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6 AS HIPÓTESES LEGAIS DE SUPERAÇÃO DA LIMITAÇÃO DA

6.8 As regras dos artigos 18 da Lei Antitruste (Lei 8.884/94), 4º da Lei 9.604/98

Lei 9.847/99

A regra do artigo 18 da Lei Antitruste tem a seguinte redação:

Art. 18. A personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver por parte deste abuso de direito, excesso de poder, infração à lei, fato ou ato ilícito ou violação aos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica por má administração.

Já a Lei 9.605/98, que trata de crimes contra o meio ambiente, no seu artigo 4° prevê que:

Art. 4°. Poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente. Decreto 2.953/99283 e §§ 2º e 3º do artigo 18 da Lei 9.847/99284 (normas reguladoras da indústria do petróleo e derivados).

A Carta Constitucional de 1988 implantou uma ordem econômica no cenário nacional que exige do Estado e dos agentes econômicos postura inédita para estarem adequados à nova realidade legal, inserida no contexto mundial. Foi demonstrada a preocupação com a forma de exercício do poder econômico, a fim de

283Art. 23. Na aplicação das penalidades previstas neste Decreto, a ANP, ou o órgão público conveniado para a fiscalização, poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade, sempre que esta constituir obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à indústria do petróleo, ao abastecimento nacional de combustíveis, ao Sistema Nacional de Estoques de Combustíveis ou ao Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis.

Parágrafo único. A responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, autoras, co-autoras ou partícipes da infração apurada.

284Art. 18. Os fornecedores e transportadores de petróleo, gás natural, seus derivados e biocombustíveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade, inclusive aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes do recipiente, da embalagem ou rotulagem, que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor.

(...).

§ 2º A responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, autoras, co-autoras ou partícipes do mesmo fato.

§ 3º Poderá ser desconsiderada a personalidade jurídica da sociedade sempre que esta constituir obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados ao abastecimento nacional de combustíveis ou ao Sistema Nacional de Estoques de Combustíveis.

coibir abusos em diversos ramos, como na concorrência, proteção ao meio ambiente etc.

Como demonstrado, à luz da ordem constitucional, o exercício de atividade econômica mediante a utilização de sociedades de responsabilidade limitada nada tem de antijurídico. Apenas se pretende coibir os excessos, ou seja, evitar a utilização de forma abusiva desse mecanismo.

Dito isso, não há, portanto, dúvida acerca da possibilidade e da pertinência da aplicação da teoria da desconsideração também no sistema de proteção e defesa da concorrência, do meio ambiente, assim como não se discute a sua aplicação em qualquer outro ramo de relações jurídicas em que as pessoas jurídicas possam atuar.

O que não se pode permitir é que se reproduzam os mesmos vícios apontados ao se comentar a regra do artigo 28 do CDC, que desvirtuam completamente os pressupostos de aplicação da teoria da desconsideração.

Em especial, a inexistência de patrimônio suficiente para a pessoa jurídica reparar danos a terceiros no âmbito do direito ambiental ou em decorrência de sua participação em processo licitatório não pode ser, isoladamente, causa suficiente para a aplicação da teoria da desconsideração.

Imagine-se a hipótese de um caso fortuito em uma indústria química organizada sob a forma de uma responsabilidade limitada. Em virtude de um raio, ocorre uma explosão, arruinando todos os bens da pessoa jurídica, e originando um vazamento de um produto poluente para algum rio vizinho. Como sabido, a responsabilidade em matéria ambiental é objetiva. Basta a constatação do dano e da possibilidade de vinculação causal do mesmo com a pessoa do agente para ser a responsabilidade atribuída, independentemente de culpa.285 É evidente que neste caso a responsabilidade pelo dano vai ser atribuída à pessoa jurídica.

285Nesse sentido: “O Município de Itapetininga é responsável, solidariamente, com o concessionário de serviço público municipal, com quem firmou “convênio” para realização do serviço de coleta de esgoto urbano, pela poluição causada no Ribeirão Carrito, ou Ribeirão Taboãozinho. II – Nas ações coletivas de proteção a direitos metaindividuais, como o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, a responsabilidade do poder concedente não é subsidiária, na forma da novel lei das concessões (Lei 8.987, de 13.02.1995), mas objetiva e, portanto, solidária com o concessionário de serviço público, contra quem possui direito de regresso, com espeque no art.

14, § 1°, da Lei 6.938/81. Não se discute, portanto, a liceidade das atividades exercidas pelo concessionário, ou a legalidade do contrato administrativo que concedeu a exploração de serviço público; o que importa é a potencialidade do dano ambiental e sua pronta reparação”. (BRASIL.

Superior Tribunal de Justiça. 2ª Turma. REsp. 28.222 – SP. Relatora para o acórdão: Ministra Nancy Andrighi. Publicado no DJU de 15.10.2001, p. 253).

Entretanto, como a pessoa jurídica, em virtude do evento fortuito, não mais dispõe de patrimônio, não pode a reparação, neste caso, atingir o patrimônio pessoal dos sócios, uma vez que não estão presentes quaisquer das hipóteses caracterizadoras de utilização abusiva do ente personificado ou de confusão patrimonial. Muito embora seja objetiva a responsabilidade pelo dano ambiental, não se pode cogitar, no exemplo, de aplicação da teoria da desconsideração com base apenas no fato de insuficiência patrimonial da pessoa jurídica para arcar com a indenização pelo dano ambiental.

Como argumentado quando se tratou do artigo 50 do Código Civil, a teoria da desconsideração exige uma qualificação na situação de impossibilidade da pessoa jurídica fazer frente, com o próprio patrimônio, por suas dívidas: a situação de patrimônio líquido negativo (passivos superiores aos ativos) deve ser produto de abuso na utilização do ente personificado. Do contrário, ou seja, caso a impossibilidade financeira não decorra de abuso na utilização da personalidade jurídica, mas sim dos riscos a que estão sujeitas as atividades empresariais, não se pode aplicar a teoria da desconsideração.

Entender de forma diversa, como já sustentado na seção anterior, é reputar que todas as normas de desconsideração da personalidade jurídica poderiam, no caso das sociedades dotadas de limitação de responsabilidade, ser resumidas em um único enunciado: na ausência de patrimônio da pessoa jurídica para responder por suas obrigações, os sócios respondem subsidiariamente, o que é de todo incorreto, tendo em vista que a interpretação que conduza a esse resultado irá ofender, direta e frontalmente, os artigos 592, II, e 596 do CPC e os artigos 1.052 do Código Civil (se a sociedade for uma Sociedade Limitada) ou 1º da Lei 6.404/1976 (se for constituída sob a forma de Sociedade Anônima).

7 A EXCEÇÃO JURISPRUDENCIAL À LIMITAÇÃO DA RESPONSABILIDADE DO