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As reformas de 1836: o contributo de Passos Manuel

No documento A educação na revista “O Panorama” (páginas 45-50)

Capítulo II – BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO TEMPO EM

5. As reformas de 1836: o contributo de Passos Manuel

Como atrás referimos, no dia 11 de Setembro de 1836 eclodiu, em Lisboa, a revolução que ficou conhecida como Setembrismo, pela qual foi abolida a Carta Constitucional e provisoriamente restaurada a Constituição de 1822. Desta revolução, destaca-se Passos Manuel (Manuel da Silva Passos) que viria a assumir a pasta de Ministro de Reino e que, dentro do espírito da revolução, e apoiando-se em estudos anteriores, particularmente nos de Rodrigo da Fonseca Magalhães, levou a efeito a reforma do ensino que lhe imortalizou o nome e que a seguir apresentamos de forma resumida.

A. A reforma do ensino primário

No dia 15 de Novembro de 1836 Passos Manuel apresentou o diploma respeitante à reforma do ensino primário. Não era um simples decalque da reforma de Rodrigo da Fonseca. Rómulo de Carvalho68 faz notar que há aspectos em que ocorreu

notoriamente um retrocesso, assim como outros evidenciam um claro avanço em relação

67 BIANCHI, José João Pinhanços de – A reforma educativa no 1.º Ciclo do Ensino Básico –

uma aproximação à sua história e à sua recepção. (Dissertação de Doutoramento em

Ciências da Educação, apresentada à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). Vila Real: UTAD, 1998, p. 85.

68 CARVALHO, Rómulo de – História do ensino em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste

à reforma anterior. No que respeita aos aspectos negativos, por um lado, não faz referência à gratuidade do ensino, e por outro, não prevê um aumento tão significativo do ordenado dos professores. Mais dois aspectos negativos salientados pelo mesmo autor referem-se ao princípio centralizador do Estado e ao facto de em nenhum artigo se declarar a obrigatoriedade do ensino.

B. A reforma do ensino secundário

No dia 17 de Novembro foi apresentado o diploma referente ao ensino secundário. Passos Manuel tinha a convicção que a instrução secundária era a que mais carecia de reforma, sendo urgente ultrapassar o ensino de tipo especulativo

porquanto o sistema actual consta, na maior parte de alguns ramos de erudição estéril, quase inútil para a cultura das ciências e sem nenhum elemento que possa produzir o aperfeiçoamento das artes e os progressos da civilização material do país. […] não pode haver ilustração geral e proveitosa sem que as grandes massas de cidadãos, que não aspiram aos estudos superiores, possuam os elementos científicos e técnicos indispensáveis aos usos da vida no estado actual das sociedades.69

Passo Manuel insurgia-se, assim, oficialmente, contra a instrução secundária orientada única e exclusivamente para as humanidades. Com o decreto de 17 de Novembro de 1836 há uma clara intenção de orientar o ensino numa direcção mais científica e mais pragmática, em ordem a poder responder às necessidades humanas mais prementes de uma economia onde o comércio e as indústrias ligadas às manufacturas começavam a dar sinais claros em ordem à emergência de novos paradigmas: do ensino exigiam-se respostas às solicitações dos novos ventos que sopravam dos países ilustrados.

Desta reforma destaca-se, com grande evidência, a aprovação do Plano dos

Liceus Nacionais, a cujo decreto de criação de 11 de Novembro de 1836 ficaria

associado o nome de Passos Manuel. Em cada capital de distrito haveria um liceu, salvo no Porto e em Lisboa, em que haveria dois.

O Liceu seria doravante o novo tipo de escola que o país ira conhecer. O esquema que adiante se apresenta, emanado do decreto, sem ser inovador, mostra o esforço para combater a erudição estéril:

1.ª Gramática Portuguesa e Latina; Clássicos Portugueses e Latinos;

69 Considerações preambulares do diploma APUD - CARVALHO, Rómulo de – História do

2.ª Línguas Francesas e Inglesa e as suas Gramáticas; 3.ª Ideologia, Gramática Geral e Lógica

4.ª Moral Universal;

5.ª Aritmética e Álgebra, Geometria, Trigonometria e Desenho; 6.ª Geografia, Cronologia e História;

7.ª Princípios de Física, de Química e de Mecânica Aplicada às Artes e Ofícios;

8.ª Princípios de História Natural dos três reinos da Natureza aplicados às Artes e Ofícios;

9.ª Princípios de Economia Política, de Administração Pública e de Comércio;

10.ª Oratória, Poética e Literatura Clássica, especialmente a Portuguesa.70

Rómulo de Carvalho71 faz uma análise fina da reforma da instrução secundária,

de onde destacamos os seguintes aspectos:

- a orientação do estudo das ciências (da Física, da Química, da Mecânica e da História Natural), com vista às suas aplicações práticas nas Artes e nos Ofícios;

- o documento admite que não haveria professores preparados para esse ensino em número suficiente, esperando-se que tal lacuna fosse superada num prazo de cinco anos;

- a referência às Artes e aos Ofícios, assim como a referência ao Comércio, apontam para a intenção de conferir aos Liceus uma formação técnica que proporcionaria o acesso a diferentes profissões ligadas ao Comércio e à Indústria;

- o decreto que cria os liceus abre as portas ao ensino particular para o ensino secundário, à imagem daquilo que já acontecia com o primário; determina o artigo 39º que “O estabelecimento das escolas de instrução secundária é livre a toda a pessoa ou corporação”, o que significa que qualquer particular

70 CARVALHO, Rómulo de – História do ensino em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste

Gulbenkian, 2001, pp. 564.

71 CARVALHO, Rómulo de – História do ensino em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste

poderia abrir um Liceu, desde que participasse por escrito ao Administrador do Concelho o local da instalação da escola.

O mesmo autor aponta as muitas questões que ficaram por esclarecer:

Não se sabe, por exemplo, através da reforma, de quantos anos constaria o curso dos Liceus, nem quais as matérias que se leccionariam em cada ano, nem o que se ensinaria em cada uma delas, nem a sua distribuição horária no trabalho escolar. Em termos tais tornava-se impossível pôr a funcionar os Liceus, como escolas novas que eram, com professores insuficientemente preparados, pedagógica e cientificamente, e sem compêndios que recorressem em muitas disciplinas programadas. A reforma do ensino secundário foi, de momento, uma base mínima de trabalho que agora precisaria de ser minuciosamente desenvolvida em todos os seus pormenores.72

C. A reforma do ensino superior

A reforma do ensino superior não teve o alcance das dos níveis anteriores. Note- se, em primeiro lugar, que esta reforma foi entregue a um professor universitário, o que só por si constituía um travão à tomada de medidas menos populares que beliscassem os colegas.

Era inadiável a reestruturação dos cursos, particularmente da vertente científica que, tal como no ensino secundário, estavam divorciados dos novos desafios.

Sabemos que quem detém o poder dificilmente abre mão dele. Coimbra detinha o monopólio do ensino superior. Por isso, concretizar as intenções expressas no artigo 72º 73, que visava colocar as Escolas de Ensino Superior nas cidades de Lisboa, Porto e

Coimbra, “conforme a sua natureza, os fins para que são destinadas, e a oportunidade dos alunos”, era, per se, no mínimo, colocar a cabeça no cepo e esperar que ninguém accionasse o machado da morte. Por bem menos fora Rodrigo da Fonseca afastado de seu lugar de ministro. Isto explica, só por si, a razão pela qual o referido artigo 72º só mais tarde foi implementado, não por Passos Manuel, mas pelo Ministério da Guerra, sob cuja acção ficaram as escolas. Os decretos foram assinados pelos ministros detentores das pastas da Guerra e da Marinha, respectivamente Sá da Bandeira e Vieira de Castro:

72 CARVALHO, Rómulo de – História do ensino em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste

Gulbenkian, 2001, pp. 566. Registe-se o pormenor que só em Setembro de 1840 é que os primeiros liceus foram instalados: dois em Lisboa e um no Porto.

73 As três reformas levadas a cabo por Passos Manuel, respeitantes aos três graus de ensino,

usam uma numeração contínua dos artigos. A do ensino secundário começa no artigo 38 e a do superior no 71. O artigo 72 corresponde ao segundo artigo da reforma do ensino superior.

Os diplomas em que são criadas estas novas escolas são datados de Janeiro de 1837, o referente a Lisboa datado de 11 e o referente ao Porto datado de 13. A nova instituição pedagógica da capital chamou-se Escola Politécnica, e foi criada, - assim se lê no preâmbulo do decreto – “com o fim principal de habilitar os alunos com os conhecimentos necessários para servirem os diferentes cursos das escolas de aplicação do Exército e da Marinha, oferecendo ao mesmo tempo os meios de propagar a instrução geral superior e de adquirir a subsidiária para outras profissões científicas”74.

Pelo decreto de 11 de Janeiro, foi criada a Escola Politécnica de Lisboa, destinada ao ensino das designadas “ciências naturais”: “a falta de um estabelecimento traduzia-se em grave lacuna para a instrução pública, pois impedia o alargamento do ensino superior a esferas científicas que não tinham cabimento no plano de estudos da Universidade”75.

Refira-se apenas o pormenor que a Escola Politécnica foi instalada no edifício do Colégio dos Nobres, que no dia 4 de Janeiro de 1837 fora abolido, tendo sido os alunos transferidos para o Colégio Militar76.

“Por decreto de 13/01/1837, Passos Manuel determina que a Academia Real da Marinha e Comércio da cidade do Porto fique sendo denominada Academia Politécnica

do Porto”77, a qual manifestava uma vocação muito semelhante à Escola Politécnica de

Lisboa: foi destinada à formação de engenheiros civis, oficiais da marinha, pilotos, comerciantes, agricultores, directores de fábricas, etc…

Na opinião de Rómulo de Carvalho, que partilhamos,

as reformas de Passos Manuel denotam a preocupação ansiosa de renovar, através da escola, a sociedade portuguesa, revelam a consciência da urgência dessa renovação que o impelia a fazer muito em pouco tempo, um tanto apressadamente, sem estruturas básicas capazes de ampararem e de acompanharem a transformação78.

74 CARVALHO, Rómulo de – História do ensino em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste

Gulbenkian, 2001, pp. 569.

75 SERRÃO, Joaquim veríssimo - História de Portugal [1832-1851]. (S. Paulo?): Editorial

Verbo, 1986, p. 324.

76 Veja-se a propósito da abolição do Colégio dos Nobres o escrito Da Escola Politécnica e do

Colégio dos Nobres, de Herculano, publicado no VIII volume dos Opúsculos.

77 CARNEIRO, Henriques – Evolução e controlo do ensino em Portugal. Lisboa: Fundação

Calouste Gulbenkian, 2003, p. 366.

78 CARVALHO, Rómulo de – História do ensino em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste

Seria injusto não fazermos, pelo menos, referência, neste trabalho, à criação e renovação de outras instituições educativas emanadas do ministério de Passos Manuel, das quais destacamos:

- a criação de dois Conservatórios de Artes e Ofícios: um em Lisboa, por decreto de 18 de Novembro de 1836; o outro no Porto, por decreto de 5 de Janeiro de 1837;

- a reforma das Escolas Médico-cirúrgicas de Lisboa e Porto, promulgada pelo ministro a 29 de Dezembro de 1836. Estas escolas funcionavam na dependência dos hospitais de S. José e de Santo António, criando, para cada uma delas, uma Escola de Farmácia79.

Rafael Ávila de Azevedo sintetiza, de forma optimista, os traços essenciais desta reforma, ao fazer notar que

representam um plano estruturado […] que abrange com largueza todos os graus de ensino; constituía um sistema orgânico adaptado às necessidades imediatas do ensino no regime liberal; abarca todas as modalidades escolares e toda a área geográfica do país; e lança os fundamentos das instituições pedagógicas contemporâneas […].80

D. António da Costa, colocando as duas reformas nos pratos da balança faz a seguinte avaliação:

Comparada pois com a reforma de 35, a reforma de 36 ficava-lhe inferior. Morta, porém, como estava a de 35, a de 36 representava um progresso, e apesar de incompleta nos pontos fundamentais lançava traços de reconhecido alcance. Se porventura não era uma lei essencialmente prática no estado centralizador da nação, era decerto, no conjunto dos princípios que estatuía, uma lei benemérita e liberal.81

No documento A educação na revista “O Panorama” (páginas 45-50)