Ao trabalhar com mapas mentais é de fundamental importância chamar a atenção para o compromisso do pesquisador. De início surgem algumas indagações:
O que é o mapa mental? Pode ser um texto? Como ocorre a sua aplicação? Qual a relação do mapa mental com o espaço geográfico imerso num conjunto de signos e espacialidades? O mapa mental não é um mero desenho que possa ser utilizado para provar ou desconstruir algo. A função dos mapas mentais perpassa pelo revelar de como os lugares são percebidos, sentidos e compreendidos pelas pessoas.
Em estudos anteriores, a utilização dos mapas mentais serviu para explicar o comportamento espacial dos seres humanos, através de sua percepção em
De acordo com Kozel (2004), Peter Gould desenvolveu investigações sobre o comportamento humano, se atendo aos itinerários e às preferências espaciais contidas nos espaços topográficos, considerando o homem como produtor de imagens. De outro lado Bailly32 (1995) evidencia a importância da análise do espaço
25 GOULD, P.; WHITE, R. Mental Maps. Toronto: Pelican Books, 1974.
26 LYNCH, K. A imagem da cidade, tradução de Jeferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
27 BAILLY, A. La percepcion del espacio urbano. Instituto de estudios de administracion local, Madrid, 1979.
28 SEEMANN, J. Mapas e percepção ambiental: do mental ao material e vice-versa. In: OLAM- ciência e Tecnologia. Vol. 3, setembro/2003.
29 TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Tradução:
Lívia de Oliveira. São Paulo: DIFEL, 1980.
30 Op. cit.
31 Op. cit.
32 BAILLY. A. (Org.). Les concepts de la géographie humaine. 3.ed. Paris, 1995.
geográfico, sendo destacadas as imagens, as representações que as pessoas ou grupo fazem do entorno espacial, permitindo ao homem fixar imagens de uma área dada e executar os limites dos conhecimentos espaciais.
O arquiteto Kevin Lynch publicou a obra “Imagem da Cidade” em 1960, tendo sido considerado um dos ‘pioneiros’ no trabalho com mapas mentais. Analisou três cidades norte-americanas: Boston, Jersey City e Los Angeles e procurou examinar a qualidade visual dessas cidades por meio do estudo da imagem mental que dela faziam os seus habitantes. Diz Lynch para Bailly33 (1995, p. 158), “fut l’auteur d’une recherche pionnière em urbanisme dans laquelle il a tenté de décomposer la structure de l’image de la ville: “une imagem de l’environnement peut s’analyser à travers trois composantes: identité, structure et signification”34.
Nesta perspectiva, as imagens de uma cidade resultam desse processo bilateral entre o observador e seu ambiente, levando em conta a identidade, estrutura perceptiva e o significado. O observador, por exemplo, seleciona, organiza e confere o significado àquilo que vê, existindo essa variedade de imagens entre observadores diferentes.
A questão geradora de Lynch35 consistiu em saber como os habitantes percebiam a cidade, qual era o papel das imagens ambientais, sendo um estudo pioneiro na utilização dos mapas mentais. Através desse estudo, procurou desenhar um esboço da cidade (mapa mental), descrição detalhada de um número de percursos através da cidade (orientação, percepções: visual, sonora e olfativa e emoções) e dos lugares mais importantes. De acordo com Lynch, o ato de perceber uma cidade não é total, realiza-se no transcurso do tempo, na soma de imagens que o espaço físico transmite e o homem acaba registrando nas sucessivas vivências. A percepção acaba tendo esse caráter não abrangente, mas parcial, fragmentário.
Ainda Lynch, no seu estudo exploratório e com fins de aporte metodológico, se interessou por fazer a aplicação dos conceitos de imaginabilidade (qualidade de poder evocar uma imagem forte em qualquer observador) e clareza ou legibilidade (remete à qualidade visual) nas discussões sobre a cidade. Em sua análise, concentrou-se na qualidade visual específica (CLAREZA OU LEGIBILIDADE) da
33 BAILLY. A.(Org.). op, cit, Paris, 1995.
34 Foi o autor de uma pesquisa pioneira em urbanismo que tentou decompor a estrutura da imagem
da cidade: “uma imagem do ambiente pode ser analisada através de três componentes: identidade, estrutura e significado”. (Tradução nossa).
35 Ibid.
paisagem das cidades, sendo essencial no cenário urbano. De certa forma, Lynch deu ênfase às imagens mentais e às fotografias no estudo sobre a cidade e à recomposição dos trajetos percorridos pelas pessoas.
Outro trabalho de destaque é de Seemann (2003) que trabalhou com mapas mentais e percepção ambiental mostrando o quanto a percepção trabalha com o olhar e o sentir das pessoas e dos grupos nas várias dimensões. Para o mesmo autor, os mapas, como representação simbolizada da realidade, podem ser pontos de partida para a realização de pesquisas.
O mapa mental torna visível os pensamentos, atitudes, sentimentos em relação à realidade percebida, quanto ao mundo da imaginação. Além disso, pode ser um ponto de partida para a construção de outros mapas mentais. A contribuição de Seemann reside nesse enfoque de mostrar que os mapas mentais são formas de comunicação utilizadas para interpretar, analisar e imaginar os conhecimentos ambientais. Como apontado por Seemann (2003), os mapas mentais resultam do produto dos mapeamentos cognitivos, tendo suas diversas formas como desenhos, esboços de mapas ou listas mentais dos lugares de referência que se elabora na construção de um percurso.
Com efeito, muitos estudos contemplaram a contribuição dos mapas mentais, principalmente a partir dos anos de 1970, quando os geógrafos procuraram estabelecer uma ligação entre a percepção com os conceitos geográficos como lugar e paisagem, para fins de conhecimento das atitudes e valores das pessoas sobre o meio ambiente.
Nessa perspectiva, os trabalhos de Tuan36 (1980) adotaram um enfoque humanista ao atribuir o sentido ao lugar, ao estudar as percepções e atitudes ambientais, nos trazendo o conceito de topofilia no qual pressupõe o sentimento de afeição aos lugares. A topofilia assume formas diferenciadas, variando dependendo da amplitude emocional e intensidade, podendo estar relacionada ao prazer visual efêmero, ao deleite sensual de contato físico, ao apego ao lugar pelo caráter familiar e circunstâncias adversas que refletem na evocação do passado, ao orgulho de posse ou de criação. Esse conceito é chave para o entendimento do elo efetivo mantido da pessoa com o lugar.
36 TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente; tradução:
Lívia de Oliveira. São Paulo: DIFEL, 1980.
Tuan evidencia uma concepção de homem como ser biológico e único, mostra que os homens estão bem equipados para registrar variedade de estímulos ambientais, apesar de fazer pouco uso de seus poderes perceptivos. Defende que a percepção se dá através dos sentidos, mas a cultura e o ambiente influenciam na forma de perceber, de formar uma visão de mundo e de desenvolver atitudes em relação ao ambiente encontrado. Ainda, descreve como as características culturais dos diferentes grupos humanos interferem no modo de vida de perceber o ambiente, destacando o papel da sensibilidade biológica humana neste processo perceptivo.
Além disso, há evidência da capacidade humana de criar símbolos, atrelados à percepção através dos sentidos, sendo uma forma de organizar o espaço e o lugar.
Logo, a percepção acontece de forma muito subjetiva e ligando-se ao mundo vivido dos sujeitos.
Por isso mesmo, os sentidos por si só expressam elementos importantes para a compreensão desse elo afetivo do homem com o lugar, mas a linguagem tem seu papel relevante e merece ser estudada com aprofundamento no estudo da poética e das espacialidades. São nas cenas enunciativas, na interação verbal que ocorre a produção dos significados, dos sentidos e signos marcados pela linguagem no interior do espaço perceptual, em especial na cultura amazônica.
Seemann (2003), citando Tuan, destaca cinco funções atribuídas aos mapas mentais: preparam para comunicar efetivamente informações espaciais; ensaiam comportamento espacial na mente; são dispositivos mnemônicos utilizados como recursos para memorizar eventos, pessoas, coisas, localização; atuam como meios de estruturar e armanezar conhecimento e, por último, são mundos imaginários, pois permitem retratar lugares não acessíveis para as pessoas.
Enfatiza Tuan37 a importância dos sentidos humanos (mecanismos biológicos) como traços comuns nos estudos da percepção, havendo a predominância da visão por obter informações muito mais precisas e detalhadas sobre o meio ambiente. Todavia, os mapas mentais são tidos como “cartas subjetivas” que permitem aos indivíduos não somente destacar os elementos visuais, mas valorizar aspectos significativos encontrados na leitura do espaço. É preciso perceber que o mapa mental tem sua grande importância no entendimento do espaço vivido das pessoas.
37 Ibid.
Para Kozel38 (2009), os mapas mentais se constituíram a partir da percepção e representação de imagens mentais e são textos dialógicos. Sua ênfase abre novas perspectivas de estudos na geografia cultural humanista nesta interface com a linguística. Os mapas mentais se tornam uma possibilidade metodológica de conhecimento da diversidade humana no espaço, uma vez que através deles pode-se perceber aspectos relevantes do espaço e dos lugares vividos pelas pessoas, contêm saberes sobre os lugares que só quem vive neles pode ter e revelar”.
Nogueira39 (2001) analisou ainda a experiência dos comandantes de embarcações do Amazonas, levando-os a produzirem os seus próprios mapas mentais. A partir da valorização do trajeto percorrido por eles, procurou entender como se dava o conhecimento espacial e a geograficidade dos comandantes a partir das informações apontadas nos mapas mentais, visando à construção de uma Geografia do lugar, vendo-a como saber concebido e interpretado por quem nele vive. O trabalho de Nogueira se aproxima do tema investigado, sendo um dos poucos trabalhos encontrados e voltados aos sujeitos das embarcações na Amazônia.
A nossa opção metodológica está alicerçada no aporte teórico-metodológico de Kozel (2007; 2009), construído com base na contribuição da Teoria Enunciativa da Linguagem de Bakhtin, e se volta para a utilização dos mapas mentais como formas de linguagem que colaboram no desvendar das intersubjetividades, valores e significados dos sujeitos da pesquisa.
Nos capítulos seguintes dar-se-á destaque para as correntes epistemológicas da geografia nesse diálogo com a linguística e filosofia, de modo a contextualizar melhor os autores que alicerçam o arcabouço teórico da tese.
38 KOZEL, S. As linguagens do cotidiano como representações do espaço: uma proposta metodológica possível. In: 12º ENCUENTRO DE GEÓGRAFOS DE AMÉRICA LATINA:
CAMINANDO EM UMA AMÉRICA LATINA EN TRANSFORMACIÓN, 2009, Montevideo, Anais.
Montevideo: Universidad de la República, 2009, CD-ROM. ISBN: 978-9974-8002-8-1.
39 NOGUEIRA, A. B. Percepção e Representação Gráfica: A Geograficidade nos mapas mentais dos comandantes de embarcações do Amazonas. Tese (Doutoramento em Geografia), Universidade de São Paulo, 2001.
CAPÍTULO II
REFERENCIAL TEÓRICO: DIFERENTES ENFOQUES NAS ABORDAGENS GEOGRÁFICAS
Barco Recreio no rio Madeira
“Eu tinha um encantamento pelo rio Madeira. Agora a gente, às vezes, não se encanta mais. Esse ano surgiu muitas praias grandes e a gente se encantava muito quando via vários animais. Isso me encantava muito, não vejo mais essas riquezas”.
Lopes, 45 anos Barqueiro e prático