Como referido, o trabalho é o exercício pelo qual as pessoas têm a oportunidade de se desenvolverem, e, assim, desenvolverem a sociedade à qual fazem parte, pois dele depende a aquisição de recursos, sobretudo, os financeiros e os tecnológicos. Contudo, o trabalho deve ser, sempre, objeto de tutela do direito, para que seja desenvolvido de forma correta e salutar, eis que, se assim não for, pode se transformar em uma forma de opressão, como verificado na História, representado pelas lutas de classes e pela formação e divisão entre o proletariado e os proprietários dos meios de produção.
É nessa seara que o Direito do Trabalho surgiu, pois, desde a partir da Revolução Industrial, no final do século XIX, em que a força humana passou a ser substituída pela mecânica, com a criação de máquinas cada vez mais avançadas, os postos de trabalho foram reduzidos e as pessoas passaram a ser exploradas, pois a força de trabalho não era mais o único recurso disponível para fabricação de mercadorias e a geração de riquezas. Essa
situação ainda persiste na atualidade, e, agora, com maior evidência, causando, dentre outros efeitos, o desemprego e, por decorrência, as desigualdades sociais e o aprofundamento da divisão de classes: a proletária e a capitalista.
Ainda no século XIX, com a crescente insatisfação dos trabalhadores pelas precárias condições a que eram submetidos, os movimentos socialistas em prol da igualdade se fortificavam, sobretudo, a partir de em 1848, quando Karl Marx e Friedrich Engels publicaram o Manifesto Comunista, o primeiro documento a tratar sobre os direitos dos trabalhadores (MARX; ENGELS, 2014).
Diante desse cenário, em 1881, Otto von Bismarck, chanceler alemão, dedicou-se a criar uma legislação social que visasse à segurança do trabalhador, como, por exemplo, obrigando as empresas a firmarem apólices de seguros contra acidentes de trabalho, incapacidade, idade e doenças. Os sindicados, já organizados pelos trabalhadores, foram reconhecidos, legitimando-se a representatividade dessa classe perante a sociedade e o Estado. Tais iniciativas favoreceram a criação da responsabilidade social do Estado, com a obrigação de zelar pelas condições adequadas de trabalho, o que refletiu em muitos países, inclusive, o Brasil (LEWANDOWSKI, 2003).
Especificamente, no Brasil, as características dos regimes políticos ditaram as principais diretrizes voltadas aos direitos dos trabalhadores. Ainda que existam várias classificações, neste trabalho adotou-se aquela proposta por Magano (1991), onde ele destaca quatro períodos de reconhecimento e de proteção: do desarraigamento do patriarcalismo, com destaque para a Lei Áurea (até 1888), pelo liberalismo (na República Velha, de 1889 a 1930), pelo intervencionismo corporativista (da Revolução de 1930 até 1988) e pelo ideal neoliberal e a flexibilização das condições de trabalho (a partir da Constituição Federal de 1988).
Antes da análise dos períodos propostos, é importante se entender o desenvolvimento econômico brasileiro dentro da história econômica mundial, nos momentos anteriores à Primeira República. Quando se trata da “história mundial” dos períodos precedentes, está-se, na realidade, fazendo uma soma das histórias das diversas partes do globo, que, de fato, haviam tomado conhecimento umas das outras, porém, de forma superficial e marginalmente, exceto quando os habitantes de uma região conquistaram ou colonizaram outra, como os europeus ocidentais fizeram com as Américas (HOBSBAWM, 2007).
Assim, o primeiro período foi marcado pela influência do liberalismo, que conduziu à proclamação da independência do Brasil, em 1824, onde foi reconhecida, constitucionalmente, a liberdade do trabalho, com o termo das corporações de ofício. Contudo, essa recognição, efetivamente, não teve eficácia, tendo em vista que a grande
maioria da força de trabalho era composta por escravos, eis que a atividade econômica agrícola era a mais importante na época (LAMOUNIER, 1988).
Internacionalmente, a liberdade do trabalho adquiria força, representada, nomeadamente, pelo tratado, firmado com a Grã-Bretanha, em 1826, que condenava o tráfico de escravos, equiparando-o à pirataria. Após, em 1850, com a edição do Código Comercial, houve a regulamentação das normas de proteção aos trabalhadores no comércio, e, em 1870, com os trabalhadores organizados em sindicatos, como, por exemplo, a Liga Operária, de 1870, e a União Operária, de 1880 (NASCIMENTO, 1998). Em 13 de maio de 1888 foi proclamada a Lei Áurea, decorrente, em muito, pela crescente urbanização, industrialização e o exercício do trabalho livre, abolindo a escravidão, representando, no Brasil, a inauguração da evolução nacional, mas, ainda, com raízes colonizadoras – essencialmente, rurais e escravocratas (HOLANDA, 1997).
Do ponto de vista do progresso da cidadania, a única alteração importante foi a abolição da escravidão. Os escravos começaram a ser importados na segunda metade do século XVI e essa prática continuou, ininterruptamente, até 1850. Calcula-se que, até 1822, foram introduzidos, na colônia, cerca três milhões escravos e que, na época da independência, havia mais de um milhão de escravos. Os escravos não eram cidadãos, não tinham direitos civis básicos à integridade física, à liberdade e, em casos extremos, à própria vida, já que a lei os considerava propriedade do senhor, equiparando-os a animais. Carvalho (2013, p. 47) destaca essa situação social brasileira, pontuando a posição de crítica na seara internacional:
Nesta perspectiva, o Brasil tornou-se objeto das críticas do inimigo e mesmo dos aliados. Além disso a escravidão mostrou-se perigosa para a defesa nacional porque impedia a formação de muitos cidadãos e enfraquecia a segurança interna. Por iniciativa do imperador, com o apoio da imprensa e a resistência dos fazendeiros, o gabinete que Visconde de Rio Branco chefiava conseguiu aprovar em 1871 a lei que libertava os filhos de escravos que nascessem daí em diante. Apesar da lei ser pouco radical permitia aos donos dos engenhos, isto é, dos que nascessem livres, beneficiar-se do seu trabalho gratuito até 21 anos de idade.
Nesse período, os direitos civis beneficiavam a poucos, os direitos políticos, a pouquíssimos, e dos direitos sociais sequer se noticiava, pois a assistência social estava a cargo da Igreja e de particulares, e os valores da escravidão eram aceitos por quase toda a sociedade, prejudicando, substancialmente, o desenvolvimento de potencialidades para a superação das desigualdades sociais e materiais no Brasil. Ainda que tenha havido a abolição da escravatura, essa situação não se alterou, pois, aos libertos não foram oportunizadas a educação, a terra, o emprego, tendo eles passado a integrar a parte marginalizada da
sociedade, que formulou a moldura social, percebida até a atualidade, com uma parcela menos educada da população, com empregos menos qualificados, com menores salários, os piores índices de ascensão social (GRUNSZPAN, 1999).
A partir da abolição da escravatura e da instauração do regime republicano, iniciou- se a chamada República Velha, marcada pelo liberalismo, verificado na Constituição de 1891, que reconhecia o trabalho livre em seus diversos vieses, regulamentando-os, além do reconhecimento do direito de associação e de reunião, tanto que, em 1915, foi elaborado um projeto de Código do Trabalho, mas a primeira a ser aprovada foi o Decreto nº. 1.313, de 1891, que regulamentava o trabalho de menores da Capital Federal (SÜSSEKIND, et. al, 1993).
Após, os Decretos nº. 979, de 1903, que facultou a criação de sindicatos a agricultores e trabalhadores de indústrias rurais, e o de nº. 1637, de 1907, que ampliou o primeiro a todos os profissionais. Ainda, cita-se o Código Civil, de 1916, que tratou sobre a locação de serviços e a empreitada; a Lei Elói Chaves, de 1923, que criou a caixa de aposentadoria e pensões para ferroviários e o Decreto nº 4.982, de 1925, que reconheceu o direito de férias aos empregados do comércio, das indústrias e dos bancos (REALE, 2003).
A República Velha representa o terceiro período da evolução do direito do trabalho no Brasil. Em 3 de novembro de 1930, Getúlio Vargas - candidato da Aliança Liberal, derrotada na eleição - assume o poder (governo provisório) por meio de um golpe de Estado que depôs o presidente Washington Luís e que impediu que Júlio Prestes, presidente eleito, ocupasse o cargo. A partir de então, o intervencionismo passou a caracterizar o novo governo, mediante a edição de muitos decretos, onde o Poder Executivo passou a concentrar o gerenciamento do governo (LOVE, 1975).
Dentre essas normas, muitas foram dedicadas à regulação do trabalho e de suas relações, mas não foram editadas de forma linear, para a promoção da proteção nessa área; ao contrário, pela análise das legislações, identificam-se, de um lado, uma evolução na proteção desses direitos, mas, por outro, a manutenção de certas ideias que impediam que tal direito, realmente, se concretizasse, sobretudo, no trato às questões coletivas. Para D’Araújo (2000, p. 45) “[...] durante os anos 1930, graças ao “gênio maquiavélico” de Vargas, o Brasil teria mantido a posição de explorar as possibilidades que cada potência mundial pudesse oferecer, evitando firmar alianças rígidas com qualquer dos nascentes sistemas de poder”.
As propostas centrais de Getúlio Vargas eram nominadas pelo programa de reconstrução, destacando-se, dentre outras, a moralidade administrativa, a defesa social, a educação sanitária, a difusão intensiva do ensino público, a instituição do Ministério do
Trabalho, para superintender a questão social, o amparo e a defesa do operariado urbano e rural; a ênfase à produção pela policultura, a revisão do sistema tributário para amparar a produção nacional, a extinção progressiva do latifúndio e a organização de um plano geral ferroviário e rodoviário (FONSECA, 1989).
O Brasil passou por um crescimento econômico e industrial, principalmente, pela modernização sócio-política, e, no decorrer dos anos de 1930, teve o primeiro impulso significativo no crescimento econômico, sob a consolidação burocrático-nacional, produto da transformação da sociedade regionalista e oligárquica em uma sociedade urbana. Todavia, igualmente, essas mudanças trouxeram múltiplas e complexas questões ao governo provisório (1930-1934), como a arrancada para a industrialização do país, o incentivo e proteção à produção e ao mercado interno, o controle na política de exportação, a formação de uma ordem burguesa nacional e a plena modernização das instituições políticos sociais (WOLKMER, 1989).
Individualmente, Getúlio Vargas reconheceu muitos direitos dos trabalhadores, mas, coletivamente, restringiu a liberdade sindical – o que é correlato aos governos ditatoriais, ante a necessidade da manutenção da concentração do poder (ROMITA, 2009). A Constituição de 1934 é o exemplo dessa forma de governo, pois, ainda que tenha inaugurado, no Brasil, a proteção constitucional dos direitos sociais, a pluralidade e autonomia sindical, efetivamente, o autoritarismo não permitiu a concretização plena de tais direitos e exercícios. Para Mattos (2003, p. 11-13):
Alterações no papel do Estado, economicamente mais interventor e politicamente mais centralizador, que, com todas as nuances e possibilidade em jogo, tendeu a caminhar no sentido de uma conformação francamente autoritária. [...] Além de estimular a criação de sindicatos oficiais, quase sempre com pouca representatividade, uma das estratégias adotadas pelo Ministério [do Trabalho, Indústria e Comércio] para angariar adesões “voluntárias” ao seu modelo de sindicato foi vincular a concessão dos benefícios das novas leis.
Um dos exemplos desse entendimento foi a edição do Decreto nº. 24.694, de 1934 – imediatamente, anterior à promulgação da Constituição Federal, que o recepcionou -, que regulamentou a matéria sindical, exigindo o requisito de reunião de, pelo menos, um terço dos integrantes da profissão para a criação de sindicatos, mesmo que a Carta Federativa não limitasse o número de sindicatos a serem criados. Além disso, a liberdade de administração dos sindicatos sofreu limitações, pois, sempre que eram realizadas as assembleias, um delegado do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio mantinha-se, permanentemente,
acompanhando, a fim de controlar as decisões dos operários que pudessem vir a se opor aos ditames governamentais (NASCIMENTO, 1998).
Logo, ainda que, normativamente, se afirmasse o regime democrático e a proteção aos trabalhadores, faticamente, constatava-se a existência de um regime autoritário, que se revelou, amplamente, em 1937, com o golpe do Estado Novo, formalizando o regime corporativista no Brasil. Esse governo, ao mostrar-se paternalista e negar a influência totalitária (fascista e comunista) recebia o apoio das massas, mas, concretamente, obrigada os empregados e os empregadores a filiarem-se a sindicatos controlados pelo Estado. Além disso, o Congresso Nacional foi fechado, substituído por órgãos técnicos, retrocedendo quanto aos direitos políticos, ainda que estes tenham sido, inicialmente, fomentados (D’ARAÚJO, 2000).
Ainda que assim o fosse, mesmo com a mitigação dos direitos políticos, os direitos sociais, incluindo-se os trabalhistas e previdenciários, avançavam, fazendo com que o período, entendido de 1930 e 1945, tivesse, como característica, um avanço da legislação social. Todavia, foi um erro originário essa introdução sem a participação política da população, num período caracterizado como de precária vigência dos direitos civis, o que representou o comprometimento do desenvolvimento de uma cidadania, verdadeiramente, ativa (FONSECA, 1989).
Especificamente, quanto ao trato dos direitos sociais, cronologicamente, pode-se destacar os seguintes feitos: a criação do Departamento Nacional do Trabalho (1931), a decretação da jornada de oito horas de trabalho para indústria e comércio (1932), a regulamentação do trabalho do menor (1932), a criação da Carteira de Trabalho e Previdência Social (1932), a criação das Comissões e Juntas de Conciliação e Julgamento (1932), a regulamentação efetiva do direito de férias para comerciários, bancários e industriários (entre 1933 e 1934), a criação dos Institutos de Aposentadoria e Pensão (IAP) (a partir de 1933). Quanto às previsões constitucionais, a competência governamental para a regulação das relações de trabalho e a criação do salário mínimo (1940) (DELGADO, 2001).
Em 1943 foi elaborada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), influenciada pela Carta Del Lavoro, da Itália fascista.6 Considerando que a legislação trabalhista e sindical foi sendo implantada no decorrer das décadas de 1930 e 1940, elas foram reunidas em um compilado de normas (a CLT). Contudo, a CLT, da mesma forma que a Justiça do Trabalho, persistiu no ideário de instituir mecanismos de controle e intervenção do Estado quanto às
relações entre trabalho e capital, sobretudo, quando ao sindicalismo e as organizações coletivas (PANDOLFI, 1999).
Ademais, todas essas medidas foram intentadas com a finalidade de promover um conjunto estrutural para impulsionar um novo modo de acumulação capitalista, com fins de modernização industrial. A legislação trabalhista, então, cumpria funções bifurcadas: a econômica (com o objetivo de instaurar um novo modo de acumulação, com base nos setores industriais e políticos) e a social (para o controle estatal sobre as relações de trabalho e a promoção de uma espécie de ajuste entre a os detentores dos bens de produção e classe trabalhadora). Quanto a esse aspecto, Nogueira (2002, p. 1) pondera:
A forma como foram regulamentadas as relações entre trabalho e capital no Brasil revela aspectos de modernização quando reconhece e disciplina direitos sociais e individuais do trabalho. Porém, essa forma realiza-se através de uma via conservadora ao estabelecer um modelo corporativista de controle estatal e burocrático sobre o conflito trabalhista, em particular sobre a esfera coletiva e sindical.
Contudo, como visto, o significado de toda essa legislação foi ambíguo, pois invertera a ordem de surgimento dos direitos, proposta por Marshall, colocando os direitos sociais na dianteira dos políticos – pois aqueles surgiram sob a tutela paternalista de um governo ditatorial e autoritário. A inclusão dos trabalhadores na sociedade se deu por meio do paternalismo estatal, não pela sua ação sindical e pela política independente.Ademais, nessa fase histórica se instauraram as principais instituições do mercado de trabalho, ante a crescente transição de uma sociedade rural par um modelo industrial e urbano, que exigia, crescentemente, uma acomodação dos conflitos entre capital e trabalho, nascentes com a industrialização.
Nesse entendimento, o cidadão pleno seria aquele que fosse titular dos direitos civis (fundamentais à vida, à liberdade e à igualdade perante a lei), políticos (direito ao voto, à instituição dos partidos políticos e do parlamento livre e representativo) e, por fim, os direitos sociais (à educação, ao trabalho, à saúde, à aposentadoria) com o objetivo de permitir à sociedade, politicamente, organizada, reduzir os índices de desigualdade, produzidos pelo capitalismo, e garantir um mínimo de bem-estar e justiça social para todos (CARVALHO, 2013).7
7 Esse cenário remonta à classificação das gerações de direitos ao longo da história, proposta por Marshall e tratada no capítulo anterior.
Assim, em comparação de outros países com o Brasil, tem-se que, neste, foi dado maior ênfase ao direito social do que ao civil e político, de modo que os direitos sociais procederam aos direitos civis e políticos. No período de 1930 a 1945, foi implantada uma significativa quantidade de legislação trabalhista, que calcou a organização sindical antes da redemocratização de 1985 e da posterior Constituição Federal de 1988. Esses fatos atestam que os “[...] trabalhadores foram incorporados à sociedade civil por virtude das leis sociais e não de sua ação sindical e política dependente” (op. cit, p. 124).
Essa forma de concepção dos direitos foi adotada por Vargas com a finalidade de dar, ao seu governo, uma percepção de regime democrático do povo, em detrimento ao verdadeiro conteúdo ditatorial, advindo de um golpe retórico e de manobras políticas que se utilizou dos trabalhadores como aliados, a partir de uma legislação e benefícios sociais ilusórios. Essa antecipação dos direitos sociais, em relação aos políticos, permitia que aqueles fossem caracterizados como uma benesse, um favor, que exigia gratidão e lealdade, minando o cenário político, social e, até mesmo, econômico, na visão deturpada do exercício pleno dos direitos pela sociedade (PUREZA, 2008).
Nesse sentido, a justiça privada, ou controlada por agentes privados, é a negação da justiça, ou seja, o direito de ir e vir, o direito de propriedade, a inviolabilidade do lar, a proteção da honra e da integridade física, o direito de manifestação, ficavam todos dependentes do poder do representante do Estado. Portanto, não havia poder, verdadeiramente, público, não havia cidadãos civis, não havia justiça. Assim, não poderia haver cidadãos políticos, pois, mesmo que lhes fosse permitido o voto, eles não teriam as condições necessárias para o exercício independente do direito político (CARVALHO, 2013).
Como referido, a partir da institucionalização, iniciada a partir de 1930, uma parcela da população passou a viver à margem da sociedade produtiva e capitalista, constituída por as camadas populares não tiveram uma participação e um engajamento mais ativo na revolução. A nova política social preocupou-se, apenas, em definir linhas de interesses e de obtenção de maior apoio popular, mas que, na verdade, eram manobras que visavam à, unicamente, aumentar as bases do poder, ao invés de enfrentarem as problemáticas questões sociais que se apresentavam (WEFFORT, 1980).
A partir dessa configuração social, as oligarquias dominantes necessitaram atender à crescente classe proletária de às suas reivindicações, sendo que o caminho encontrado foi a elaboração de uma legislação social que suprisse as principais reivindicações do movimento operário. Logo, houve a antecipação dos direitos sociais (PINHEIRO, 1977). Nessa seara, questiona-se: quais as consequências, sobretudo, para a eficácia da democracia? Significa que
quando os direitos sociais foram implantados, haja vista que o período era de ditatura militar, onde o Poder Legislativo limitava-se a uma figura decorativa, fazendo com que o povo se aproximasse, diretamente, do Executivo, que se mostrou paternalista, rompendo-se o requisito da representatividade.
Por isso que Carvalho (2013, p. 221) afirma que “[...] o Estado é sempre visto como todo poderoso, na pior hipótese como repressor e cobrador de impostos; na melhor, como um distribuidor paternalista de empregos e favores”. Ademais, a valorização única e extrema de um poder, no caso, o Executivo, significa a desvalorização total do Legislativo, englobando deputados, senadores, e até mesmo os vereadores, sendo que é o único meio viável de alcance do povo para reivindicar e exigir. Isso é reflexo do que se vive atualmente, havendo uma convicção abstrata da importância do Poder Legislativo como meio de representatividade.
Ainda, em termos de consequência de inversão na ordem cronológica dos direitos de gerações, alterca-se o favorecimento do corporativismo de interesses coletivos. Os benefícios sociais eram distribuídos por categorias de trabalhadores dentro do sindicalismo, ou seja, não eram tratados como direitos de todos, mas, sim, como fruto de negociação direta de cada categoria com o governo. A força do corporativismo manifestou-se mesmo durante a Constituinte de 1988, sendo que cada grupo, ou classe de trabalhadores, procurou defender e aumentar seus privilégios (CARVALHO, 2013).
Mesmo que tenha havido iniciativas legais e voltadas à tutela dos trabalhadores, antes de 1930, estas se apresentavam como medidas legislativas benévolas das classes dominantes, assistindo, apenas, parte da classe trabalhadora, em especial, à segurança física, diante das deploráveis condições de trabalho e baixos salários, o que teve seguimento com Getúlio Vargas (FAORO, 1982). Logo, para que o arcabouço protetivo do trabalho tenha, realmente, efetividade, é necessário que a máquina pública executiva seja eficiente, que atenda à isonomia e a real necessidade da classe proletária. Daí a problemática dos direitos sociais que não postula a abstinência estadual, pelo contrário, exige uma intervenção pública, estritamente, necessária a realização desses direitos (CANOTILHO, 2003).
Portanto, o sistema governamental, instituído por Getúlio Vargas, de 1930 a 1945, apresentou caráter rígido, sendo fiscalizador, corporativista, formador de estrutura sindical vertical e dependente do Estado, o que pressupõe a ausência de liberdade e autonomia dessas