2 MIGRAÇÃO E TERRITÓRIO: A DINÂMICA E A MOBILIDADE
2.3 As abordagens teóricas sobre as migrações
2.3.3 As redes sociais e os movimentos migratórios
O estudo das redes sociais, na década de 1970, chamou a atenção de alguns teóricos, pois seu aspecto inovador possibilitou deslocar a análise das migrações do movimento individual para o grupo, permitindo compreender os vínculos individuais ou coletivos existentes na relação entre os atores. O conceito de redes sociais se utiliza de qualidades operativas para compreender determinadas estruturas relacionais, sendo a principal a posição ocupada pelo ator na estrutura da rede. Assim, pode-se dizer que uma rede social consiste em um conjunto de atores ou nós unidos por algum tipo específico de relação ou um [...] conjunto de pessoas, organizações ou instituições sociais que estão conectadas por algum tipo de relação. Uma rede social, em virtude do processo em torno do qual ela se organiza, pode abrigar várias redes sociais [...] (SOARES, 2002, p.12).
Nesta linha, uma rede social significa o conjunto de atores que desenvolvem algum tipo de vínculo (laço), no momento em que constituem relações entre si, na dependência de algum grau de regularidade (frequência), similaridade e especificidade, manifestando-se por meio de redes pessoais cotidianas baseadas nas relações sociais de parentesco e de amizade (GRANOVETTER, 1973; RAUD-MATTEDI, 2005; SOUZA, 2002).
Essa posição determina a estrutura de oportunidades de um ator em relação à facilidade de acesso aos recursos de outros atores pertencentes à rede. A teoria das redes
sociais é utilizada na análise dos sistemas migratórios, compreendidos como dois ou mais espaços ligados por correntes e contracorrentes de indivíduos (ROCHA-TRINDADE, 1995).
Partindo do pressuposto de que os factores estruturais estabelecem as condições fundamentais no âmbito das quais as decisões individuais ou dos grupos são tomadas, alguns autores defendem a ideia segundo a qual o que interliga os indivíduos no espaço são as redes sociais. Quer isso dizer que há um contexto macroscópico que estabelece condições estruturais, mas que ao nível microscópico as decisões migratórias são influenciadas pela participação em redes sociais que proporcionam o acesso dos actores a determinados recursos, nomeadamente assistência e informação (ROCHA-TRINDADE, 1995, p.91).
As redes sociais atuam como facilitadoras dos movimentos migratórios, no momento em que reduzem o grau de incerteza da migração. Além disso, são canais de comunicação por onde circula a informação, são mais persuasivas e convicentes, por tratarem com indivíduos semelhantes. Assim, as migrações são facilitadas pela presença dos laços entre os indivíduos.
Os laços sociais são essenciais e demonstram a profundidade e a proximidade da relação social, em que se estabelece a confiança e por onde a informação é divulgada. A participação na rede leva a usufruir da (des)vantagem dessa proximidade, que pode ser social, cultural e espaço-temporal. Alguns aspectos favorecem essa proximidade, como a religião, a língua, o hábito de vida similares (CAMPOS, 2015).
As redes migratórias podem ser representadas pelos migrantes, propriamente ditos, ou por indivíduos envolvidos com a migração, como: familiares, ex-migrantes, agenciadores, coiotes, padres, agentes de turismo e policiais de fronteira, por exemplo. Ou, também, por domicílios, empresas, aeroportos, cidades e países, que estariam conectados pelas migrações de pessoas.
As migrações são impulsionadas pela informação e o recrutamento de migrantes. A divulgação das informações sobre as condições de trabalho, remuneração, estilo de vida, moradia, clima e cultura, dentre outros aspectos, reduz o grau de incerteza, motivando a migração. A proximidade é um aspecto relevante entre migrantes e potenciais migrantes devido à facilidade na difusão das informações.
Conforme Campos (2015), outro impulso para a migração, decorrente da rede social, é a migração relacionada ao acompanhamento de parentes. Assim, as redes sociais estabelecidas por laços familiares, de amizade e procedentes da identidade de um determinado corpo social, é categoria essencial na análise dos sistemas migratórios. O componente mais importante das redes sociais é a unidade familiar; os agregados familiares são fundamentais na análise das migrações, pois representam a menor unidade coletiva em que se verificam intensas relações
de confiança. Também é importante a presença de uma rede social no local de origem e destino dos migrantes, pois isso diminui o custo associado à migração.
As redes sociais, baseadas nas relações de parentesco, de amizade, de trabalho no movimento migratório são tidas por Souza (2002), como:
[...] I) causas ou intensificadoras dos fluxos migratórios – as pessoas migram por causa do suporte dado por redes pessoais; e II) como responsáveis pela manutenção dos vínculos entre origem e destino, pela orientação que os fluxos assumem, pela circulação de recursos materiais e simbólicos, etc. (SOUZA, 2002, p. 11).
A noção de redes faz parte dos estudos de Granovetter (1985, p. 501) afirmando que
“[...] as ações dos atores sociais são condicionadas pelo seu pertencimento a redes de relações interpessoais”. Para o autor, as redes pessoais representam canais pelos quais circulam as informações, que dependem da posição do ator social na rede.
A denominação redes migratórias é posterior ao de cadeias migratórias e tem como fundamento a informação, influenciando o migrante sobre a decisão de migrar ou não, em relação às vantagens ou desvantagens de continuar o processo migratório.
O pensamento em torno da classificação das redes migratórias parte da questão da distância entre a origem e o destino e o grau de ruptura com as suas origens (território, família, trabalho). Quatro são as categorias que envolvem a migração em redes. Esta poderá ser local, circular, de carreira ou em cadeia. As migrações locais foram importantes na formação da cultura migratória; já as migrações circulares tendiam para um aspecto mais econômico. Se, porventura os resultados da migração fossem positivos e promissores, essa poderia passar de circular à definitiva e, por vezes, resultando em uma cadeia, atraindo um contingente maior de migrantes para o destino (TRUZZI, 2008).
Assim, redes migratórias podem ser definidas como: “As redes de migrantes são conjuntos de laços interpessoais que ligam os migrantes, os ex-migrantes e os não migrantes nas áreas de origem e de destino através dos laços de parentesco, amizade e origem comunitária comum” (MASSEY, 1988, p.396).
Massey (1988) reforça a importância das relações sociais e familiares no processo migratório. A importância da decisão baseada nas informações prévias de quem já migrou.
Esses fatores tornam as migrações um processo complexo, ficando mais afastado da ideia inicial, em que o migrante decidia de forma racional e visando apenas ao custo-benefício do deslocamento. Atualmente, o processo migratório envolve decisões que passam pelo conjunto, pelas relações sociais, não atendendo mais a um desejo individual. As informações são
atribuídas à confiança, como coloca Granovetter (1992), referindo-se aos laços ou vínculos nas relações sociais e esses ampliam a rede, permitindo a renovação dessas informações.
As redes sociais representam um forte vínculo entre os migrantes. Rocha-Trindade (1995) exemplifica isso por meio da relação migração/trabalho, quando da escassez de mão de obra em determinado país, os estrangeiros já empregados no país de destino estimulam a vinda de novos trabalhadores, devido à relação de confiança existente entre eles. A notícia da existência de trabalho passa do país de destino para o de origem por intermediação de familiares, amigos, vizinhos, conhecidos que estimulam o fluxo migratório.
O local (alojamento) de hospedagem para os migrantes recém-chegados, que parece em um primeiro momento ser um problema, é solucionado por residentes que direcionam os novos migrantes para zonas habitacionais e setores da atividade produtiva em que outros migrantes já estão trabalhando. Esse fenômeno é chamado por Rocha-Trindade (1995) de
“redes de ligação”, representando um modo eficaz de disseminação das informações sobre as possibilidades de trabalho no país de destino.
Embora haja uma tendência de aproximação locacional, por afinidade local ou regional, entre os migrantes recém-chegados e os já residentes no país de destino, isso não se faz suficiente para superar o problema do desenraizamento, resultante da mudança de país.
Buscando superar as dificuldades tanto psicológicas como materiais, ocorre a formação de grupos que mais tarde irão procurar formalizar sua existência. Essa formalização resulta em uma comunidade cuja sua existência social é definida:
[...]quando o grupo correspondente, que permanece em dado território de contornos razoavelmente definidos, tem a dimensão suficiente para revelar uma estrutura social, determinada por um espectro completo de grupos etários, de representatividade de sexos, de relações familiares e de interacções sociais, que lhe conferem alguma unidade de propósitos e um sentimento comum de pertença (ROCHA-TRINDADE, 1995, p.184).
A formação comunitária verdadeira, numa região de destino, será real quando o fluxo migratório tiver quantidade e continuidade durante um período de tempo. Essa relação é facilitada quando da existência de um grupo de migrantes enraizados no país de acolhimento.
Para Truzzi (2008), as redes, quando aplicadas ao movimento migratório, fornecem o contexto social como referência para o migrante, tornando-se importante no estudo da ação social condicionantes de comportamentos, podendo tornar o processo migratório mais concreto.
Boyd (1989) consegue mostrar como as migrações representam uma teia implicando diferentes aspectos e relações envolvidas no deslocamento de indivíduos.
Networks connect migrants and nonmigrants across time and space. Once begun, migration flows often become self-sustaining, reflecting the establishment of networks of information, assistance and obligations which develop between migrants in the host society and friends and relatives in the sending area (BOYD, 1989, p. 641).
Acredita-se que o fluxo migratório é resultado da industrialização, esquecendo que os aspectos históricos, institucionais, também podem ter contribuído nesse processo. Por isso, a importância de analisar outros fatores, que não só os econômicos, como determinantes nos deslocamentos. Aparece, assim, nas discussões sobre as migrações, o conflito entre os aspectos econômicos, abordado por Singer (1990), e os de ordem social e psicossocial que serão apresentados por autores da sociologia, como Germani (1974), mostrando as contradições que ocorrem no processo migratório.
Para Germani, então, a migração é um processo social que vai além dos mecanismos do mercado de trabalho, no plano econômico, e se insere em uma ampla mudança social, cultural e psicossocial, tanto individual, quanto coletiva, dentro do desenvolvimento da sociedade moderna. Desse modo, as migrações, dentro do processo de mobilização social, são necessárias e funcionais para a modernização da sociedade dos países em desenvolvimento. A análise de Germani, dentro da tradição estrutural-funcionalista, revela a importância do processo de integração social do migrante na sociedade moderna (BRITO, 2007, p. 9).
Um novo aspecto relativo à migração surge no final do século XX, no qual a condição social do migrante é que passa a ser o objeto de estudo.
Entendemos que a migração é um “fato social completo” e uma condição social: a condição de ser e/imigrante. Assim, há o ‘emigrante’, aquele que saiu de sua própria sociedade, e há o ‘imigrante’, aquele que chegou a uma terra de estranhos: o paradoxal é que ambos são a mesma e única pessoa. O migrante carrega então, uma dupla condição: o de ser ao mesmo tempo e/imigrante, mas como não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, sua existência individual e social é ambiguamente vivida para o grupo de onde parte e para o grupo aonde ele chega (SAYAD, 1998, p.243).
Na medida em que o fluxo migratório passa a incluir aspectos de ordem social, isto remete à análise de um processo que pode ter como responsável a questão socioeconômica e até mesmo psicossocial, levando o migrante a pensar sobre qual fator é mais importante na tomada de decisão sobre o deslocamento. Nesse caso, pode-se dizer que entram em conflito a dimensão que define a migração como um processo estritamente econômico e a dimensão
sociológica, em que a migração representa uma decisão que pode ter como pressuposto o aspecto afetivo, ou de parentesco ou até mesmo de amizades.
A tomada de decisão por parte do agente individual irá definir a sua mobilidade, conforme afirma Peixoto (2004):
Por outras palavras, por muitas que sejam as condicionantes externas à sua decisão – trate-se de um contexto económico ou do contexto social de acção – é a racionalidade individual que, no limite, conjuga (diferenciadamente) estas envolventes e promove a decisão de mobilidade. Esta forma de abordar o tema migratório é comum à sociologia mais geral (PEIXOTO, 2004, p.13).
E, dessa forma, a decisão de migrar é de responsabilidade do ator social, que a partir das informações das regiões de destino e de seus objetivos individuais e do grupo, passa, então, a decidir pela permanência na região de origem ou pela migração. Nesse processo, não é possível deixar de considerar que variáveis importantes afetam a decisão de ir e vir, como, por exemplo, as características econômicas da região de destino e os benefícios sociais adjacentes.