em 2009 que Lima logrou apoio do próprio secretário Alexandre Schneider para que uma portaria fosse editada, garantindo vida para o projeto de formação continuada dos professores da rede. Finalmente, em 2016, obteve a constituição de um espaço institucional específico, o Núcleo de Educomunicação, sobre o qual passaremos a falar.

12.1.1 O papel do Núcleo de Educomunicação (NE)

Oficialmente criado em 2016, o Núcleo Técnico de Educomunicação (NE) é um setor integrado à COPED da SME e vinculado ao NTC. Tem como proposta principal “as ações formativas que visam apoiar, desenvolver e subsidiar o currículo por meio das linguagens da comunicação e de ações pedagógicas fundamentadas pela Educomunicação” (SME, 2018, p. 7). É o que afirma, textualmente, o Anuário “Educom 2017” da NE/SME/SP, ao garantir que o Núcleo é entendido:

[...] como um setor dedicado ao desenvolvimento do conceito da Educomunicação na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, integrado ao Núcleo Técnico de Currículo e nomeado como Núcleo de Educomunicação.

114 Ver MELLO, L. F. Educomunicação e as práticas pedagógico-comunicacionais da avaliação

formativa no ensino básico. Tese doutoral, PPGCOM, ECA/USP, 2016. Acessível em: <

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