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As prisões no Brasil e na região Nordeste

1. A EVOLUÇÃO DAS PENAS E AS PRISÕES

1.6 As prisões no Brasil e na região Nordeste

Realizadas as achegas acima, é importante chamar a atenção para as origens da formação social do Brasil, que trouxe, principalmente através do povoamento cultural europeu, a cultura, os ideais e valores capitalistas, promovendo a formação de grandes propriedades que transformar-se-iam em latifúndio, contribuindo para a consolidação da economia açucareira nordestina, utilizando em grande escala a mão-de-obra escrava, possibilitando a nova burguesia nacional, uma maior concentração de riqueza.

Tal domínio aparece nesta quadra histórica, apoiado pelos mecanismos coercitivos desenvolvidos pelo Estado nascente, que atuará cada vez que o consenso não for alcançado e que os interesses em voga, levem a um iminente conflito social. Dessa forma, as instituições coercitivas irão atender a demanda de legitimidade que não foi alcançada através da concordância, sendo esta legitimidade imposta então pela lei.

Observando a região nordeste do ponto de vista geopolítico, através de uma compreensão mais ampla baseada na análise dialética da formação do Brasil colonial, constata-se que a estrutura de classe existente na região expressa a plenitude do processo de acumulação e reprodução do capital, que não só através do acordo, mas principalmente pela imposição, irá buscar a legitimidade e solidificação da ordem estabelecida.

Assim sendo, a utilização de um modo de produção fetichizante e alienador, determinará que a luta pela sobrevivência, funcione como um dos mais complexos mecanismos de dominação de uma classe sobre outra, com os devidos ajustes da força para a manutenção da ordem e também como uma medida pedagógica de tratamento aos seus opositores e transgressores das leis estabelecidas; relembrando a vis corpolis, cujo suplício e martírio eram utilizados como forma de intimidação e imposição das regras sociais.

Dessa forma, veremos que o trabalho escravo muito beneficiou o modo de produção do capital, e que os escravos lutavam contra a condição imposta, sendo então constantemente levados ao pelourinho60, donde as penas corporais eram bastante exploradas, ratificando a pedagogia da violência e do sofrimento corpóreo.

No momento em que o Brasil está sendo ocupado por europeus, considerando o cenário aqui exposto, não há que se falar em admiração, quando se verifica que aqueles levados à condição de criminosos, e que estavam submetidos às penas, eram vastamente pertencentes à categoria dos escravos.

Após o período holandês (1630-54), o espaço geopolítico foi redefinido, o Governo Geral sai da Bahia em 1763 e instala-se no Rio de Janeiro, a fim de buscar novas formas de produção, no caso em questão, as minas.

Devemos, no entanto enfatizar que a transição da mão-de-obra escrava para a livre, apresenta-se como um marco para a Região Nordeste, que passa a disputar interesses diversos

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Técnica punitiva abolida da França em 1789 e da Inglaterra em 1837, no Brasil, tal prática perdurou até próximo do ano de 1888.

com outras regiões, sobre o qual o Estado Nacional irá surgir como mediador. No entanto, observa-se, que o capital desenvolve seu modo de reprodução com maior desenvoltura em determinada região brasileira, enquanto a Região Nordeste começa a apresentar traços de estagnação, demonstrando que o projeto político capitalista de desenvolvimento industrial, contemplou parcialmente a produção agrícola nordestina.

Verifica-se, portanto, que uma crise é estabelecida nas diferenciações regionais, e representam por fim, grupos diversos nas suas formações políticas de poder; por um lado teremos os barões do café e por outro, um Estado oligárquico, onde se constata claramente a questão regional, com uma construção sociocultural alicerçada num contexto de desenvolvimento do capital, que no particular nordestino, baseava-se na produção açucareira.

Nas disputas pelo poder, surgem os acordos que em geral visam o ganho e o acúmulo de riqueza, que ao longo de toda a história, vem beneficiando exatamente os grupos inseridos nesta disputa, o que gera uma forma brutal de violência, que é a violência material, ou melhor, a miséria, atingindo sobremaneira, a população recém liberta.

No Nordeste, esse cenário é agravado quando a região perde a disputa no projeto

nacional de reprodução do capital61, e como conseqüência, acirra-se ainda mais a miséria material.

Está evidente que em conjunto com a brutal apelação ao consumo desenvolvido pelo comércio capitalista e as derivações de suas relações, surgem campos sociais minados, que em nossa contemporaneidade são abastecidos por diversos elementos componentes da questão social, conduzindo uma massa humana para as prisões, estarrecendo a sociedade e o Estado. Comenta Nunes, (...) é com base no número acentuado de brasileiros, considerados

miseráveis, que o crime certamente evolui no país. (2005, p. 18)

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A reprodução abrange os valores, as ideologias e a ética, a fim de legitimar uma ordem posta. No entanto, o capital irá se reproduzir através das mediações que num cenário nacional; o nordeste perdeu sua hegemonia na disputa política e no jogo de interesse entre os Estados Nacionais que estabelecem no seu interior, os interesses patronais, latifundiários e partidários na disputa pelo poder,subsumindo, por muito tempo à disputa entre as classes, que se refere especificamente, à relação capital / trabalho.

Neste contexto, de forma emblemática, observa-se que se eram os negros escravos o maior público prisional, os negros livres continuaram a esboçar a maioria da população carcerária brasileira até a atualidade.

Nesta perspectiva, em 1830, promulga-se o código criminal do Império, com idéias iluministas e com inspiração nos preceitos de Beccaria, Bentham, Howard e Feuerbach. Ressaltamos, porém, que neste código, a prisão era denominada de pena de prisão com

trabalho e pena de prisão simples, levando em conta, o destaque dado ao trabalho, desde o

início das prisões brasileiras. Fato curioso encontraremos, estudando Carvalho Filho (2002)62, pois iremos constatar

que em Salvador, no ano de 1551, já havia uma prisão, como também um antigo cárcere do Rio de Janeiro, denominado de Aljube, que servia para punir os religiosos, cedido pela igreja católica em 1808, a fim de servir como prisão comum.

A relação da prisão e o trabalho dos presos podem ser vistas desde o surgimento dos primeiros estabelecimentos penais no mundo; além da denominação dada à prisão pelo código de 1830; no Estado de São Paulo, a inauguração da casa de correção com oficinas de trabalho em suas dependências, ocorreu por volta de 1852. Também no Código Penal de 1890, o preso era obrigado ao trabalho e para os menores de vinte e um anos, ocorria em unidades industriais.

No texto Vigiar e Punir, Foucault observa que,

(...) a prisão de Walnut Street, aberta em 1790, sob a influência direta dos meios quaker, retomava o modelo de Grand e de Gloucester. Trabalho obrigatório em oficinas, ocupação constante dos detentos, custeio das despesas da prisão com esse trabalho, mas também retribuição individual dos prisioneiros para assegurar sua reinserção moral e material no mundo estrito da economia; os condenados são então constantemente empregados em trabalhos produtivos para fazê-los suportar os gastos da prisão, para não deixá-los na inanição e para preparar alguns recursos importantes no momento em que cessar o cativeiro. (2003, p.102)

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Apesar da busca por penas mais brandas, influenciadas pelas várias correntes filosóficas mundiais, o cenário social brasileiro, responsável direto pela conjuntura prisional, após 1822, não demonstrava grandes progressos.

A luta por se estabelecer um regime de conceitos mais democráticos, e apesar das idéias libertadoras de Frei Caneca, José Bonifácio e outros, ocorreu o que Ianni (2004) chamou de conciliação pelo alto, pois o que prevaleceu foi o discurso da nobreza, que determinava as soluções dos problemas nacionais como a questão indígena, a questão agrária, o trabalho escravo e outras questões, através do poder moderador.

Este poder procurou desenvolver as prisões com a precípua característica de controle social, mitigando as penas cruéis, porém, determinando o trabalho em condições de total precariedade, uma vez que prevaleceu no cenário pós-independência, a continuidade de um modelo colonial, do autoritarismo e do escravismo.

No entanto, este modelo deparou-se com a crise oriunda de sua estrutura que mantinha o país mergulhado num anacronismo histórico, fato que favoreceu posteriormente a ascensão da burguesia, tanto que surgiu por dentro desse cenário monárquico escravista, a necessidade dessa burguesia buscar e se beneficiar com as necessárias mudanças desejadas por vários setores nacionais.

Contudo, no período em que as mudanças culturais, econômicas e políticas se efetivaram finalmente no país, mudanças que deveriam se fazer presentes em 1822, não foram capazes de retirar o Brasil de seu anacronismo em relação ao cenário mundial. O mundo acabava de entrar no capitalismo monopolístico. Segundo Ianni, (2004, p. 19) (...) ao fim do

século XIX, o Brasil ainda parecia viver no fim do século XVIII. As estruturas jurídicas- políticas e sociais tornaram-se cada vez mais pesadas. Revelaram-se heranças carregadas de anacronismo.

Com Ianni, op. cit., p. 20, sopesamos que (...) a legitimidade alcançada pelo regime

idéias,republicanas, socialistas, e outras surgiram no país entre os período de 1888 a 1889; o abolicionismo ganhava força e na disputa das novas idéias com o antigo modelo, a burguesia que se fazia representar pelos cafeicultores, canavieiros, teve seus interesses satisfeitos.

Esses interesses fundavam-se numa concepção de um modelo liberal para as políticas externas, enquanto que nas relações trabalhistas, prevalecia o patrimonialismo; modelo que segundo Ianni, (ibid. p.22,) traduzia-se (...) [N]um patrimonialismo que compreendia tanto o

patriarcalismo da casa-grande e do sobrado como a mais brutal violência contra os movimentos populares no campo e na cidade.

Diante desse quadro, para lidar autoritariamente com a população, a burguesia já se apropriando das instituições do Estado Nacional; estreita os laços com seus mecanismos coercitivos, buscando sempre inspirações internacionais. Por isso, é que a prisão mantém constantemente uma interseção com o poder, assegurando o temor às leis e regras, mesmo que estas se apresentem questionáveis.

É importante, ressaltarmos que não defendemos uma sociedade sem leis, contudo, o entendimento de que numa sociedade de classes, o aparato jurídico normativo prescinde do poder hegemônico para sua realização mesma, e que nossa sociedade determina como premissa a exploração de um homem sobre outro homem, conseqüentemente, isso nos leva a questionar, a validade e disposição para realização universal da justiça, igualdade e eqüidade, como se pretende nos discursos retóricos.

Após o enfoque apresentado a respeito da Região Nordestina, evidencia-se que sua formação ofereceu uma singular relação com os estabelecimentos prisionais na disputa pelo poder; uma vez que em seu desenvolvimento, apresentou uma reprodução do capitalismo que vinha se desenvolvendo no velho continente, e como tal, os surgimentos das desigualdades sociais foram se acirrando na medida em que na região, o capitalismo se desenvolvia.

Para gerir tamanha desigualdade, este desenvolvimento necessita do aparecimento de uma instrumentação técnica coercitiva, que determine pela imposição o controle social, neste

contexto encontra-se a prisão. Compreendendo assim, que nesta formação social econômica e histórica, as forças políticas da província, transbordaram uma ética voltada para a reprodução de desvalores do mundo do capital e nesse conjunto, necessitaram de mecanismos de equilíbrio, controle social e legitimidade.

As prisões, portanto, vem atender a demanda do controle social; estas instituições têm procurado aplicar um remédio que fica tatuado no corpo, mas que produz seus efeitos na alma63, a fim de garantir em conjunto com outras formas de controle social, a hegemonia dos princípios da ordem vigente.

Apesar de todo o esforço desde os iluministas, para que a pena seja algo mais humanitário, destacamos, entretanto, que em nossa contemporaneidade as prisões são ainda verdadeiras masmorras, imperando o medo e a dor. Apesar da diferença posta em relação às penas de martírio e suplício ocorridas com os códigos Afonsino, Manuelino e Filipino, e mediante a presença da população a fim de assistir e tomar como exemplo, com a pena privativa de liberdade, a prática da execução penal no interior das prisões, não tem trazido maiores tranqüilidades à sociedade, mesmo fora de seus olhos.

Isto porque, embora sem a visualização do ato punitivo, as prisões são entendidas no senso comum da população, como um verdadeiro inferno na terra, o que atende perfeitamente ao aspecto geral da pena e sua finalidade intimidativa.

Deste modo, a figura do Estado em seu poder executivo, apresenta-se como mediador entre a lei e o criminoso, onde a lei expressará os princípios e valores que norteiam a conduta dos homens nesse Estado, ou seja, o bem jurídico, que em última análise, se constitui a partir dos fundamentos axiológicos da sociedade, atribui ao Estado, o jus puniendi, contudo, esses valores poderão não representar a unanimidade, porém em sua vigência, sempre se apresentarão hegemônicos.

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Segundo Mably apud Foucault, 1987, p. 18. (...) que o castigo, se assim posso exprimir, fira mais a

Por sua vez, os projetos liberais que representam os interesses da classe burguesa e que desde sua implementação não possui um caráter social, mas sim particular, procurando estabelecer a subsunção do Estado para um fim privado, contribuem sobremaneira, para o acirramento deste cenário.

Neste contexto, o Estado não busca o bem comum, transformando-se num instrumento de mediação e imposição, através do convencimento ideológico, das leis e da coerção, para que se consiga níveis suportáveis de legitimidade e manutenção das elites no poder, como afirma Behring (2003, p.92), veremos que isto (...) é visto como meio de internalizar os

centros de decisões políticas e de institucionalizar o predomínio das elites dominantes.

Portanto, como já expusemos, é dessa maneira que as prisões vêm justamente atender às necessidades do Estado, de controle e manutenção do status quo.