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4 ENCONTRO COM OS JOVENS

4.4 AS RODAS DE CONVERSA

No grupo, ocorrem processos que não são percebidos nas entrevistas individuais. O compartilhamento de uma dada situação ou experiência contribui para que os sujeitos se sintam mais à vontade para formular suas respostas e comentar suas experiências. Gaskell (2002, p. 76) sintetiza em três as características centrais da entrevista de grupo: a sinergia que emerge da interação social – em outras palavras, o grupo é mais que a soma de suas partes –, a possibilidade de observar a dinâmica/processo do grupo e o envolvimento emocional que ocorre nessa ocasião.

participação coletiva em torno de uma determinada temática, momento em que é possível dialogar com os sujeitos que se expressam e escutam seus pares e a si mesmos por meio do exercício reflexivo. Portanto, trata-se de um espaço de troca e de formação. Um dos seus objetivos é o de socializar saberes e implementar a troca de experiências, de conversas, de afetos e de conhecimentos entre os envolvidos, na perspectiva de construir e reconstruir novos conhecimentos sobre a temática proposta na roda (WARSCHAUER, 2002). Como instrumento de encontro com os jovens, as rodas de conversa fomentaram a abertura a possibilidades de sua realização para além das paredes de uma sala.

Os horários livres para participar das rodas de conversa eram exíguos. Após as 16h impossibilitariam a participação dos jovens que não moravam no Município, por isso os horários eram normalmente aqueles em que poderiam descansar ou se alimentar. Dada essa realidade, sempre carregava um pequeno lanche na bolsa.

Apostando nos encontros em grupo e na importância destes para os jovens, inicialmente planejava realizar uma roda de conversa com jovens dos primeiros, segundos e terceiros anos, seguindo os preceitos legais e éticos da pesquisa com seres humanos, isto é, assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelos responsáveis e pelos jovens com mais de 18 anos, e os quesitos técnicos e tecnológicos usualmente relacionados à “coleta dos dados”: sala sem ruídos para a gravação de imagem e áudio. Nesse formato, foi realizada a primeira roda de conversa com os jovens do terceiro ano, com duração de 1h45min.

Enviei mensagem por whatsapp antes da primeira roda de conversa, o que surpreendeu alguns jovens. O objetivo inicial era agradecer o aceite e lembrá-los do encontro, mas aproveitei a oportunidade e inseri a primeira pergunta do roteiro:

Ei, bom dia!

Obrigada pelo aceite para a roda de conversa. Iniciando nosso bate papo: Qual imagem/música/poesia você utilizaria para explicar o que é estudar em tempo integral? Envie por aqui mesmo. Até mais!

Ao final dessa primeira roda de conversa, alguns jovens sugeriram que as seguintes fossem realizadas fora de uma sala, em ambientes diversos. Assim, reconfigurei a

proposta inicial das rodas em formatos não tão “enquadrados” e, muitas vezes, mais convidativos para os jovens, formatos que atenderiam plenamente a proposta ético- política de escuta da pesquisa, e, ainda, o que considerei mais importante para os jovens, no local que quisessem e em que se sentissem mais à vontade: embaixo das árvores do campus, em salas de aulas vazias, no corredor do último andar, próximo ao ginásio, na grama, no espaço de apoio onde almoçavam, no espaço em frente à cantina... Portanto, somente uma das rodas de conversa foi gravada em áudio e vídeo; as demais foram, às vezes, somente gravadas em áudio, e em todas houve o registro no diário de campo.

Inspirada na aprendizagem poética de Manoel de Barros (2010, p. 64-65), anotava tudo.

Anoto tudo. Se encontro um caracol passeando na parede, anoto. Uma coisa vegetal que nasce no abdômen de um muro, anoto. Falas de bêbados e de crianças. Resíduos arcaicos pregados na língua. Pedaços de coisas pendurados no ralo. Os relevos do insignificante [...].

Passei a registrar com voracidade no diário de campo com receio de que algo me escapasse, o que me trouxe como consequência uma tendinite leve que me levou a mesclar o diário de campo escrito com um diário de campo em áudio, decisão que proporcionou uma imersão e uma aprendizagem diferente.

No decorrer das observações, das rodas de conversa e da constante análise das narrativas das cartas, delimitei aqueles jovens com os quais faria uma entrevista individual. Realizei entrevistas individuais com quatro deles: um jovem e uma jovem moradores de república, um jovem marmiteiro e um jovem residente na cidade.

No processo da pesquisa, foram consultados e analisados (a) documentos relacionados ao Ifes e ao campus: Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), Projetos Político-Pedagógicos do Curso Técnico em Agroindústria (PPCAGRO) – em tempo parcial e em integral –, Projetos Político-Pedagógicos do Curso Técnico em Administração (PPCADM) – em tempo parcial e em integral –, documentos e plataforma do Sistema Acadêmico da Coordenadoria de Registro Acadêmico (CRA) do campus; (b) documentos relacionados aos jovens-alunos: Política de Assistência Estudantil do Ifes, Regulamento da Organização Didática (ROD) da Educação

Profissional Técnica de Nível Médio (versões 2011 e 2016) e Código de Ética e Disciplina do Corpo Discente do Ifes (CED) (versões 2011 e 2016); e (c) documentos relacionados às políticas educacionais do Governo Federal, em especial as do ensino médio: LDB, PNE (2014-2024), MP n.º 276/2016 e atual Lei n.º 13.415/2017. Dada a preocupação com a garantia da eticidade da investigação, todos os sujeitos participantes do estudo foram informados sobre a pesquisa e a todos foram garantidos confidencialidade e anonimato. De posse dessa informação, alguns jovens escolheram utilizar nomes fictícios, outros, o próprio nome. Ainda foi ressaltado o direito à liberdade de não participarem do estudo, se assim o desejassem, e, por fim, de desistirem da participação em qualquer momento da pesquisa.

Aos pais/responsáveis foi enviado um TCLE (APÊNDICE E). Todavia considerei condizente, em se tratando de uma pesquisa com jovens, que também estes fossem consultados (APÊNDICE F) sobre a possibilidade ou não de participação. Desconsiderar o aceite do jovem seria um contraditório ao discutido nesta investigação. Ademais, é fundamental um vínculo de confiança entre pesquisadora- sujeito e sujeito-pesquisadora, porque se parte do princípio de que “[...] uma pesquisa é um compromisso afetivo, um trabalhar ombro a ombro com o sujeito da pesquisa” (BOSI, 1994, p. 31).

À instituição foi apresentado um Termo de Autorização para a realização da pesquisa (APENDICE C), com vistas a garantir os aspetos éticos e legais da investigação.