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2.3 DO PONTO DE VISTA DA SINTAXE

2.3.1 As projeções de tempo e aspecto gramatical

Antes de chegarmos na definição de tempo e aspecto como categorias sintáticas, apresento uma noção geral sobre a sintaxe minimalista (um dos desdobramentos da sintaxe gerativa). Augusto (2007) explica que, no Programa

Minimalista, uma língua L faz interface com sistemas cognitivos – os perceptuais (sensórios) e articulatórios (motor), e os sistemas conceituais e intencionais, ou sistemas de pensamento –, aos quais ela deve fornecer algum tipo de informação.

Esse fornecimento de informações ocorre através de níveis de representação linguística, onde se constitui a interface entre L e os sistemas de desempenho. PF (do inglês Phonetic Form) é o nível de representação linguística que faz interface com o sistema articulatório-perceptual; e o LF (do inglês Logical Form) é o que faz interface com o sistema conceitual-intencional. Nesses níveis de interpretação, a informação disponibilizada deve ser interpretável (legível nesses níveis), de modo que PF interpreta traços fonológicos e LF interpreta traços semânticos.

Segundo a autora, nessa relação entre língua e sistemas de interface, se constitui o sistema computacional:

O sistema computacional pode ser visto, portanto, como um sistema que opera sobre determinadas propriedades (denominados traços) da gramática de uma língua que se encontram expressos (ou não) em sequências fonológicas, às quais se associa determinada interpretação semântica e que desencadeiam o estabelecimento de determinadas relações sintáticas.

(AUGUSTO, 2007, p. 635).

Esse sistema constrói elementos sintáticos a partir de itens que estão numa Numeração e de determinadas operações, entre as quais estão: Select, a partir da qual um item é selecionado da Numeração para ser incluído na derivação; Merge, que junta objetos sintáticos dando forma a outro objeto de outro tipo. Além disso, a autora inclui a definição de Spell-out que é quando, na derivação, se separa a informação a ser enviada às interfaces semântica e fonética.

Sobre os itens lexicais, Augusto (2007) afirma que eles se constituem de conjuntos de traços, que podem consistir em propriedades fonéticas e semânticas, e também em propriedades gramaticais, como gênero, número, entre outras.

Considerando que as informações disponibilizadas na interface devam ser legíveis para os sistemas, assume-se que os traços formais, esses associados a uma categoria, devam receber uma interpretação em LF. Existem traços que são intrínsecos aos itens e traços que são opcionais. Respectivamente, Augusto (2007.

p.636) exemplifica-os com o traço de número, que será adicionado no momento da seleção, e o traço de gênero, que é intrínseco ao nominal, ou seja, está armazenado em sua entrada lexical.

Nesse modelo, Augusto (2007, p.637) distingue, portanto, os aspectos pré-sintáticos que são os que dizem respeito a determinados traços que podem ser intrínsecos ou opcionais em relação a determinados itens funcionais ou lexicais; os traços sintáticos que são os que envolvem as operações do sistema computacional;

e os pós-sintáticos que estão relacionados aos padrões morfológicos.

Nessa perspectiva, a autora afirma que a aquisição de uma língua envolveria as etapas: (i) determinação de que traços são intrínsecos ou opcionais; (ii) a percepção de itens entre os quais pode haver relações de concordância ou não; (iii) a determinação de que movimentos influenciam na interpretabilidade ou não de traços; e (iv) a formação de paradigmas morfológicos, entre outras operações. Em se tratando de tempo e aspecto, a criança teria que reconhecer os traços dessas categorias, as relações de concordância, sua interpretação e morfologia correspondente. Antes de observarmos como os trabalhos nesse sentido se desenvolvem, vamos compreender como a sintaxe conceitua essas categorias.

A categoria de tempo recebeu reformulações dentro do Programa Minimalista. De um modo geral, pode-se considerar que o tempo gramatical é uma categoria funcional, que carrega traços como por exemplo [± past]. A ideia de uma projeção específica para o tempo aparece na sintaxe gerativa quando se propõe a divisão do núcleo INFP em TP (Tense Phrase) e AgrP (Agreement Phrase)23, este último inclui os traços de concordância (RADFORD, 1998, p. 225). Uma sentença como They have probably all given up smoking (Todos eles provavelmente desistiram de fumar) seria derivada da seguinte forma (RADFORD, 1998, p. 225):

FIGURA 2 – ESTRUTURA COM TP

FONTE: Radford (1998, p. 225).

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23 Pollock (1989) propõe inicialmente essa cisão do núcleo de flexão único INFP em TP e AgrP. Hoje a projeção AgrP não é mais considerada.

Nesse caso, o TP passa pela operação de merge com AGRP e assim o pronome they ocupa o spec de AgrP, conforme a estrutura proposta por Radford (1998, p.227):

FIGURA 3 – ESTRUTURA COM TP E AGRP

FONTE: Radford (1998, p. 227).

As explicações sobre como as projeções de tempo e concordância se relacionam variam entre diferentes autores. Não é objetivo dessa tese entrar nessa discussão. A questão aqui é como essa categoria de tempo, agora como projeção funcional, entra nos trabalhos de aquisição. Antes de chegar lá, vamos trazer o aspecto para a estrutura. Segundo Lessa (2015), Bok-Bennema (2001 apud Lessa p.73) propõe as projeções TP e AspP, descartando a projeção AgrP. AspP faria checagem de informações semânticas, como traços [± perf] especificados por operadores aspectuais PERF.

Como exemplo de uma representação possível em que se distinguem essas projeções, Gelderen (2017, p.105) apresenta uma representação em que é possível visualizar as projeções de Tempo (TP) e de aspecto, nomeada aqui de ProgrP, dado o progressivo. Essa estrutura mostra que o auxiliar be está numa posição abaixo de T para indicar a formação do aspecto progressivo e depois move para T para receber os traços de tempo. Nessa representação, TP também é responsável pelos traços de concordância do sujeito, por isso que o they sobe para o spec do TP.

FIGURA 4 – ESTRUTURA COM TP E PROGRP

FONTE: Gelderen (2017, p. 105).

As propostas com uma projeção para o aspecto gramatical têm importantes desdobramentos para a definição e aquisição do aspecto gramatical. Segundo Guéron e Lecarme (2004), é esse aspecto que relaciona eventos ao tempo, ou seja, media o mapeamento do VP para o T. Dessa forma, ele localiza um evento em um ponto do tempo dentro de um intervalo temporal (imperfectividade) ou no limite de um intervalo temporal (perfectividade). Assim se diferencia sintaticamente o aspecto gramatical do aspecto lexical ou aktionsart, uma vez que são calculados em diferentes fases sintáticas. Este último descreve a estrutura temporal interna do evento, e é calculado no VP/vP. O AspP está mais alto na estrutura. Nesse quadro, a telicidade está relacionada, portanto, ao evento (VP) e a perfectividade ao intervalo de tempo (TP). Nos dois casos se está descrevendo o evento no seu limite, seja por interpretação composicional do VP (telicidade), seja por predicação de um limite temporal (perfectividade) (GUÉRON E LECARME, 2004, p.9).

Paralelamente às propostas dentro do Programa Minimalista, a sintaxe cartográfica apresenta uma estrutura em que as projeções funcionais, que incluem tempo, aspecto e modo, estão em uma ordem hierárquica. Cinque (1999, p. 106) propõe essa hierarquia conforme a posição ocupada por determinados advérbios, resultando numa estrutura como (13):

13) [frankly Moodspeech act [fortunately Moodevaluative [allegedly Moodevidential

[probably Modepistemic [once T(Past) [ then T(Future) [ perhaps

Moodirrealis [ necessarily Modnecessity [possibly Modpossibility [usually Asphabitual [again Asprepetitive(I) [often Aspfrequentative(I) [intentionally Modvolitional [quickly Aspcelelatlve(I) [already T(Anterior) [no longer Aspterminative [still Aspcontinuative [always AsPperfect(?) [just Aspretrospective [soon Aspproximative [briefly Aspdurative [characteristically(?) Aspgeneric/progressive

[almost Aspprospectlve [completely AspSgCompletive(I) [tutto AspPICompletive [ well Voice [fast/early Aspcelerative(II) [again Asprepetitive(II) [often Aspfrequentative(II)

[completely AspSgCompletive(II)

Nessa hierarquia estão dispostas as categorias e os advérbios a elas associadas. Para chegar à ordem estabelecida, Cinque (1999) analisou a posição dos advérbios em diferentes línguas. O autor mostra, por exemplo, que no inglês os argumentos mais altos na estrutura da sentença estão ordenados do mesmo modo que nas línguas românicas. Os advérbios relacionados ao ato de fala, como honestly (honestamente) precedem os avaliativos, como unfortunately (infelizmente), por isso a sentença Honestly I am unfortunately unable to help you (Honestamente, eu infelizmente sou incapaz de ajudá-lo) é possível, enquanto que *Unfortunately I am honestly unable to help you (Infelizmente, eu sou honestamente incapaz de ajudá-lo) não é. Os advérbios avaliativos, como fortunately (felizmente) precedem os evidenciais, como evidently (evidentemente), por isso a sentença Fortunately, he had evidently had his own opinion of the matter (Felizmente, ele tinha evidentemente sua própria opinião sobre o assunto) é gramatical e *Evidently he had fortunately had his own opinion of the matter (*Evidentemente, ele tinha felizmente sua própria opinião sobre o assunto) não é. Do mesmo modo, os advérbios evidenciais, como clearly (claramente) precedem os epistêmicos, como probably (provalmente), o que se observa na gramaticalidade da sentença Clearly John probably will quickly learn French perfectly (Claramente John provavelmente vai aprender rapidamente francês perfeitamente) e na agramaticalidade de *Probably John clearly will quickly learn French perfectly (Provavelmente, João claramente vai aprender rapidamente francês perfeitamente).

A posição das categorias temporais também é dada em relação aos advérbios. Por exemplo, os advérbios epistêmicos precedem os advérbios com referência ao tempo passado, como once (uma vez, outrora), o que se observa na sentença Probably he once had a better opinion of us (Provavelmente, ele uma vez

tinha uma opinião melhor sobre nós). E os advérbios com referência ao tempo passado, por sua vez, precederiam advérbios como perhaps (talvez) – que está associado na hierarquia ao Modo irrealis –, como na sentença He was then perhaps at home (Ele estava então talvez em casa) (CINQUE, 1999, p.33).

Cinque (1999, p.141) considera que as projeções funcionais dessa hierarquia são fixas, bem como que ela aparentemente não varia entre as línguas.

Segundo o próprio autor, por ser universal, é fácil para a criança adquirir. Ela precisaria somente localizar nos lugares que a estrutura disponibiliza o material lexical e morfológico fornecido pela sua própria língua materna (CINQUE, 1999, p.

107).

Considerando, portanto, a sintaxe gerativa, temos, em linha gerais, de um lado propostas dentro do programa minimalista que consideram tempo e aspecto gramatical projeções funcionais, de modo que o aspecto faz o mapeamento entre o evento e o tempo; do outro lado, temos uma hierarquia de projeções funcionais que divide e ordena os diferentes tempos, aspectos e modos. Em se tratando de aquisição, a primeira proposta implica na questão se a criança já nasce com a categoria de tempo ou se a adquire durante o processo de aquisição, já a segunda, uma vez considerada universal, implica na verificação do reconhecimento dessas projeções pela criança nessa ordem dada.

Na seção seguinte veremos exemplos de trabalhos de aquisição que discutem essas e outras propostas sintáticas.