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de 1 maior é a desigualdade no país

3 A PREVIDÊNCIA NO BRASIL

3.4 AS REFORMAS PREVIDENCIÁRIAS DESDE

Estado brasileiro foi alvo de reformas impulsionadas pelo Consenso de Washington, pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional.

As reformas emanadas do Consenso de Washington31, constituem “um conjunto, abrangente, de regras de condicionalidade aplicadas de forma cada vez mais padronizada aos diversos países e regiões do mundo, para obter o apoio político e econômico dos governos centrais e organismos internacionais”, tratando-se “também de políticas macroeconômicas de estabilização acompanhadas de reformas estruturais liberalizantes” (WILLIAMSON apud SOARES, 2003, p. 19). Silva (2015, p. 145) sustenta que desde 1998 a “contrarreforma da previdência social” no Brasil segue os postulados do documento do Banco Mundial, intitulado “Envelhecimento sem crise”, de 199432, segundo o qual as mudanças nos sistemas de previdência social devem propiciar: criação de poupança obrigatória, através de contribuições definidas e do regime de capitalização; poupanças voluntárias e redução

31 Foi batizado de Consenso de Washington a reunião do FMI/Fundo Monetário Internacional, BIRD/Banco Mundial e BID/Banco Interamericano de Desenvolvimento, realizada em novembro de 1989 em Washington, que visava difundir a doutrina neoliberal, especialmente para os países latino-americanos.

32 Documento disponível em:

<http://documentos.bancomundial.org/curated/es/204101468190731858/pdf/135840PUB 00SPANISH00Box074505B0PUBLIC0.pdf>. Acesso em: 1 maio 2018.

da extrema pobreza por meio dos benefícios. Ou seja, a previdência social deve ser enxuta, abrindo espaço para a previdência complementar.

A reforma da Previdência Social iniciou em fins de 1993. Neste ano houve a extinção do abono (25%) de permanência em serviço de pessoas em idade de se aposentar e a retirada do 13º. salário, do cômputo da média dos 36 últimos salários para o cálculo do valor da aposentadoria (CANO, 2000).

No ano de 1994 foi instituída pelo governo Cardoso a Desvinculação das Receitas da União (DRU), autorizando a livre movimentação de 20% das receitas de impostos e contribuições destinados a Seguridade Social, inclusive, para o pagamento da dívida pública aos rentistas.

Em 1998, o governo Cardoso apresentou sua proposta de reforma previdenciária por meio da Emenda Constitucional n. 20 ao Senado Federal, estabelecendo o eixo da reforma da previdência social, visando alterar as regras tanto para o setor público como para o setor privado. As principais alterações da reforma, duramente combatida pelo movimento sindical e partidos de oposição, foram:

I- para funcionários públicos:

Contribuição previdenciária do funcionário federal:

- antes: 11% só para os ativos;

- atualmente: a) contribuição permanente: são isentos: inativos e pensionistas que ganham até R$ 600/mês e os de mais de 70 anos que ganham até R$ 3 mil/mês, e os ativos civis com direito à aposentadoria (voluntária e integral) que continuem trabalhando; consideradas essas isenções, pagam: ativos, inativos e pensionistas, 11%; b) contribuição adicional temporária (1.5.1999 a 31.12.2002), consideradas as isenções acima: pagam ativos, inativos e pensionistas: 9% do que exceder R$ 1.200/mês, até o limite de R$ 2.500/mês, ou 14% do que exceder R$ 2.500/mês aposentadoria:

- antes: i) compulsória, aos 70 anos, com valor proporcional ao tempo de serviço (TS) cumprido; ii) voluntária plena, com TS de 35/30 anos (H/M homem/mulher) ou 30/25 para professores; iii) voluntária proporcional, com TS de 30/25 ou calculada pelo TS cumprido aos 65/60 de idade;

- atualmente: i, ii e iii): substitui tempo de serviço por tempo de contribuição (TC), mesmo nos casos de invalidez permanente; ii e iii) impõe a condição de mínimo de 10 anos de TS e 5 no cargo em que pretende se aposentar. Professores (30/25) exclusivamente para os de ensino infantil, primeiro e segundo graus; ii) idade mínima de60/55; iii) idade mínima de 65/60.

- transição (para aqueles que em 15.12.1998 tinham direitos adquiridos): ii e iii) idade de 53/48 e 5 no cargo em que pretende se aposentar; ii) 35/30 de TS mais acréscimo de TC de 20% do tempo que faltava (TF) em 15.12.1998, para completar os 35/30 de TS (30/25 para professores); iii) 30/25 de TS e 40% sobre TF; o valor passa a ser de 70% da plena, acrescido de 6% por ano adicional de trabalho, até o máximo de 100%.

II) para o setor privado: aposentadoria:

- antes: i) voluntária plena: com TS de 35/30 (30/25 para professores); ii) por idade, com 65/60 (60/55 para trabalhador rural – TR), valor proporcional ao tempo de serviço; iii) proporcional por TS: 30/25.

- atualmente: i) A redação da lei é ambígua, colocando duas cláusulas sem definir se ambas são excludentes (ou) complementares (e): a) TC de 35/30 (30/25 professores de ensino infantil, de primeiro e de segundo graus); b) idade de 65/60 (60/55 TR). Contudo o Congresso, por sua presidência, declarou que “sua interpretação é ou” enquanto FHC disse que é e. Trata-se, portanto, de dúvida que merecerá interpretação legal. ii e iii) aparentemente, ii se converteu em “proporcional com idade mínima” e sobre a iii a lei não fez menção;

- transição: 53/48 de idade, TS de 35/30 (ou 30/25 para professores de ensino infantil, de primeiro e de segundo graus) mais acréscimo de TC de 20% de TF.

III) outras regras:

a) Elimina a isenção do Imposto de Renda para os rendimentos de aposentadorias de maiores de 65 anos; b) salário-família somente para

trabalhadores de baixa renda; c) valor do piso: mantém o de um salário mínimo; d) valor do teto para o funcionário público: governo tentou, mas não conseguiu alterar o direito do aposentado de receber o mesmo valor que era pago ao ativo de igual categoria. O teto é o mesmo fixado para todo o funcionalismo público; e) setor privado: teto de R$ 1.200/mês (FHC queria R$ 360), reajustável pela inflação, sem determinar qual será o indexador; f) a base de cálculo do valor, que antes era a média dos 36 últimos salários, corrigidos, foi omitida na nova lei; g) salvo para os casos explícitos na Constituição, não mais será permitido acúmulo de vencimentos em mais de uma função ou aposentadoria” (CANO, 2000, p.263-265).

O fim da aposentadoria por tempo de serviço esmagava o direito de milhões de trabalhadores do campo e da cidade que começaram a trabalhar mais cedo sem contratos formais de trabalho e sem condições de renda para contribuir diretamente aos órgãos previdenciários.

A Lei n. 9.876, de 29/11/1999, regulamentou a Emenda Constitucional n. 20, modificando vários artigos das Leis 8.212 e 8.213/91. A lei cria o fator previdenciário; modifica a média para o cálculo do benefício previdenciário; e cria a categoria do segurado contribuinte individual, entre outras inovações.

O fator previdenciário é o resultado de uma fórmula que considera três variáveis: o tempo de contribuição, a idade e a expectativa de sobrevida do segurado no momento da aposentadoria por tempo de contribuição (ATC), levando ao achatamento do “salário de benefício”, sendo facultativo aos trabalhadores que já tenham alcançado a idade mínima, de acordo com o Regulamento da Previdência Social. Para conseguir o “salário de benefício integral” é preciso trabalhar mais alguns anos 33.

Atualmente o valor inicial da ATC resulta da multiplicação da média dos 80% melhores salários de contribuição do segurado pelo fator

33 Art. 181-A. Fica garantido ao segurado com direito à aposentadoria por idade a opção pela não aplicação do fator previdenciário, devendo o Instituto Nacional do Seguro Social, quando da concessão do benefício, proceder ao cálculo da renda mensal inicial com e sem o fator previdenciário. (Incluído pelo Decreto nº 3.265, de 1999). RPS -

Decreto nº 3.048 de 06 de Maio de 1999. Disponível em:

<https://www.jusbrasil.com.br/topicos/11738697/artigo-181-do-decreto-n-3048-de-06- de-maio-de-1999>. Acesso em: 1 maio 2018.

previdenciário. Geralmente, o fator previdenciário resulta inferior a 1, reduzindo o valor do benefício, conforme o exemplo de Fazio (2016, p.35):

Hoje, o fator previdenciário de um homem de 59 anos de idade completos e 35 anos de contribuição é igual a 0,812. E resulta menor de 1 para o segurado que se aposentar com menos de 64 anos de idade (59, se mulher). Se o segurado tiver idades superiores, o fator pode ser igual ou superior a 1 e terá o efeito de majorar o valor inicial da ATC, que contudo nunca será maior que o teto34.

Fazio (2016) considera que o achatamento do beneficio previdenciário por meio da instituição do fator previdenciário35 obriga o trabalhador a trabalhar mais tempo para obter uma aposentadoria melhor. Mesmo assim, o baixo valor dos benefícios, como mostra a média paga pelo RGPS, força milhões de aposentados a terem que continuar a trabalhar. No Brasil são 5,7 milhões de aposentados (28,14% do total) - entre os 20, 3 milhões de aposentados - que continuam exercendo atividades laborais.

A Proposta de Emenda à Constituição n. 41/2003 foi enviada no início do governo Lula. Dentre os pontos mais regressivos da reforma estão o fim da integralidade da aposentadoria, a taxação dos inativos, o limite dos benefícios do Regime Próprio de Previdência Social dos servidores públicos federais ao teto do INSS36 e a criação de um Fundo Complementar de Previdência para o Serviço Público para os futuros servidores públicos que ingressassem na carreira após a reforma (FUNPRESP), o qual foi autorizado pelo governo Dilma em 2012 e passou a funcionar em 2013.

34 Veja a tabela completa do fator previdenciário em:

<http://www.previdencia.gov.br/wp-content/uploads/2017/12/Fator-_-Previdenciario- 2018.pdf>.

35 O fator previdenciário é tanto maior quanto maior forem a idade e o tempo de contribuição do segurado e quanto menor for a expectativa de vida do segurado na época da concessão da aposentadoria por tempo de contribuição (ATC) (Lei 9.876, de 26 nov. 1999).

36 A partir de janeiro de 2018 o teto previdenciário passou a ser de R$ 5.645,80. Ver: Benefícios: Índice de reajuste para segurados que recebem acima do mínimo é de 2,07%

em 2018. Brasília, 17 jan. 2018. Disponível em:

<http://www.previdencia.gov.br/2018/01/beneficios-indice-de-reajuste-para-segurados- que-recebem-acima-do-minimo-e-de-207-em-2018/>. Acesso em: 1 maio 2018.

Depois de longas mobilizações de sindicalistas e aposentados, o Congresso Nacional, aprovou em 2010 o fim do fator previdenciário e o reajuste dos benefícios em 7,7%. Lula manteve o reajuste aprovado, mas vetou o fim do fator (DIEESE, 2012, p. 374).

Para Salvador (2010, p. 171), “apesar de a ‘reforma brasileira’ não ter significado a adoção integral de um regime de capitalização privado, como ocorreu no Chile, passos importantes foram dados nessa direção”. A introdução do Fator Previdenciário significou a introdução de critérios atuariais na concessão dos benefícios previdenciários. Há uma volta parcial do regime de capitalização na previdência social, que passou a cobrar dos seus segurados “o cumprimento de uma complexidade de critérios, envolvendo a combinação de tempo de contribuição, a expectativa de vida e a idade”.

Em 2014, o governo enviou ao Congresso Nacional as Medidas Provisórias (MP’s) 664 e 665 de 30 de dezembro de 2014, as quais foram transformadas, respectivamente, nas leis nº 13.135 e 13.134, em junho de 2015, modificando a pensão por morte, o auxílio-doença, a aposentadoria por invalidez, o auxílio-reclusão, o abono salarial, o seguro-desemprego e o seguro-defeso, reduzindo o acesso da classe trabalhadora a estes benefícios. As medidas foram criticadas pelas centrais sindicais por configurarem uma regressão em direitos sociais num contexto de austeridade fiscal que vinha sendo requerida pelos empresários (SILVA, 2017).

No decorrer da tramitação das MPs no Congresso Nacional, os parlamentares introduziram a fórmula 85/95 ao texto como uma alternativa ao fator previdenciário. A presidente Dilma vetou a fórmula e editou nova Medida Provisória (MP 67/15), introduzindo um escalonamento progressivo da idade e do tempo de contribuição levando em consideração os estudos sobre a evolução da expectativa de vida dos trabalhadores. Depois de negociações do governo com parlamentares, chegou-se a uma fórmula, na qual o trabalhador para ter direito ao benefício anterior à lei do fator previdenciário, precisará ao se aposentar, que a soma da sua idade com o tempo de contribuição chegue aos 85 pontos, no caso da mulher, e aos 95 pontos, no caso do homem. Esta nova fórmula tem uma progressão de cinco anos ao longo do tempo, podendo alcançar a fórmula 90/100, em 2026 (SILVA, 2017)37.

37 Para uma abordagem ampliada destas mudanças, ver SILVA, Mauri Antonio. Reforma da Previdência Social no Brasil. In: do 4º ENCONTRO INTERNACIONAL DE POLÍTICA SOCIAL e 11º ENCONTRO NACIONAL DE POLÍTICA SOCIAL. Anais ...Vitória, 6 a 9 de jun. 2016.

3.5 A “NOVA OFENSIVA” DO CAPITAL FINANCEIRO CONTRA