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1 DISCURSO POLÍTICO: ESPECIFICIDADES DO DEBATE

1.1 O DISCURSO POLÍTICO

1.1.8 As regras gerais do debate eleitoral televisivo

Assim como existem regras nas demais interações verbais, também são elas que

determinam o agir dos participantes nos debates políticos. As ações dos participantes,

inclusive do mediador, são, portanto, pré-determinadas e controladas, visando-se ao bom êxito

do programa. Respeitar as regras do debate político é, talvez, para os debatedores, um dos

quesitos mais importantes no sentido de conquistar os eleitores, pois, como lembra

Kerbrat-Orecchioni, “nem todos os golpes são permitidos”, uma vez que os debates “estão sujeitos a

regras bem precisas que é conveniente respeitar, especialmente porque se passa sob o olhar de

milhões de telespectadores que são tanto testemunhas quanto juízes da „regularidade‟ das

trocas” (KERBRAT-ORECCHIONI, 2014, p. 47, grifo original).

As linhas mestras não diferem muito de um debate ao outro, seguindo-se geralmente o

esquema proposto: uma declaração de abertura em que o mediador faz as apresentações dos

participantes e explicita as regras do evento. No início de cada bloco, faz-se um sorteio para

determinar quem fará as perguntas, cabendo ao sorteado escolher quem dará a resposta (no

caso de participarem mais de dois debatedores). Esse procedimento costuma ocorrer em

regime de revezamento.

Dependendo do debate, o número de perguntas que cada debatedor pode responder é

limitado. Limita-se também o tempo para cada resposta, inclusive o da réplica e da tréplica,

quando houver necessidade de refutar ou contestar a argumentação. Pode haver, ainda, a

participação direta do público convidado, como jornalistas e populares, mas esses somente

fazem perguntas se houver acordo entre os partidos políticos e quando devidamente

autorizados. Isso aconteceu no último debate do segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio

Neves. Pode ser concedido ainda direito de resposta ao candidato que sofrer ofensa de

natureza moral ou ideológica.

Em alguns dos debates entre candidatos a presidente, governador ou prefeito, utiliza-se

um cronômetro à vista do telespectador, portando um medidor de tempo de cada pergunta,

resposta, réplica, tréplica ou direito de resposta. Esse cronômetro substitui o sinal sonoro que

foi motivo de polêmica na época nos debates presidenciais de 1989.

O mediador é, portanto, “o mestre do jogo, o detentor das regras gerais que regem os

debates televisivos” (DOURY, 1995, p. 246). Assim como cumpre regras, ele precisa

estabelecer e deixar bem claras as regras do programa; gerir os turnos de fala, respeitando o

tempo do debate; esclarecer possíveis dúvidas e manter a polêmica em níveis aceitáveis.

Quanto à participação dos convidados para os debates políticos televisivos, os candidatos

podem ou não aceitar o convite, pois não há nenhuma obrigatoriedade em relação a sua

participação. Afirma Leite (2003, p.07) que “participar ou não de um debate é, ainda hoje,

uma questão que atormenta os candidatos, especialmente aqueles que são, no momento,

líderes nas sondagens de intenção de voto”.

Diante disso, concordamos com Braga quando afirma que o debate televisivo e, em

particular, a sua versão ao vivo,

[...] coloca os participantes numa situação de grande tensão, obrigando-os a gerir um conjunto de questões diferentes, como a capacidade de improviso e rapidez na resposta, a capacidade de tomada e manutenção da vez, a gestão temporal da sua vez e o controle da imagem que passam de si próprios, refletida pela subjetividade do seu discurso (BRAGA, 2004, p. 42).

Não há dúvida, portanto, que ao participar de um debate ao vivo os candidatos estão

sempre sujeitos a alguma imprevisibilidade que pode resultar num aumento tensional em

torno do acontecimento. É o que Landowski (2014, p. 16) denomina regime do acidente, isto

é, o caráter imprevisível a que está sujeito o falante. E cabe dizer que, quanto mais

imprevistos na interação, maior a tendência à tensão.

Os teledebates políticos podem ocorrer de forma pacífica ou, ao contrário, de forma

conflituosa, dependendo do contexto situacional e do equilíbrio dos debatedores, cabendo ao

mediador parte da responsabilidade nesse sentido. Esse “jogo de poderes e de pressões”

resulta num movimento argumentativo mais elaborado, e ao mesmo tempo mais exigente,

obrigando os participantes a servir-se de estratégias de persuasão mais eficazes (BRAGA,

2004, p. 42).

Percebe-se que as instâncias política, cidadã e midiática se entrelaçam, dependem

umas das outras, ao mesmo tempo em que possuem características diferentes. O nosso foco se

volta, agora, para o debate político constituído no espaço da instância midiática brasileira.

1.2 O DEBATE POLÍTICO NA MÍDIA BRASILEIRA

Inserido na esfera do discurso da mídia, o debate político-eleitoral está entre as

interações verbais que mais dados (verbais e não verbais) oferece ao pesquisador. Braga

entende que:

A natureza do discurso político conduz muitas vezes à polémica, devido aos naturais dissensos entre ideologias partidárias. O caráter polêmico desse discurso identifica-se quando o discurso político surge associado ao debate, cuja natureza implica desde logo confronto de opiniões antagônicas (BRAGA, 2006, p.51).

Os debates políticos à Presidência da República, no Brasil, transmitidos inicialmente

por canais de rádio e televisão e, mais recentemente, também por algumas redes sociais,

acontecem de quatro em quatro anos, logo após a indicação dos candidatos que representarão

os diferentes partidos políticos nas eleições. Os temas discutidos nesses eventos discursivos

são previamente preparados pelos organizadores e sorteados de acordo com as regras também

pré-estabelecidas, com perguntas, respostas, réplicas, tréplicas e direitos de resposta. Há ainda

debates em que são permitidos temas livres, sendo esse o caso do enunciado que analisamos.

Pelo fato de ser televisivo, “o debate possui uma modalidade mais competitiva,

principalmente se estiver ligado à esfera política tradicional, pois cria um espaço de poder

entre os participantes da interação, na disputa pela defesa de seus pontos de vista”

(FARNEDA, 2007, p. 66). A autora observa que, quando o debate tem o objetivo de resolver

problemas da comunidade, amplia os conhecimentos dos telespectadores. Portanto, qualquer

que seja o assunto do debate, ele pode contribuir para a formação da opinião pública, desde

que sejam respeitadas as regras do contrato comunicativo. É dessa regulamentação, restrita ao

território brasileiro, que trataremos na sequência.