Adotadas pelo 1º Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção do Crime e Tratamento de Delinquentes, realizado em Genebra em 1955, e aprovadas pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da sua resolução 663 C I (XXIV), de 31 de julho de 1957, aditada pela resolução 2.076 (LXII), de 13 de maio de 1977, as Regras Mínimas para o Tratamento dos Prisioneiros148 são outro importante documento a se analisar.
Essas regras servem ao propósito de oferecer estímulos à superação das dificuldades práticas que se opõem a sua aplicação, na certeza de que representam, em seu conjunto, as condições mínimas admitidas pelas Nações Unidas. Nessa tentativa de consolidação de princípios fundamentais de interesse para a administração das prisões e para o tratamento dos indivíduos encarcerados, reconhece esse documento que nem toda regra pode ser aplicada em qualquer lugar e em qualquer tempo.
O objetivo das presentes regras não é o estabelecimento de um modelo adequado de prisão, mas propor regras de uma boa organização penitenciária e da prática relativa ao tratamento de prisioneiros.149 A primeira parte das regras internacionais de tratamento do
148 ONU. Regras Mínimas para o Tratamento dos Prisioneiros. Disponível em: <http://www.operacoesespeciais.com.br/userfiles/07_Regras_minimas_Tratamento_Prisioneiros.pdf> Acesso em: 28 nov. 2010.
recluso trata das matérias relativas à administração geral dos estabelecimentos penitenciários. Essas normas são aplicáveis a todas as categorias de prisioneiros, criminais ou civis, em regime de prisão preventiva ou já condenados, inclusive aqueles que tenham sido objeto de medida de segurança ou de medida de reeducação ordenada por um juiz.
Não se pugna nesse instrumento, nem em qualquer outro documento que elenca direitos humanos, apenas pelas reparações de danos sofridos, senão pela prevenção destes. Todos os prisioneiros devem ser tratados com o respeito devido à dignidade humana, não podendo haver nenhuma espécie de discriminação. O respeito às convicções religiosas e preceitos culturais é princípio básico. A responsabilidade das prisões pela guarda dos reclusos e para a proteção da sociedade contra o crime deve ser apurada em conformidade com os demais objetivos sociais do Estado e as suas responsabilidades fundamentais para promover o desenvolvimento e bem-estar de todos os membros da sociedade.
A pessoa sujeita a qualquer forma de detenção ou prisão deve ser tratada com humanidade e com respeito da dignidade. Esta exigência é feita, especialmente, quando o Estado é parte, no PIDESC, e no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – PIDCP e respectivos Protocolos Facultativos. Os instrumentos de Direito Internacional incluem proteção a diversos direitos que tutelam bens jurídicos considerados relevantes e que não devem ser suspensos em razão da privação da liberdade.150
Todos os presos devem ter o direito de tomar parte em atividades culturais e educacionais que visem o desenvolvimento integral da personalidade humana. Os reclusos devem ter acesso aos serviços de saúde disponíveis no país, sem discriminação em razão da sua situação jurídica. Com a participação e ajuda da comunidade e das instituições sociais, e tendo na devida conta os interesses das vítimas, as condições favoráveis devem ser criadas para a reintegração dos ex-reclusos na sociedade, nas melhores condições possíveis.
O Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as Pessoas sob Qualquer Forma de Detenção ou Prisão, aprovado por resolução da Assembleia-Geral 43/173, de 9 de dezembro de 1988, é outro documento de especial interesse. Nessa carta, é garantido no item 24 que um exame médico deve ser oferecido a uma pessoa detida ou presa com a maior brevidade possível após o seu ingresso no local de detenção ou prisão. Além disso, os cuidados médicos e, posteriormente, o tratamento devem ser fornecidos sempre que necessários.151
<http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/fpena/lex52.htm >. Acesso em: 16 dez. 2010.
150 ONU. Princípios Básicos para o Tratamento dos Reclusos. Disponível em:
<http://www2.ohchr.org/english/law/basicprinciples.htm>. Acesso em: 17 dez. 2010.
Os direitos humanos na administração da justiça são fartos de documentos protetores dos encarcerados.152 Em relação à saúde dos presos, a proteção é veiculada pelos Princípios de Ética Médica Aplicáveis à Função do Pessoal de Saúde, principalmente Médicos, na Proteção de Prisioneiros e Pessoas Detidas contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes.153
Esse documento, aprovado por resolução da Assembleia-Geral 37/194, de 18 de dezembro de 1982, recomenda que o pessoal de saúde, especialmente médicos, encarregado da assistência médica aos presos tem o dever de proporcionar-lhes a proteção de sua saúde física e mental, além do tratamento da doença com a mesma qualidade e padrão do dispensado àqueles que não estão presos ou detidos.
No Brasil, as Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos são veiculadas através da resolução nº 14, de 11 de novembro de 1994, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP. Substancialmente, não há diferenças entre as regras internacionais e as veiculadas pelo órgão de execução citado. Essa agenda de exigências mínimas deve refletir a adoção de uma política penitenciária adequada. O divórcio entre a realidade carcerária e as regras internacionais e brasileiras é surpreendente.
Gilmar Mendes constata essa situação quando afirma que
As deficiências havidas no nosso sistema prisional são de toda ordem e refletem o estado de degradação em que se encontra: desde o lixo acumulado à infestação por ratos; denúncias de maus-tratos e agressões sexuais, corrupção de agentes públicos, abusos de autoridade, tudo agregado à ociosidade, à revolta mal contida de presos muitas vezes barbarizados, num inevitável caldeirão de turbulências que não raro explode em rebeliões, motins e violência gratuita. A essa miríade de problemas se sobrepõem custos elevadíssimos de manutenção de presos, falta de assistência jurídica, frontal e rotineiro desrespeito à Lei de Execução Penal.154
ou Prisão. Disponível em: <http://www2.ohchr.org/english/law/bodyprinciples.htm>. Acesso em: 17 dez.
2010.
152 Foram citados as Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos, os Princípios Básicos para o Tratamento dos Reclusos, o Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as Pessoas sob Qualquer Forma de Detenção ou Prisão, mas ainda há as Regras das Nações Unidas para a Proteção dos Menores Privados de Liberdade, a Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes, a Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes (CAT), o Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes, os Princípios de Ética Médica Aplicáveis à Função do Pessoal de Saúde, principalmente Médicos, na Proteção de Prisioneiros e Pessoas Detidas contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes
153 ONU. Princípios de Ética Médica Aplicáveis à Função do Pessoal de Saúde, principalmente Médicos,
na Proteção de Prisioneiros e Pessoas Detidas contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis,
Desumanos ou Tratamentos Desumanos ou Degradantes. Disponível em:
<http://www2.ohchr.org/english/law/medicalethics.htm>. Acesso em: 17 dez 2010.
O importante papel a ser desempenhado pelas recomendações dos órgãos internacionais e pelo CNPCP não foi capaz de elidir a crise do Sistema Prisional. Ou se apresentam soluções efetivas para o desrespeito à dignidade do preso, ou as prisões brasileiras continuarão muito assemelhadas a calabouços.
Com a intenção de avançar no estudo para a proposição de ideias à atuação do poder público, especialmente o Poder Judiciário, ainda se deverá atentar para a demonstração do direito à saúde como direito fundamental social.
1.5. O direito à saúde como direito fundamental social: determinação da Constituição