1. CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA E SEU OBJETO DE ESTUDO
1.3 As primeiras universidades paranaenses que aderiram ao sistema de cotas
De acordo com Nunes (2011) e Andrade (2010), as duas primeiras universidades públicas do estado do Paraná, que implementaram as políticas de cotas, como modalidades de ações afirmativas, foram a Universidade Federal do Paraná e a Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Segundo Nunes (2011), a UFPR foi a terceira universidade do Brasil, que junto com a UEL, foi uma das primeiras da região do Paraná, que estabeleceu o sistema de cotas para negros. Cervi (2013) narra, que a discussão sobre as políticas de ações afirmativas na UFPR se inseriu num contexto amplo, caracterizado pelo surgimento de políticas públicas, de âmbito federal na área da educação. As quais foram criadas para cumprir dois objetivos: “ampliação do sistema federal no ensino superior e, ao mesmo
tempo, diversificação racial e inclusão social no público atendido por essas instituições” (CERVI, 2013, p. 67).
Por esta razão, Nunes (2011) cita, que naquela época, a imprensa paranaense se posicionou de maneira favorável ao referido sistema de cotas na Universidade Federal do Paraná. Inclusive, realizou algumas reportagens, nas quais era exposta a questão da importância das políticas de cotas, como modalidade de ações afirmativas, que atuam como um importante agente, no processo de diminuição das desigualdades raciais entre brancos e negros na sociedade brasileira.
Cervi (2013) descreve, que as discussões iniciais sobre a implementação do sistema de cotas na UFPR foram iniciadas no mês de abril de 2002, quando a reitoria da instituição nomeou uma comissão, constituída por integrantes do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) da UFPR, para discutir sobre uma política de inclusão racial na universidade. O autor relata, que após o período de um ano, a comissão foi destituída, pois, eles não apresentaram avanços significativos e ainda não haviam elaborado propostas. Conforme Cervi (2013), para substituir esta comissão, a reitoria da UFPR nomeou uma nova equipe integrada por professores, funcionários e acadêmicos da universidade.
Segundo Cervi (2013 e 2014) e Nunes (2011), após debates em todos os setores da UFPR, em 2004, é aprovada a Resolução n°37/2004 pelo Conselho Universitário. Cuja resolução, a partir do primeiro vestibular de 2005 passou a reservar 20% de vagas aos candidatos negros. Durante este processo, a autodeclaração era o único requisito avaliativo no processo seletivo de vestibular. Na ficha de inscrição:
Uma vez optado por concorrer pela cota racial, o deveria declarar-se de pele preta ou parda no questionário socioeconômico e o mesmo passaria por uma banca de avaliação, que seria responsável pela constatação de que os fenótipos do candidato permitem o enquadramento na categoria definida. (CERVI, 2014, p. 17-18)
Conforme o autor destaca, os outros 20% das vagas seriam destinadas aos candidatos oriundos de instituições públicas de ensino (que cursaram integralmente a educação básica em escolas da rede pública de ensino). Ainda, segundo Cervi (2013 e 2014):
A resolução também determina uma validade de 10 anos para o Plano de Metas. Até a aprovação da Lei 12.711/12 estava previsto para 2013 o início de uma rodada de avaliações das políticas para propor a manutenção, mudança ou o fim das políticas afirmativas na UFPR. (CERVI, 2013, p. 68)
Ou seja, de acordo com o autor, após o período de 10 anos de vigência da lei de cotas na UFPR, em 2013 foi promovido um conjunto de avaliações das políticas de cotas, para redefinir o futuro e as alterações, que seriam aplicadas em tais políticas públicas na instituição. A partir desta nova avaliação, segundo Cervi (2013 e 2014), atualmente após a revogação de uma lei federal n° 12.711/124 em 2012, a UFPR não deixando de seguir o próprio conjunto de políticas da instituição. Pela nova legislação, a universidade se adaptou às novas regras válidas para o processo seletivo de vestibular.
De acordo com Silva (2014), Andrade e Silva (2008), na UEL as políticas de cotas foram aprovadas no ano de 2004, através da Resolução n°78/2004 do Conselho Universitário, que passou a vigorar a partir do ano de 2005. Na versão dos autores, assim como aconteceu na UFPR, antes da regulamentação das políticas de cotas para negros na UEL, a partir do ano de 2002 e 2003, foram promovidas discussões específicas na instituição, a fim de abordar este tema.
Silva (2014) narra, que o debate sobre as ações afirmativas na UEL foi motivado pela demanda do Movimento Negro de Londrina, que solicitou à administração da UEL, o processo de implementação do sistema de cotas na universidade. Segundo Andrade e Silva (2008), Silva (2014), tal iniciativa partiu de Dona Vilma5, em uma reunião domiciliar, pois, naquela época ela era uma importante líder do Movimento Negro, da cidade de Londrina.
O papel do movimento negro londrinense é fundamental, porque, a partir de seus integrantes, articulados com intelectuais negros e brancos da Universidade (UEL) reivindicaram a política de cotas e participaram do processo anterior a implantação do sistema de cotas para a população negra na Universidade. (ANDRADE e SILVA, 2013)
Conforme os autores e Nunes (2011), a partir desta reunião, outras reuniões ocorreram na UEL, nas quais estavam presentes o Conselho Municipal da Comunidade
4 “lei 12.711 de 29 de agosto de 2012 que estabeleceu a reserva de 50% das vagas das universidades federais aos estudantes de escolas públicas.” (SILVA, 2014, p.219)
5 “Liderança do Movimento Negro, também conhecida como Yá Mukumby, que foi assassinada em 3 de agosto de 2013, juntamente com a sua mãe de 89 anos e a sua neta de 10 anos de idade. ” (SILVA, 2014, p.219)
Negra de Londrina e representantes da Coordenadoria de Assuntos de Ensino de Graduação da UEL.
Segundo Andrade e Silva (2008), de 2002 à 2004 foram promovidos na UEL vários seminários, debates e palestras acerca da temática das ações afirmativas. Conforme os autores, entre estes eventos, houve destaque para o seminário “O Negro na Universidade: O Direito à Inclusão”, Nunes (2011), Andrade e Silva (2008) e Silva (2014). Este evento ocorreu em 2004, como os autores mencionam, este foi um seminário organizado pelo Ministério da Cultura. O qual foi patrocinado pela Fundação Palmares, UEL, Secretaria Municipal de Cultura e Conselho Municipal da Comunidade Negra, com a chancela do Movimento da Consciência Negra e da Associação Afro-Brasileira de Londrina.
Nunes (2011) e Andrade e Silva (2008) afirmam, que este seminário desempenhou papel decisivo para a aprovação da lei de cotas na UEL, pois, na versão dos autores, em 2004 foi aprovada a Resolução CU N° 78/2004, a qual outorgava que das vagas seriam destinadas: “40% (quarenta por cento) para oriundos de Instituições Públicas de Ensino e de 20% (vinte por cento) para negros oriundos de Instituições Públicas de Ensino” (UEL, 2004, p.2). De acordo com Silva (2014), esta resolução seria avaliada após o período de sete anos, a qual previu a condição de proporcionalidade, para a determinação do número de vagas reservadas à cota racial e à cota social. Conforme a autora explica, cada curso poderia destinar até 20% de suas vagas aos candidatos negros oriundos de instituições públicas de ensino, desde que, estes representassem uma média de 20% no número de inscritos no vestibular.
Silva (2014) salienta, que o processo de consolidação e adoção das ações afirmativas na UEL apresentou duas fases: a primeira fase foi de 2005 a 2012, e a segunda fase começou a partir do ano de 2013. De acordo com a autora, em 2011 ocorreu uma avaliação e alguns aspectos no sistema de cotas na UEL, que passaram a ser válidos a partir do ano de 2013, pela Resolução n° 15/2012, que passou a substituir a antiga resolução, a de número 78/2004 do Conselho Universitário, a partir do ano de 2013.
Se antes havia a condição de proporcionalidade, baseada no número de inscritos, que impedia os 20% da reserva efetiva das vagas disponíveis na UEL, a partir da avaliação do sistema e de exclusão da proporcionalidade, o vestibular da UEL passou a reservar em todos os cursos 40% das vagas e para os negros a metade. (SILVA, 2014, p. 229)
É possível compreender, de acordo com Silva (2014), que a partir da nova resolução de cotas da UEL, a condição da proporcionalidade do número de inscritos foi banida do sistema. A partir disto, em todos os cursos, 40% das vagas passaram a ser destinadas para as cotas, nas quais a metade, 20% seriam reservadas para os candidatos negros advindos de escolas públicas, nos processos seletivos de vestibular da instituição.
Desta forma, seguindo os exemplos da UFPR e da UEL, a UEPG também foi uma das três primeiras universidades públicas da região do Paraná, e a segunda universidade estadual da região, que implementou as políticas de cotas para negros e estudantes oriundos da rede pública ensino em seu contexto acadêmico. Conforme enfatizamos na introdução deste trabalho. Após o período de oito anos, a instituição também precisou rever e reformular a tais políticas públicas em seu espaço acadêmico. Este processo de implementação e reformulação descreveremos minuciosamente no próximo tópico que compõe este capítulo.