• Nenhum resultado encontrado

As quatro regras e os três tipos de existência

No documento Download/Open (páginas 42-45)

1.1 DESCARTES, EXPOENTE DO DUALISMO E RACIONALISMO

1.1.3 As concepções de Descartes

1.1.3.2 As quatro regras e os três tipos de existência

Em seu “Discurso do Método”, Descartes apresenta quatro regras que visualizará constante e firmemente nos estudos que realizará durante sua vida. Assim, acredita que estando fundamentado nelas e seguindo-as rigorosamente, não há a possibilidade de existir no Universo problema algum que não se encaixe e possa ser desvendado, resolvido ou explicado racionalmente com este método.

Os quatro preceitos que o filósofo considera essenciais para obter uma realidade pura são uma seqüência de razões que, apesar de “simples e fáceis” (como o próprio autor as denomina) servem, segundo ele, para demonstrar situações, mesmo que estas sejam complexas e difíceis. Estes preceitos são tomados da sintetização que o filósofo faz das atitudes e pelo meio que os geômetras do seu tempo se valem para averiguar e ratificar situações que envolvem as matemáticas, a álgebra e a geometria (ALQUIÉ, 1986).

Há que notar que se bem Descartes elogia as matemáticas pela capacidade de traduzir razões em conhecimentos verídicos, por outro lado também demonstra não se encontrar plenamente satisfeito com o uso restrito, unicamente da área matemática, que se lhes dava. Relembrando o tempo em que ainda estava no Colégio, afirma que as admirava:

[...] pela exatidão e a evidência dos seus raciocínios, mas não

entendia ainda qual sua real utilidade e, acreditando que apenas servissem para artes mecânicas, admirava-me de que, sendo as

suas bases tão sólidas, tão firmes, nada de mais elevado se tivesse

sobre elas edificado (DESCARTES, 1978, p.20).

KOYRÉ, avançando neste tema, traz a idéia de que no pensamento de Descartes será “necessário, antes de mais, reformar a própria matemática generalizando os seus métodos, ou se preferir, apreender a própria essência do raciocínio matemático” (1992, p.37). O que encantava, portanto, o filósofo eram os fundamentos, a essência matemática, e isto ele passou a traduzir nas regras que compõem o seu método na obra “O Discurso do Método”, como mencionado anteriormente. Desta forma, ele se propõe a engrandecer a capacidade do raciocínio matemático, permitindo-lhe um alcance maior que o que lhe era outorgado até então.

É isso que Descartes faz: passa a generalizar estes princípios sobremaneira, a ponto de defender que podem ser aplicados a qualquer ciência, problema ou tema que possa surgir ou que se deseje investigar. É desta maneira, fundamentado sobre estes quatro princípios norteadores, que transitam seus pensamentos.

Os quatro preceitos que seguem foram retirados do “Discurso do Método” (DESCARTES, 1978, p. 40). Eles podem ser resumidos em:

1) EVIDÊNCIA

[...] jamais aceitar coisa alguma que eu não conhecesse à evidência

como tal, quer dizer, em evitar, cuidadosamente, a precipitação e a

prevenção, incluindo apenas nos meus juízos aquilo que se

mostrasse de modo tão claro e distinto a meu espírito que não

subsistisse dúvida alguma;

2) ANÁLISE, que constava em “dividir cada dificuldade a ser examinada em tantas partes quanto possível é necessário para resolvê-las”;

3) SÍNTESE

[...] pôr ordem em meus pensamentos, começando pelos assuntos

mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para atingir,

paulatinamente, gradativamente, o conhecimento dos mais complexos, e supondo ainda uma ordem entre os que não se

precedem normalmente uns aos outros;

4) REMEMORAÇÃO, que era “fazer, para cada caso, enumerações tão exatas e revisões tão gerais que estivesse certo de não ter esquecido nada”.

Assim, seguindo-as, Descartes chega à conclusão e passa a defender que tudo o que faz parte do Universo pode ser classificado em três tipos de substância. Divide o Universo/mundo em Deus, res cogitans e res extensa. Para os três tipos, ele cria razões e provas que comprovam sua existência. Como já foi referido anteriormente, a hierarquia entre os elementos é ponto constante no pensamento do filósofo e é por isso que também passa a fazer referência a relações de hierarquização entre os três.

Na leitura que o filósofo faz do Universo, Deus, substância primária, infinita, perfeita e que independe de qualquer outra causa para existir, ocupa o lugar supremo na hierarquia. A res cogitans, expressão latina que é válida para designar a “coisa pensante” (que recebe denominações como alma racional, mente, intelecto, pensamento e razão, entre outros) é a intermediária nesta escala hierárquica. Fechando esta ordem, em último lugar, encontra-se a res extensa, expressão utilizada para denominar a extensão, a matéria, o corpo.

Para chegar a esta divisão, na qual todas as coisas do Universo estão encaixadas em uma destas categorias, ele parte da premissa que através dos sentidos não pode existir um conhecimento verdadeiro e que unicamente seguindo o caminho racional é que a verdade pode ser realmente alcançada. Com isto, ele sugere uma incerteza inicial e, a partir dela, deduz que: se consegue realizar este movimento racional de pensar, cogitar, duvidar, é porque existe.

Esta cadeia de razões o leva a formular sua clássica e reconhecida frase: “Penso, logo existo” (DESCARTES, 1978).

Por princípio afirma que a res extensa (o corpo, a matéria) não pode realizar este ato de cogitar, de pensar, de duvidar. Apoiado nisso, passa a certificar que como pensa – verdade absoluta, demonstrada e que não pode ser contestada – ele existe além da res extensa, é res cogitans. Passa a aprofundar sua idéia, potencializando as diferenças e aumentando a distância entre uma e outra, culminando na total divisão entre as duas. Após exercícios dedutivos metódicos e racionais, obedecendo às regras anteriormente formuladas, declara-se ser:

[...] uma substância cuja essência ou natureza reside unicamente em

pensar e que, para que exista, não necessita de lugar algum nem

depende de nada material, de modo que eu, isto é, a alma, pela qual

sou o que sou, é totalmente diversa do corpo e mesmo mais fácil de

ser reconhecida do que este e, ainda que o corpo não existisse, ela

não deixaria de ser tudo o que é (DESCARTES, 1978, p. 67).

Como duvida (pois é res cogitans, ser pensante) e a dúvida encontra-se, segundo ele, num escalão abaixo do conhecimento, passa a questionar-se, ainda seguindo o mesmo raciocínio, de onde teria surgido esta idéia de existir a perfeição total. É desta forma que chega à idéia da existência de Deus, pois através de sua existência consegue explicar a origem de sua idéia de algo mais perfeito, já que esta não poderia ter se originado, comprovadamente por seu raciocínio, do nada ou de

uma coisa igualmente imperfeita a ele. Estas duas hipóteses são rechaçadas racionalmente através de seu método. Finalizando esta etapa, considera que Deus não poderia ser composto da natureza corporal e da inteligente, justamente pela convicção das duas serem distintas, independentes, mas, sobretudo, pela imperfeição da res extensa, que não seria compatível com a perfeição que esperava e que suas idéias lhe sugeriam.

Infinidade, eternidade, imutabilidade, onisciência, onipotência, entre outras, eram qualidades que se encontravam na perfeição absoluta, a res extensa não podia possuí-las com sua imperfeição (sensória, sensível, corporal), portanto significava que Deus, que as tinha, não poderia ser composto desta (DESCARTES, 1996).

Desse modo, o filósofo se mostra satisfeito com as conclusões a que chegara sobre a divisão dos elementos do Universo, passando a direcionar sua atenção para temáticas e questões correlativas a estas que já foram estudadas aqui. O próximo tópico trará, mais detalhadamente, o estudo sobre a concepção das duas últimas na escala das coisas existentes, para Descartes, no Universo – res cogitans e res extensa –. O funcionamento, características, sua representação no ser humano e as relações tecidas entre uma e outra foram largamente abordadas pelo filósofo durante a produção de seus estudos. Esta temática atraiu a atenção e mereceu grande dedicação de Descartes. Nela, o filósofo desdobrou seus interesses, concentrando-se em desenvolver uma teoria sobre isso.

1.1.3.3 O desenvolvimento do pensamento cartesiano perante as questões da res

No documento Download/Open (páginas 42-45)