• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 7 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

7.2 As relações entre as Vigilâncias e o Saneamento

O presente estudo, além de confirmar fundamentos do pensamento teórico sobre os efeitos positivos de intervenção de saneamento na saúde e vida das pessoas, traz como componente novo o panorama traçado pelo próprio usuário. Tornam-se cristalinos os benefícios trazidos com a implantação do Sistema Adutor na comunidade estudada, demonstrando também uma boa percepção dos usuários quanto à relação do processo saúde e saneamento, bem como certo conhecimento dos mecanismos de transmissão de doenças de veiculação hídrica.

Entretanto, mesmo considerando e confirmando a existência dos benefícios, as respostas dos usuários levantam questões que devem ser consideradas pelas autoridades que atuam nos órgãos de Saúde Pública deste País, tais como: respeitar os costumes locais e investir pesado na educação ambiental, reforçando hábitos simples, como lavar o depósito que usa para transportar água para o consumo, ou ainda filtrar a água para beber. Estimular a participação comunitária, principalmente nas ações ligadas à promoção da saúde, como realizar consultas médicas periódicas e rotineiras, e não

“ somente quando necessário” .

Alem do mais, O Governo deve considerar a necessidade de complementar suas ações no campo da Saúde, buscando proteger não somente parcelas da comunidade, mas todos, com os benefícios do acesso à água potável no interior do seu lar, com critério técnico: instalação de rede interna no domicílio das pessoas. Com isso, reduzir-se-iam as intercorrências e contaminações provenientes da manipulação inadequada do transporte e acondicionamento de água para consumo humano.

É visível que, com a possibilidade da intermitência do Sistema de Abastecimento de Água, quer por derivação, quer na busca do chafariz, há perigos de contaminação e risco de disseminação de doenças de veiculação hídrica, pela procura de outras fontes de abastecimento e armazenamento inadequado de grandes quantidades de água, que se transformam em potenciais criadouros de vetores. São ocorrências simples que podem se transformar em questões de saúde pública.

O fortalecimento dos processos democráticos e da cidadania brasileira, aliado à crescente implantação do SUS, que traz como norteadores os princípios de eqüidade, universalidade e saúde como direito de todos e dever do Estado fornecem o cenário apropriado para se repensarem às práticas de Saúde Pública, dentre elas a Vigilância.

A Vigilância em Saúde, porém, apropriou-se tanto dos conceitos do Modelo Médico-Assistencial Privatista, quanto do Modelo Sanitarista (Teixeira et al.48). A aplicação desses Modelos contribuiu para se ter uma Vigilância em Saúde compartimentalizada em suas várias facetas: epidemiológica, sanitária, ambiental, saúde do trabalhador e outros. Com diversos sistemas de informações, que, por vezes, não se

“ falam” e não interagem, os dados e resultados gerados, muitas vezes, não são aproveitados pelos demais atores do processo, pois se tem um ambiente de interatividade e articulação baixas, quase sem trocas de informações. Nessa visão da Vigilância, o cuidado com a saúde do indivíduo confunde-se com o cuidar do processo do adoecimento. Tal visão apresenta, também, estrutura verticalizada e centralizadora,

sem a participação da população e dos diversos tipos de controle difuso, o que traz como retrato uma atuação sobre um conjunto de doenças sem trazer a saúde proposta.

Em busca do desenvolvimento da visão de saúde do indivíduo, da comunidade, do meio ambiente e de suas relações, o processo brasileiro de construção do SUS busca incorporar o conceito de Vigilância da Saúde, ampliando os horizontes da Vigilância em Saúde (Waldman 9).

A Vigilância da Saúde tem como sujeito: a equipe da saúde, a população e o meio ambiente. Seus objetos de estudo são: os danos, os riscos, as necessidades, e os determinantes dos modos de vida e saúde (condições de vida e de trabalho).Tem como meios de trabalho as tecnologias de: comunicação social, planejamento e programação local situacional, médicas e sanitárias. Apresenta como forma de organização: as políticas públicas saudáveis, as ações intersetoriais, as intervenções específicas (de promoção, prevenção e recuperação da saúde) e as operações sobre problemas e grupos populacionais (Teixeira et al.48).

Tem-se então que a Vigilância da Saúde, modelo ideal, procura ver o indivíduo como um componente do ambiente, em constante interação social, como ator de um mundo globalizado. A saúde é definida como modelo de complexidade e como tal deve ser considerada.

Nos seus processos decisórios prevalecem à discussão, o diálogo, a troca de idéias, a construção de mecanismos cíclicos, com retroalimentação interna e externa.

Essa concepção contempla, fortemente, o controle difuso, tendo como exemplos os Observatórios da Saúde e a Ouvidoria do SUS, considera os métodos tradicionais da Área de Saúde e faz uso de métodos antropológicos, sociais, e holísticos, mudando, assim, o enfoque das políticas, do planejamento público e da Sociedade Civil, e das ações, da doença para a saúde do indivíduo, do meio ambiente e da comunidade, como um todo e de forma integral (Teixeira et al.48).

É transparente a necessidade urgente de aplicação prática dos conceitos e estratégias da Vigilância da Saúde, sua implementação constitui em elemento essencial para incremento da promoção à saúde, e avanços significativos, tanto qualitativos, como quantitativos, dos Setores de Saneamento e Saúde em busca da implementação das diretrizes do SUS. E mesmo o incremento nas ações da Vigilância Sanitária, Ambiental e Epidemiológica, principalmente as de monitoramento, fiscalização e promoção.

E para a Funasa fica claro o seu papel importante no financiamento das ações e na implementação de ações complementares que necessitam ser direcionadas e articuladas com os demais Setores de Saúde e Saneamento, para que alcancem os

objetivos a que se propõem alcançar. O componente de aplicação de recursos em Programas de Melhorias Domiciliares, tanto as que se destinam a suprir as questões de ausência de esgotamento sanitário, quanto as que possibilitam a universalização e eqüidade no acesso à água potável, deve ser priorizado frente à relevância que representa para os avanços na Saúde Pública local.

Mediante isso, entende-se que esses atributos devam ser fortalecidos no exercício da missão da Funasa, com a alocação de recursos para Projetos de Saneamento em Programas específicos, com fontes de financiamento e formas de acesso aos recursos definidos, visando ao atendimento de populações rurais. Ademais, a Funasa deve investir mais na formulação de políticas de saneamento voltadas para a eliminação da exclusão social, assim como na supervisão técnica, durante e depois do financiamento, e, ainda, na educação ambiental e no controle sanitário dos Sistemas de Saneamento Básico.

Documentos relacionados