2 MARCO TEÓRICO
2.9 METODOLOGIAS MULTICRITÉRIO
2.9.3 As principais características da MCDM e da MCDA
O ponto de partida para uma distinção entre as características da MCDM e da MCDA é a percepção da questão da objetividade nas duas correntes. Assim, pode- se colocar a pergunta: por que reconhecer os limites da objetividade? A resposta a esta questão encontra-se, exatamente, na análise das características da MCDM e no seu confronto com o que os praticantes de MCDA têm comprovado na prática. Com base nas reflexões de Roy (1990:27) e Roy e Vanderpooten (1996, p.26), é possível chegar às seguintes considerações:
• enquanto a MCDM prega a existência de um conjunto A de alternativas, bem definido, a MCDA assume o caráter difuso da fronteira do conjunto de alternativas A, que poderá ser modificado ao longo do processo decisório;
• enquanto a MCDM prega a existência de um decisor D, a MCDA assume, em problemas reais, a não-existência de D, enquanto entidade única: os participantes nos processos decisórios são todos os envolvidos (atores), que podem ser representados por vários decisores, por grupos de influência (stakeholders), ou, ainda, por grupos de intervenientes;
164 • enquanto a MCDM prega a existência de um modelo de preferências
bem definido, na mente de um decisor D, a abordagem MCDA assume que as preferências raramente são bem definidas, pela existência de incerteza, conhecimento parcial da situação, conflito e contradições; • enquanto a MCDM prega a não-ambigüidade dos dados, a MCDA
assume a imprecisão e o caráter arbitrário da definição dos dados; • enquanto a MCDM prega a existência de uma solução ótima para um
problema matemático: a qualidade e o sucesso da decisão são afetados pelas dimensões situacionais e culturais que circundam o problema.
Uma vez justificado o reconhecimento dos limites da objetividade, deve-se, forçosamente e com base nos pontos salientados acima, reconhecer a presença da subjetividade.
De forma sintetizada, a Tabela 14, abaixo, apresenta as diferenças mais marcantes entre MCDM e MCDA.
Tabela 14 - Diferenças básicas entre as Escolas Européia e Americana
Escola Européia Escola Americana
Reconhece a presença e necessidade de integração, tanto dos elementos de natureza objetiva como os de natureza subjetiva;
Reconhece, apenas, os elementos de natureza objetiva; Tem por principal objetivo construir
ou criar algo (atores e facilitadores em conjunto) que, por definição, não preexista;
Tem por principal objetivo descobrir ou descrever algo que, por definição, preexiste;
Busca entender o significado e o papel de um axioma específico, na elaboração de ‘recomendações’;
Busca a verdade a ser atingida através de um axioma que pode ser entendido como ‘normas para prescrever’;
Preocupa-se em ajudar o tomador de decisão a entender o seu comportamento, através de argumentos capazes de fortalecer ou enfraquecer suas próprias convicções.
Não se preocupa em fazer com que o tomador de decisão compreenda o ‘seu problema’, mas, apenas, em solicitar-lhe que explicite as suas preferências.
Fonte: Dutra (1998, p.45)
Após a apresentação das características básicas, é conveniente devotar um pouco mais de esforço nesses dois eixos. Desta forma, faz-se necessário distinguir as siglas geralmente usadas pelos pesquisadores da área, para se referir a eles, respectivamente: MCDM e MCDA. Para explicar a distinção e, conseqüentemente, a direção que cada um dos eixos segue, optou-se por reproduzir as idéias de alguns teóricos, que fornecem subsídios suficientes para os recém-iniciados na área. Citam- se, então, os seguintes artigos: Roy (1990, p. 17-35), Roy (1993, p. 184-203) e Bana e Costa (1993, p. 9-20).
Roy (1990,17-35) tem como preocupação central distinguir Tomada de
Decisão de Ajuda à Decisão. A expressão Tomada de Decisão é a tradução da
expressão inglesa Decision-Making, de onde são retiradas as letras que compõem a sigla DM; a expressão Ajuda à Decisão é a tradução da expressão inglesa Decision- Aid., de onde são retiradas as letras que compõem a sigla DA. As siglas traduzem, exatamente, a diferença de atitudes entre as duas correntes, perante uma situação decisória. Enquanto DM procura desenvolver um modelo matemático, independentemente dos atores envolvidos, que permita descobrir aquela solução ótima que preexiste, DA, por sua vez, procura auxiliar a modelar o contexto decisional, a partir da consideração das convicções e valores dos atores envolvidos no processo decisório. Neste sentido, Roy salienta o fato de que a pesquisa em DA aponta para a impossibilidade de se fornecer uma fundamentação verdadeiramente
166 científica e objetiva para uma decisão ótima. Esta impossibilidade é justificada pelas próprias limitações da objetividade (ver ROY, 1990, p. 27-28) e pela necessidade de incorporação de fatores subjetivos nos processos decisórios, o que é desconsiderado em DM.
Em seu artigo de 1993, Roy (p. 184-203), enfatiza a distinção, opondo
Ciência da Decisão a Ciência de Ajuda à Decisão, apontando esta oposição no
próprio título: “Decision science or Decision-aid science?” Neste artigo, Roy utiliza as siglas OR e DA, vinculando OR (Operational Research) à Ciência da Decisão e DA à
Ciência de Ajuda à Decisão. À primeira, ele atribui o propósito de busca por verdades objetivas em situações de tomada de decisão, e, especialmente, a busca da melhor decisão, através do uso dos modelos apresentados como simplificações da realidade. Quanto à segunda, Ciência de Ajuda à Decisão, Roy entende outro
tipo de ciência, cujo objeto não é buscar a melhor decisão mas desenvolver um
conjunto de condições e meios que sirvam de base para as decisões, em função
daquilo que o decisor acredita ser o mais adequado, dentro de um dado contexto. É interessante notar que nos dois artigos de Roy discutidos acima, as mesmas distinções e definições são apontadas, embora haja uma certa variação na forma de se referir a elas. Observe-se que, o que é referido em 1990 como MCDM eqüivale ao que é descrito em 1993 como Ciência da Decisão, vinculada à sigla OR. Por outro lado, o que é referido em 1990 como MCDA eqüivale ao que é descrito em 1993 como Ciência de Ajuda à Decisão, vinculada à mesma sigla DA.
Bana e Costa, em seu artigo de 1993 (p.17), já se instala no contexto de MCDA, mencionando a sua “tomada de decisão em favor de uma concepção sistêmica soft de um processo de apoio à decisão, no seio do qual os actores intervenientes e os seus valores, objectivos e normas e as acções e suas
características são componentes estruturantes”. Neste artigo, Bana e Costa define, com clareza, a atividade que ele chama de apoio à decisão. Como não poderia explicar esta atividade de uma maneira tão clara como Bana e Costa o fez, e como concordo com suas colocações, baseio minha discussão sobre ajuda à decisão em seu pensamento e formulação. Primeiramente, é importante salientar que a atividade de ajuda à decisão não busca descrever uma realidade exterior preexistente. Ao contrário, busca a construção de uma estrutura partilhada pelos intervenientes no processo decisório, “para a elaboração de um modelo de avaliação, seguindo uma abordagem interactiva, construtiva e de aprendizagem, e não assumindo um posicionamento optimizante e normativo” (BANA e COSTA, 1993, p.18). Em segundo lugar, cumpre deixar claro que a ajuda à decisão não se reduz “a um processo de debate permanente com os intervenientes”, mas sim, em uma série de etapas interativas e sucessivas (ibid.). Bana e Costa (1993) alerta quanto ao risco de se querer reduzir a noção de participação ao diálogo e ao debate constantes. Na verdade, ajuda à decisão é um processo interativo também em um outro sentido: a uma fase de confronto com o sistema de valores dos atores, segue-se uma fase de análise e interpretação das conclusões do debate anterior, preparando as recomendações para se prosseguir um novo diálogo, e assim, sucessivamente, até a construção de um modelo de negociação.
A próxima subseção irá detalhar aspectos da MCDA, sobretudo no que se refere ao significado da expressão Apoio à Decisão.