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As rendas do Mosteiro

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Em sua Regra monástica, São Bento escreve em distintos capítulos, alguns versículos sobre as necessidades de conseguir recursos financeiros em um mosteiro beneditino. Ele afirma que esta obrigação deve ser do abade da comunidade.

No 2º capítulo intitulado Como deve ser o abade, São Bento versa sobre os recursos do mosteiro:

E para que não venha, porventura, a alegar falta de recursos, lembrar-se-á do que está escrito: “buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo”, e ainda: “Nada falta aos que o temem”. (BENTO, 2008, cap. 2, 35 – 36,

grifo nosso)

Para Collart (2011) nesse trecho da Regra, São Bento explica que a vida espiritual deve estar acima da vida terrena no mosteiro. E que o abade deve primeiro se preocupar em cuidar das “almas” em que lhe foram confiadas. E como consequência de um bom trabalho espiritual, a justiça divina se encarregaria de mostrar os caminhos para se conquistar os recursos para viver no plano terreno.

Vejamos, então, como a comunidade beneditina de Olinda, durante os anos de 1778 até 1786, sob a liderança de seu abade, se adaptou a essa realidade, quanto à busca por recursos materiais para o sustento do Mosteiro.

A declividade do terreno em que se localiza o Mosteiro de São Bento de Olinda não proporcionava o sucesso da agricultura de subsistência. E também no século XVIII, a produção de cana de açúcar ainda era a principal atividade econômica de Pernambuco. Assim, os monges beneditinos adquiriram propriedades rurais fora do âmbito do mosteiro como estratégia de sobrevivência adequada ao contexto econômico da região.

De acordo com o Livro de Estado que analisamos, pudemos verificar os usos de propriedades rurais e de escravos para prover renda financeira para a comunidade, conforme mostramos abaixo:

Achou nos nossos Engenhos açúcar de várias qualidades que deram onze caixas...

Achou o Mosteiro desempenhado e desembaraçado de dívidas... Achou os Monges providos de seus provimentos costumados, menos [...] da Presidência. Tão bem os Escravos na forma do costume...

(ARQUIVO ECLESIÁSTICO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA, 1778 – 1780, fl. 03, grifo nosso)

Logo, uma das estratégias utilizadas pelos beneditinos do mosteiro de Olinda para prover renda, no período colonial, foi a compra de engenhos. A posse de engenhos, nesse período, revela a adaptação da Regra de São Bento feita pelo o grupo em relação às atividades econômicas praticadas na região no século XVIII.

Lose (2008, p.07) explica que:

as propriedades beneditinas do Brasil colonial, compostas pelos engenhos, fazendas destinadas à lavoura de subsistência e à criação de gado, bem como olarias, foram fundadas para custear as atividades dos respectivos mosteiros.

A partir de duas listas da renda do Mosteiro, no início do último triênio de Frei Miguel Arcanjo, podemos observar certa diversidade de renda da comunidade, conforme mostramos abaixo:

Recebeu da Sacristia setecentos e trinta e seis mil e cento e oitenta réis...736$180 Recebeu de açúcar cativo aos gastos de dezesseis contos duzentos e oitenta e seis mil, quinhentos e sessenta e hum réis...16:286$561 Recebeu de aluguéis de casas, um conto, quinhentos e quarenta e sete mil, novecentos e quarenta réis...1:547$940 Recebeu de [...] dos novos chãos duzentos e setenta e oito mil, trezentos e setenta réis... 278$370

[...]

Recebeu de maneio da nova Fazenda Jaguaribe: cinquenta e um mil, duzentos e oitenta réis... 51$280 Recebeu de maneio do novo Engenho de Mussurepe: setecentos e cinquenta e cinco mil, novecentos e quarenta réis...755$940 Recebeu de meneio do novo Engenho de São Bernardo: seiscentos e setenta e três mil, cento e vinte réis...673$120 Recebeu de maneio do novo Engenho de Goitá: quinhentos e trinta e cinco mil quatrocentos e quarenta réis...535$440 Recebeu de foros de N. P. S. Bento: cento e dez mil trezentos e quarenta réis...110$340 Recebeu da Ourivesaria que nos paga El Rei: duzentos e setenta mil réis...270$000 Recebeu de dívidas velhas que cobriram: cento e dezenove mil oitocentos e cinquenta réis...119$850 Recebeu de Extraordinários: um conto, cento e noventa e quatro mil, trezentos e quinze réis...1:194$315 Recebeu da nova Ferraria: quinhentos e trinta dois mil, duzentos e trinta réis... 532$230 Recebeu das novas Fazendas do Sertão: seiscentos e noventa e seis mil réis... 696$000 Recebeu de Cal das novas Fazendas de Jaguaribe: setenta e cinco mil cento e oitenta réis...75$180 Recebeu de meneio da nova fábrica de farinha: dezoito mil trezentos e sessenta réis...18$360 Soma os recibos de depósito:...24:534$469

(ARQUIVO ECLESIÁSTICO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA, 1783 – 1786, fl. 2 – 3, grifo nosso)

Podemos identificar nessas duas listas, possibilidades de rendas do mosteiro em um dos períodos em que o Abade Frei Miguel Arcanjo assumiu o governo trienal (1783 a 1786) da comunidade.

O levantamento documental que Lose (2008) realizou sobre as propriedades rurais dos monges beneditinos de Olinda no século XVIII identificou que “[...] neste período os beneditinos possuíam as seguintes propriedades rurais em Pernambuco: o engenho Mussurepe, o engenho Goitá, o engenho São Bernardo e a Fazenda de São Bento de Jaguaribe” (LOSE, 2008, p. 7 – 8).

Contudo, de acordo com a documentação analisada, os beneditinos de Olinda, além dessas propriedades citadas acima, possuíam também mais duas propriedades rurais no Sertão pernambucano. Ao descrever a situação em que deixara as propriedades dos engenhos Mussurepe, Goitá, São Bernardo e Jaguaribe, o Livro de Estado (1778 – 1780) de Frei Miguel Arcanjo assim o faz:

Riacho Luz, São João no Sertão.

Estas fazendas ficam na mesma forma em que se receberão existindo um casal de escravos com quatro filhinhos e com mais um moleque por nome Bernardo que foram de lá tirados, e mudados para os Engenhos para evitar o grande consumo que davam no gado daqueles currais.

Ficam presentemente nos ditos currais doze escravos: e são menos sete dos que recebeu.

As duas fazendas que administra o Padre Pregador Frei José do Desterro e do zelo deste Monge, espera o Mosteiro maior utilidade não obstante ter sido tão grande a seca naquele Sertão que Reduziu o gado da Fazenda de São João parte das cabeças q tinha.

(ARQUIVO ECLESIÁSTICO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA, 1778 – 1780, fl. 61, grifo nosso)

No Livro de Estados do período de 1778 até 1780, também encontramos outras estratégias de obtenção de renda, além dos recursos adquiridos com as propriedades rurais. Conforme mostra a documentação a seguir:

Conta do Senhorio presente

Achou de alcance em depósito noventa, e sete mil, vinte e dois Reis, os quais vão recebidos no titulo dos alcances passados

Recibo depósito

Que recebeu da sacristia quatrocentos sessenta e nove mil e seiscentos Reis (469$600)

Que recebeu de açúcar cativo aos gastos, dez contos, quinhentos, setenta e seis mil, novecentos, trinta, e sete Reis (576$937)

Que recebeu de Alugueis de casas novecentos, setenta mil seiscentos, e quarenta Reis (970$646)

Que recebo de foros das terras [...] cento onze mil, setecentos Reis (111$700)

Que recebeu do maneio da Fazenda de Jaguaribe, quarenta e um mil cento e quarenta (41$140)

Que recebeu do maneio do nosso Engenho Mussurepe cento e noventa e nove e quinhentos (199$500)

________ 12.369$517

(ARQUIVO ECLESIÁSTICO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA, 1778 – 1780, fl. 05, grifo nosso).

E até nas propriedades rurais não eram realizadas apenas a produção de açúcar. Carréra & Suaya (2008), desenvolveram uma pesquisa sobre as estruturas do Engenho de Jaguaribe, propriedade que pertenceu aos monges beneditinos de Olinda entre os séculos XVI ao XIX. Atualmente as terras pertencem ao Município de Abreu e Lima (2008, p.02)

Na documentação histórica desta propriedade foram encontradas informações sobre várias unidades construtivas, tais como: uma capela, a casa dos monges e senzalas; uma olaria, onde se fabricavam telhas, tijolos e louças de cerâmica; um engenho de farinha de mandioca; produzia-se sal; cultivavam-se mandioca, arroz, feijão e milho. Além de todas essas atividades produtivas, os beneditinos também possuíam, nesta propriedade, um dos principais fornos da cal desta época, conhecido como Forno da Cal de São Bento.

Com base nessas documentações apresentadas, concluímos que além da renda advinda dos engenhos de açúcar, os monges beneditinos de Olinda adquiriram recursos financeiros também com aluguel de casas, com atividades sacramentais, ofícios de ourivesaria, a venda de farinha, e também a venda de produtos de olaria e ferraria. Esses dados certificam que a comunidade que residia no mosteiro, no período de nossa análise, gozava de boa renda para o sustento da mesma.

Mesmo com a Regra que orienta que os monges façam do mosteiro um lugar que possua tudo, e que suprisse as necessidades e auxiliasse para a sobrevivência, a comunidade de Olinda possuía várias propriedades distantes do Mosteiro, que eram geradoras de rendas para a comunidade.

Assim, concluímos que o Mosteiro de São Bento no final do século XVIII não era auto-sustentável. Desviando-se, assim, do que orienta a Regra de São Bento.

No documento Download/Open (páginas 110-114)