• Nenhum resultado encontrado

AS PSICOSES

No documento FERNANDA MARA DA SILVA LIMA (páginas 16-53)

Lacan desenvolveu o conceito de foraclusão para definir a estrutura psicótica

enquanto tal a partir da noção de Verwerfung de Freud, afirmando que a ―Verwerfung

será tida por nós, portanto, como foraclusão do significante‖ (LACAN,

1955-1956b/1998, p. 564). Retomaremos o conceito freudiano para, em seguida, apresentar o

conceito de Nome-do-Pai, enquanto significante universal, e os avanços teóricos que

culminaram em sua pluralização.

Acompanharemos suas modificações circunscrevendo em três tempos o ensino de

Lacan, enquadre este proposto por Jacques Alain-Miller (2003a), que situa o ensino de

Lacan em três momentos. O primeiro ensino, como foi então nomeado, se delineia no

período que vai da década de 50 ao início da década de 60, cuja ênfase recai sobre o

estruturalismo. O panorama da década de 50 caracteriza-se pelo paradigma do

significante. No segundo ensino, verificaremos os desdobramentos da formalização do

Grafo de Desejo com a incidência da barra sobre o Outro, cuja consequência é a

formulação do conceito de objeto a. Já o terceiro ensino, também designado como

último ensino, tem início a partir das contribuições de O Seminário 20: Mais, ainda

(1972-3/1998) e deste período destaca-se a leitura da obra de James Joyce com a

formalização da pluralização dos Nomes-do-Pai e a topologia do nó borromeano. ―O

último ensino de Lacan é um ensino da psicanálise sem o Nome-do-Pai, no qual o

Nome-do-Pai é reabsorvido no múltiplo‖ (MILLER, 2003a, p. 18). A partir da topologia

do nó borromeano, o quarto termo que trançará os três registros será o sinthoma. E

assim o Nome-do-Pai foi reduzido a um ―sintoma‖, um mero ―utensílio‖ (MILLER,

2005a, p. 8).

Se na década de 50 a psicose era definida por apresentar um furo no simbólico, no

final do ensino de Lacan o furo se apresenta na própria estrutura de linguagem. De

modo que a inconsistência do Outro se coloca para todos, neuróticos, psicóticos e

perversos. Deste modo, a ênfase recai sobre a resposta de cada um frente à

inconsistência do Outro. Com o advento do objeto a, o conceito de Nome-do-Pai sofre

reformulação e passa por uma pluralização, já que ―a inconsistência do Outro já não

permite conceber o Pai como universal‖ (MALEVAL, 2002, p. 97).

A questão que ganha relevo é aquela com a qual todo falante terá que se haver e

diz respeito à inconsistência do campo do Outro. A resposta que cada um dará à

inconsistência estrutural do campo do Outro marcará a diferença entre neurose e

psicose.

Se a ênfase recai sobre o trabalho do sujeito de produzir uma regulação e uma

localização do gozo, então devemos nos reportar a Lacan (1968/1980 & 1967/2003),

que afirma que toda formação humana tem por essência barrar o gozo. Com isso,

podemos entender que as ricas fenomenologias que encontramos na clínica da psicose

referem-se às tentativas de criar mediações e balizamentos para ordenar a existência.

Recalcati (2003) e Maleval (2002) enfatizam que, na psicose, não se trata de um

defeito no simbólico, mas antes da carência de uma operação que resulte numa

regulação de gozo. Esta formulação abre para o sujeito um campo de possibilidades

cunhado pela suplência.

Desta forma, afirmamos que cada um inventa uma solução, uma suplência ou

mesmo um sinthoma. Nossa proposta é valorizar as construções singulares inventadas

pelo sujeito, levando em conta seu trabalho em tratar o gozo de modo a cifrá-lo.

Na seção intitulada ―o psicótico e o Outro‖, retomaremos a proposição de que a

forma como cada um irá responder à inconsistência do Outro é o que marcará a

diferença entre neurose e psicose. Abordaremos as operações lógicas de constituição do

sujeito para localizar a especificidade inerente à psicose, já que o objeto não sofre

extração. Disso resulta uma configuração de um Outro pleno e gozador. Seria, portanto,

um paradoxo apresentar a tese de um Outro pleno e gozador ao mesmo temo em que

defendemos a proposição da inconsistência estrutural do Outro? A questão que se

coloca é quanto à possibilidade de se inscrever ou não a simbolização primordial. A não

extração do objeto é correlata à não simbolização primordial, de modo que, ―se não há

simbolização primordial, o Outro se apresenta como um Outro maciço‖ (RIBEIRO,

2005, p. 40).

1.1 – Algumas proposições acerca da psicose

No encontro com os sujeitos psicóticos, testemunhamos uma forma particular de

estar no mundo. João se machuca quando uma pessoa dele se aproxima e lhe dirige uma

fala. Marcus se morde de tal modo que chega a sangrar quando percebe meu olhar

dirigido a ele. Vinicius mantém com a alimentação uma posição de radicalidade em que

nada aceita, chegando a ficar sem se alimentar ou ingerindo apenas alimentos líquidos e

nada mais. Pode acontecer de se constiparem sem que isso lhes cause dor ou podem

manusear as fezes de forma considerada socialmente inaceitável.

Estes são alguns dos fragmentos do testemunho que estes sujeitos nos dão de sua

peculiar relação com os objetos (a voz, o olhar, os alimentos e os excrementos), com o

próprio corpo e com a linguagem (BAÏO, 1993).

Os sujeitos psicóticos podem apresentar algumas características tais como um

rechaço ou alheamento em relação ao outro na medida em que não suportam a voz e o

olhardo Outro; ausência ou exagero na alimentação; insensibilidade à dor e ausência de

doenças; repetição da fala do outro exatamente como foi proferida, mantendo a

entonação e inclusive o sotaque; a inversão da mensagem não opera e falam de si na

terceira pessoa; verifica-se também uma ausência de enunciação.

Estas situações foram apresentadas a partir da experiência clínica da autora desta

tese com psicóticos. Buscamos destacar a particular relação dos sujeitos psicóticos com

os objetos (a voz, o olhar, os alimentos e os excrementos), com o próprio corpo e com a

linguagem, seguindo as coordenadas de Virginio Baïo (1993). O que aqui nos interessa

é, desde já, apontar para a particular relação do sujeito psicótico com a voz, lembrando

que nos dedicaremos ao tema da voz no capítulo 2.

Queremos enfatizar que há uma particularidade inerente ao funcionamento

psicótico e que, a partir da psicanálise, é possível apontar para o que há de enigmático

nestes sujeitos. Tomar a psicose como enigma é uma direção ética da psicanálise que

afasta qualquer atribuição de déficit ou incapacidade para estes sujeitos.

Podemos, a partir do ensino de Lacan, afirmar que toda manifestação humana é

uma posição de sujeito frente ao Outro. ―Toda formação humana tem, por essência, e

não por acaso, de refrear o gozo‖ (LACAN, 1967/2003, p. 32). É a partir da constituição

do sujeito que nos deparamos com o estatuto do Outro. E, assim, somos levados à

interrogação acerca do estatuto do Outro na psicose, enfatizando que estamos no campo

da causação do sujeito. É com Freud e Lacan que aprendemos que o sujeito não está

dado. O sujeito se constitui a partir de um Outro. Mas a particularidade inerente à

psicose leva Jacques-Alain Miller a afirmar que ―a psicose é questão de sujeito – pois

ela assim mesmo nos conduz aos confins de onde a questão do sujeito se coloca‖

(MILLER, 1996a, p. 156).

―No Projeto para uma psicologia científica‖, Freud (1895/1996) explica que o

recém-nascido, diante de uma situação de urgência, como a fome, por exemplo, buscaria

o alívio da tensão por meio de uma descarga que consistiria no grito ou no choro. Para

Freud, o bebê necessita de uma ―ajuda alheia‖ (p. 370) para sobreviver. É preciso que

uma ―pessoa experiente‖ (p. 370) realize uma ―ação específica‖ (p. 370) que produza

modificações no ambiente, o que, sozinho, o bebê não consegue realizar. O bebê

humano, diferente dos animais, vive uma situação de desamparo original. O grito seria,

portanto, uma forma de expressão deste desamparo.

O desamparo com o qual o bebê se depara não é apenas quanto a sua

sobrevivência física. Na medida em que o grito é tomado como apelo, para além do

registro da necessidade, entra em jogo o circuito da demanda, cujo contraponto é a

localização de um lugar para o sujeito no campo do Outro. Além da oferta do alimento,

também se oferecem significantes. Por isso é o Outro que introduz o infans no campo

simbólico.

Quando a mãe responde aos gritos do bebê, ela os reconhece,

constituindo-os como demanda, mas o que é mais importante é que os

interpreta no plano do desejo da criança de estar perto dela, desejo de

tomar-lhe algo, desejo de agredi-la, pouco importa. O que é certo é

que, por sua resposta, o Outro dar a dimensão de desejo ao grito da

necessidade, ao investir na criança, é de início resultado de uma

interpretação subjetiva, função do desejo materno, de seu próprio

fantasma (LACAN, 1961-62, inédito).

A função do Desejo do Outro é exercida pelo movimento interpretativo que

inscreve o grito no circuito da demanda, localizando o bebê num determinado lugar no

campo do Outro. Dito de outro modo, para que o Outro primordial, muitas vezes

encarnado pela mãe, transforme o grito em apelo, é preciso que esteja ―atento ao estado

de aflição da criança‖ (p. 370), conforme nos diz Freud (1895/1996). Esta atenção

específica endereçada ao bebê aponta para seu lugar na economia libidinal dos pais.

Freud, em ―Sobre o Narcisismo‖ (1914/1996), aborda o tema do lugar do bebê na

economia libidinal dos pais como ―sua majestade: o bebê‖ (p. 98), sendo, portanto,

desse lugar que recebe todos os investimentos libidinais. E será esse lugar que trará

consequências para a constituição psíquica. Encontraremos alguma aproximação dessa

ideia freudiana nos escritos de Lacan: ―(...) A frase foi começada antes dele, foi

começada por seus pais (...)‖. (LACAN, 1957-1958, p. 192). O que quer dizer que o

bebê, mesmo antes de nascer, já é falado por seus pais, ou seja, já é investido

libidinalmente.

Segundo Lacan, o Outro é o ―lugar da cadeia significante que comanda tudo o que

vai poder presentificar-se do sujeito‖ (LACAN, 1964/1985, p. 193), o que significa nos

reportarmos ao terreno do tesouro dos significantes. A história familiar, a cultura, as

expectativas, as esperanças, as identificações, são marcas prévias ao próprio nascimento

do bebê. É o mesmo que nos remetermos ao lugar de um bebê na fantasia e no desejo de

seus pais.

Seguimos com Freud para afirmar que, para a mulher, o desejo de ter um bebê

vem em substituição ao desejo pelo falo que lhe falta. ―Se a mulher encontra na criança

uma satisfação é, muito precisamente, na medida em que encontra nesta algo que

atenua, mais ou menos bem, sua necessidade de falo, algo que o satura‖ (LACAN,

1956-57/1995, p. 71).

Na relação entre a criança e a mãe, Lacan (1956-57/1995) introduzirá um terceiro

termo, o falo, para afirmar que se trata de uma tríade imaginária. O falo em sua função

imaginária é designado como um objeto que viria a preencher a mulher, já que este lhe

falta.

Se apontamos para o que se passa do lado da mulher no que concerne ao seu

desejo de ter um filho, devemos também nos reportar à criança. E do lado da criança, o

que se passa?

A questão para a criança é sempre dirigida ao Desejo da Mãe. Mas o que vem a

ser o Desejo da Mãe? ―Esta mãe insaciável, insatisfeita, em torno de quem se constrói

toda a escalada da criança no caminho do narcisismo, é alguém real, ela está ali e, como

todos os seres insaciados, ela procura o que devorar, quaerens quem devoret (...)‖

(LACAN, 1956-1957, p. 71).

Qual a posição para a criança diante do insaciável Desejo da Mãe? Para avançar

na resposta a esta pergunta, devemos demonstrar como Lacan, na década de 50

(1956-1957, p. 359), situa a estruturação do sujeito em dois tempos.

No primeiro momento, a criança se vê assujeitada à lei da mãe, que é caprichosa e

insana. A onipotência da mãe se coloca diante de um bebê desamparado e, portanto,

dependente, ainda que possamos afirmar que a mãe está inscrita no campo simbólico. É

um momento em que tudo que o bebê precisa é mediado por outra pessoa. Num

momento posterior, o significante Nome-do-Pai colocará barra no significante do

Desejo da Mãe. Com a inscrição do Nome-do-Pai, significante da Lei, no campo do

Outro, o sujeito não mais fica submetido à lei insana da mãe.

Se, em um primeiro tempo, a criança está totalmente entregue ao Outro sem lei,

no segundo tempo opera a inscrição do Nome-do-Pai, que produz barra no gozo

materno, instaurando uma ordenação na cadeia de significantes.

O pai fornece um sentido para o enigma do Desejo da Mãe. A metáfora paterna

produz a significação fálica que assegura ao neurótico uma possível resposta ao

enigmático Desejo do Outro. É assim que o neurótico constrói um fantasma que o situa

frente ao Outro. Trata-se da localização, de um lugar no campo do Outro. O

Nome-do-Pai nomeará e ordenará o Desejo da Mãe, rompendo com o infinito deslizamento

metonímico, pois circunscreve um lugar para o sujeito no campo do Outro, e é por isso

que o situa diante da enigmática questão sobre o Desejo do Outro.

(...) O complexo de Édipo quer dizer que a relação imaginária,

conflituosa, incestuosa nela mesma está destinada ao conflito e à

ruína. Para que o ser humano possa estabelecer a relação mais natural,

aquela do macho com a fêmea, é preciso que intervenha um terceiro

(...). Não é demais dizer – é preciso aí uma lei, uma cadeia, uma

ordem simbólica, a intervenção da ordem da palavra, isto é, do pai.

Não o pai natural, mas do que se chama o pai. A ordem que impede a

colisão e o rebentar da situação no conjunto está fundada na existência

desse nome do pai (LACAN, 1955-1956, p. 114).

Lacan insere o campo simbólico nesta relação imaginária edipiana. O

Nome-do-Pai opera como uma ―instância ‗pacificadora‘ das armadilhas do imaginário‖

(MALEVAL, 2002, p. 76). É preciso fazer incidir um terceiro no conflito imaginário

edipiano, e é assim que situamos a função do pai enquanto intervenção simbólica. Para

Quinet, o complexo do Édipo consiste numa ―ficção do nosso comprometimento

simbólico‖ (QUINET, 2000, p. 9).

O pai, enquanto função, inscreve a lei com a metáfora paterna, a partir do Édipo.

Trata-se ―de uma única e mesma coisa. Não existe a questão do Édipo quando não

existe o pai, e, inversamente, falar do Édipo é introduzir como essencial a função do

Pai‖ (LACAN, 1957-1958, p. 171).

Aqui vale a pena destacar que Lacan retorna a Freud para extrair o que há de

essencial e estruturante na teoria do Édipo, tendo em vista sua substituição pela

metáfora paterna.

Lacan afirma que a função paterna é, para o sujeito, ―da ordem de uma

experiência metafórica‖ (LACAN, 1956-1957/1995, p. 387). O Nome-do-Pai é o

significante que vem substituir outro significante, o Desejo da Mãe, e o que resulta

desta operação metafórica é a significação fálica. ―(...) é na qualidade de significante

capaz de dar sentido ao Desejo da Mãe que eu poderia situar o Nome-do-Pai‖ (LACAN,

1971b, inédito).

No período do ensino de Lacan situado na década de 50, o Nome-do-Pai

encontra-se restrito na singularidade de um único significante cuja função ―é fundamentalmente

metafórica, a metáfora paterna é a interpretação que outorga significação fálica ao

desejo materno‖ (GOLDENBERG, 2006, p. 59).

A inscrição do significante do Nome-do-Pai enquanto ordenador do mundo em

sua dimensão significante oferece coordenadas simbólicas para o sujeito se posicionar

na existência e na partilha entre os sexos. A missão paterna ―permite ordenar um

universo de sentido sobre o qual se ordena o mundo das coisas, instaurando-se assim

vínculos entre significante e significado‖ (MALEVAL, 2002, p. 76).

O significante paterno assegura a ordem simbólica na medida em que promove a

articulação entre significante e significado. Para tratar deste tema, Lacan (1955-1956a)

se refere ao ponto de basta e, aqui, também vale a pena citar Calligaris (1989), que nos

oferece a imagem de ponto de ancoragem. ―A missão do pai é ensinar a comunicação,

quer dizer, elucubrar uma linguagem, introduzir uma rotina que faça coincidir o

significante e o significado‖ (MILLER, 2005b, p. 24).

A função do pai consiste em promover uma articulação de ordem simbólica de

modo a circunscrever o gozo, impedindo seu transbordamento. ―O Nome-do-Pai, no

primeiro ensino de Lacan, é o significante por excelência que produz um efeito de

sentido real. É o nome do significante que dá um sentido ao gozado‖ (MILLER, 2003a,

p. 19). Neste período do ensino de Lacan, o gozo se inscreve submetido ao poder

simbólico, que, aliás, o mortifica (SOLANO-SOAREZ, 2006, p. 67).

Podemos afirmar que a inscrição do Nome-do-Pai no campo do Outro é, portanto,

uma instância pacificadora, na medida em que protegeria o sujeito neurótico de toda a

sorte da rica fenomenologia que acossa os psicóticos. É neste momento teórico, na

década de 50, que Lacan formula com precisão a teoria da causalidade significante da

psicose. Trata-se da não simbolização de um significante primordial, o Nome-do-Pai.

1.2 – A psicose e a foraclusão do Nome-do-Pai

Para tratar do que se passa na psicose, Lacan cunhou o termo foraclusão, cuja

filiação é do campo jurídico. Significa que algo prescreve, caduca, quer dizer, perde a

validade, por não ocorrer dentre dos prazos legais. ―O termo foraclusão é de uso

corrente no vocabulário jurídico procedimental e significa a caducidade de um direito

não exercido nos prazos prescritos‖ (MALEVAl, 2002, p. 61). Trata-se, portanto, da

perda de um prazo para exercer um direito num processo jurídico. Quinet (2000)

afirmará que ―a foraclusão, portanto, remete à noção da lei e de sua abolição‖

(QUINET, 2000, p. 15).

Segundo Soler (1991), ―a foraclusão não é um fenômeno. A foraclusão não faz

parte do que se observa: é uma hipótese causal‖ (SOLER, 1991, p. 109). Da foraclusão

podemos apenas testemunhar seus efeitos, os quais comparecem no campo clínico da

psicose.

Estamos de posse das coordenadas teóricas a partir das quais Lacan situa o campo

específico da psicose. A psicose será definida, neste momento do ensino de Lacan, por

apresentar uma falha simbólica, sendo esta marca o que a diferencia da neurose.

É num acidente desse registro e do que nele se realiza, a saber, na

foraclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro, e no fracasso da

metáfora paterna, que apontamos a falha que confere à psicose sua

condição essencial, com a estrutura que a separa da neurose (LACAN,

1955-1956b/1998, p. 582).

Lacan formaliza o conceito de foraclusão do Nome-do-Pai como o que

caracterizaria a estrutura psicótica a partir do conceito freudiano Verwerfung, como

―aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora‖ (FREUD, 1975 [1911], p. 95).

Para esta afirmativa freudiana, encontramos correspondência em Lacan na seguinte

formulação: ―O que é rejeitado na ordem simbólica retorna no real‖ (LACAN,

1955-56/1985, p. 22).

A Verwerfung será tida por nós, portanto, como foraclusão do

significante. No ponto em que, veremos de que maneira, é chamado o

Nome-do-Pai, pode pois responder no Outro um puro e simples furo, o

qual, pela carência do efeito metafórico, provocará um furo

correspondente no lugar da significação fálica (LACAN,

1955-1956b/1998, p. 564).

A missão do pai em promover a articulação simbólica não se efetiva de modo a

não assegurar a vinculação entre significante e significado devido a não inscrição da

metáfora paterna. Estamos nos remetendo ao campo simbólico, o Nome-do-Pai

foracluído ―designa uma carência do significante que assegura a consistência do

discurso do sujeito‖ (MALEVAL, 2002, p. 18). Pela ausência da significação fálica,

estabelece um furo2 no significado cujo efeito se faz sentir com gozo desenfreado. Com

o início da emergência do significante no real e uma desintegração do imaginário,

tem-se toda a sorte de fenômenos que acossam os psicóticos devido à foraclusão do

significante que promoveria o ponto de ancoragem na existência do sujeito. ―É a falta

do Nome-do-Pai nesse lugar que, pelo furo que abre no significado, dá início à cascata

de remanejamentos do significante de onde provém o desastre crescente do imaginário‖

(Lacan, 1955-6b/1998, p. 584).

A Verwerfung freudiana foi cunhada a partir da análise do ―Homem dos Lobos‖

(1969 [1918[1914]]) quando da apresentação de um episódio de alucinação. Freud, no

seu texto ―História de uma neurose infantil‖, cita na íntegra o relato do próprio paciente.

Quando eu tinha cinco anos, estava brincando no jardim perto da

babá, fazendo cortes com meu canivete na casca de uma das nogueiras

que aparecem em meu sonho também. De repente, para meu

inexprimível terror, notei ter cortado fora o dedo mínimo da mão

(direita ou esquerda?), de modo que ele se achava dependurado, preso

apenas pela pele. Não senti dor, mas um grande medo. Não me atrevi

a dizer nada à babá, que se encontrava a apenas alguns passos de

distância, mas deixei-me cair sobre o assento mais próximo e lá fiquei

sentado, incapaz de dirigir outro olhar ao meu dedo. Por fim, me

acalmei, olhei para ele e vi que estava inteiramente ileso (Apud

FREUD, 1969 [1918 [1914]] p. 93).

Foi na infância que o paciente teve a alucinação de seu dedo decepado com um

canivete. Diante deste acontecimento, ficou paralisado, sentou-se no banco e nada

conseguiu falar a respeito, nem olhar para o dedo. Nada foi dito no momento do fato

2

Na década de 50, a noção de furo remete ao desencadeamento da psicose. No entanto, na década de 70,

este termo, furo, estará atrelado à condição estrutural do simbólico.

nem depois dele. Houve uma impossibilidade de qualquer coisa dizer em uma condição

No documento FERNANDA MARA DA SILVA LIMA (páginas 16-53)

Documentos relacionados