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O “Mostra Cariri das Artes” 65 aconteceu nos dias 12 a 20 de novembro de 2004, e na sua programação esteve incluída a “Mostra de Tradição Popular”, apresentando grupos de cultura popular diariamente no horário das 18 às 20 horas, na Praça da Sé, onde em frente localiza-se a Igreja Matriz, no Crato.

Havia na praça um grande palco com toda estrutura de som e iluminação. O palco tinha a frente voltada para a igreja. Um espaço era destinado para a plateia assistir de pé aos espetáculos. Do lado esquerdo do palco, no chão da praça, havia uma miniestrutura montada, incluídos dois microfones e uma corda apoiada em cavaletes de mais ou menos um metro de altura, desenhando um círculo a ser utilizado também como lugar para apresentações. Poucos grupos fizeram uso do palco: os Penitentes de Barbalha-Ceará, os Caretas de Triunfo- Pernambuco, o Mestre Bule Bule, da Bahia, e o grupo Chau Pife, de Alagoas. Todas as apresentações, como maneiro-pau, bandas cabaçais, reisados, dança de coco, rabequeiros, violeiros e lapinhas se ofereceram ao público no espaço traçado pelo círculo de cordas no chão da praça. O público amontoava-se ao redor, esticando-se para ver, e respeitando as crianças, todas com lugar garantido na frente, quantas chegassem. Os brincantes e a plateia pareciam tão irmanados que a conversa corria junto com aplausos, risos e abraços entre gente amiga que há muito não se via. Entre eles, apreciavam-se uns aos outros. Alguém mais entusiasmado transgredia a corda e já no meio do grupo ali brincava, para ser cordialmente retirado pelo pessoal da organização, e convidado a se pôr além da corda.

Aparentemente, aquilo tão misturado era como uma desordem, bem diferente dos moldes formais de apresentações artísticas produzidas para teatros ou auditórios. Porém, no espaço da praça o espetáculo gera uma sociabilidade semelhante ao convívio no espaço da feira. O brincante não parece ser um mito, e sim, um personagem conhecido a agregar em si um sentido, revelando indícios de experiências comuns, cuja história se iniciou nas feiras livres, nos moldes como essas feiras se realizam nas cidades interioranas do Ceará e os folguedos faziam-se presentes, ou na brincadeira “rua acima rua abaixo” nos dias de Reis. Ali, no espaço demarcado no chão da praça para apresentações dos folguedos em fragmentos e sequenciados pela programação, os tempos se misturam a testemunhar memória do passado ainda viva no presente, a despertar identificações aos valores e costumes, orientadores de visões de mundo.

Há na experiência de brincante, de tocador de banda, uma peculiaridade a diferenciá-los dos artistas não considerados de cultura popular. Nas conversas por nós gravadas, é recorrente os mestres afirmarem uma apresentação no palco como uma representação; já o termo brincadeira é referido por eles para designar um momento de festejo, em lugares concedidos para a festa durar a tempo de haver encontros, conversas, enquanto a “tocada” se desenvolve, revezando integrantes, e também folguedos, pois muitas vezes juntavam-se num mesmo festejo brincantes de reisado, maneiro-pau e banda cabaçal. O festejo terminava por vezes quando a barra do dia se ergue no horizonte.

Na sociabilidade da cidade, onde ganham visibilidade após os processos migratórios dos anos de 1970 terem separado esses brincantes de sua comunidade de vizinhança, mestre Raimundo Aniceto refere-se constantemente às apresentações da sua banda cabaçal nos palcos ou ruas da cidade como um momento que para ele significa o cumprimento de uma função: “[...] ali o nosso regulamento é a parte folclórica, a gente faz ali, ai depois vamos tocar.” Conforme podemos supor, existe um tempo e um espaço distintos entre essas duas práticas – a de representar, quando se refere a apresentações em eventos e cortejos de rua, e a de tocar, quando o motivo permite o desenvolvimento de suas “tocadas” em momentos de festejos entre os brincantes. Esta distinção de sentido apenas pode ser compreendida pelo desenho da história, mediada por suas formas específicas de sociabilidades entre eles.

O palco é uma maravilha; a gente tem aquele prazer de satisfazer muita gente. Às vezes chega numa hora que a gente tá quase acabando aí um chega e diz – ô rapaz, ô, eu queria ver vocês. Aí pronto, a gente já vai é descendo, aí a gente fica com aquilo dentro da gente, ô, a gente podia tocar mais outra pra agradar esse companheiro. [...] Talvez que a gente tocando três, quatro dia, talvez a gente não volte pra primeira tocada que nós toquemo anteonte, viu, que a gente cada vez mais é acabando uma e chegando outra, que a gente nem se lembra mais donde começou, que a gente tem muita, muita tocada. [...] na tocada a gente não pára não, é acabando uma coisa e tocando outra. (Mestre Raimundo Aniceto, dez. 2005, grifo nosso).

Nós já fizemos também umas três vezes representação com aquele Hermeto Paschoal, né. É uma maravilha, é bom demais, viu. A gente não ganha nada mas só aquele prazer que a gente tem de o povo gostar da gente, porque acha bom mesmo. (Mestre Antônio Aniceto, dez. 2004, grifo nosso).

Em janeiro de 2005 o dia de Reis não passara despercebido na cidade do Crato. À hora marcada os brincantes e seus folguedos deveriam comparecer à praça ao lado da igreja do Bairro Pinto Madeira, antigo Barro Vermelho, a leste da cidade. Ali deveriam se preparar para o cortejo. Os reisados, as bandas cabaçais, lapinhas, danças do coco, os grupos de maneiro-pau, todos desfilariam pelas principais ruas da cidade para marcar o fim do período natalino. A comissão da Secretaria de Cultura do Município, juntamente com a Fundação de

Folclore Mestre Elói estavam à frente, organizando o desfile. Aos moldes de uma parada militar o cortejo passou pelas ruas. À frente do cortejo, um carro de som anunciando a

passagem do que um dia fora uma andança festiva, uma música de fundo e alguns anúncios de patrocinadores intercalavam a fala do locutor.

Tudo parecia mesmo um momento de encenação do espetáculo folclórico, a se exibir a uma plateia, cujo comportamento é modelado pela noção de quem não pode ou não deve interferir no evento ali desenvolvido. Há uma invisível demarcação entre brincantes e espectadores. Em pouco mais de vinte minutos, os grupos percorreram o trajeto previsto pela organização do evento. Em seguida, se dividiram: uma parte ficou na Praça Siqueira Campos, localizada bem em meio às ruas do comércio; a outra parte seguiu para a Praça da Sé, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha. Nas praças, lhes foi dado um tempo e um espaço para representarem suas peças, um de cada vez.

Aos moldes de uma parada militar, a apresentação em cortejo impressionou menos pelas simbologias representadas pelos grupos do que pelo significado impresso àquelas manifestações culturais: a aceitação naturalizada pelo senso comum segundo a qual os grupos participantes do cortejo representam as tradições da cultura popular da região do Cariri, e, por tal legitimidade, é que ocupam as ruas em determinadas ocasiões na condição de patrimônio cultural do lugar. Com o atributo de patrimônio, resultante em parte do trabalho dos folcloristas, os grupos se integram à comunidade, como sujeitos sociais guardiões de um saber tradicional a estabelecer a diferença entre os mestres e brincantes do cortejo e os outros que se postam a olhar sua passagem.

Certamente nem tudo ali naquele cortejo ou nas apresentações nas praças às quais nos referimos se caracterizava como um momento de celebração. Os grupos de reisados apresentaram apenas parte da peça que tem a função da despedida, pois o tempo para exibição era limitado. Isso, por si só, já seria suficiente para anunciar ter algo se modificado substancialmente na comemoração do dia de Reis, quando se realizavam nos terreiros dos sítios e nas ruas da cidade durante todo o dia.

Recorremos ao uso do termo “espetacularização” para definir o processo de apropriação das tradições populares de cultura por agentes externos que tentam enquadrá-las no formato de um espetáculo o qual pressupõe um roteiro prévio, porquanto lhes era imposto um dado espaço e tempo para sua execução no palco, o que, via de regra, foge à dinâmica interna própria das brincadeiras. A “espetacularização” pressupõe, a nosso ver, finalidades outras, distintas do sentido e do contexto de relações nos quais essas tradições ganham vida própria. Estaria pois, no palco, um fragmento de práticas culturais cujos praticantes estão

apartados dos seus observadores. As trocas simbólicas estabelecidas durante a representação são insuficientes se consideradas do ponto de vista da sociabilidade que possibilita a dinâmica pelas quais as tradições se perpetuam e se refazem.

Como observado, a participação dos folguedos populares nos eventos da cidade ocorrera em conformidade com a “mudança dos tempos”. A apresentação dos grupos de folguedos ocupara as ruas da cidade na condição de patrimônio cultural da região, na sua significação de representações folclóricas. Interessante ressaltarmos a resposta de mestre Antônio Aniceto à nossa indagação se haveria reisado esse ano de 2015 no Crato: “Olhe, reisado como antigamente não vai ter, porque faz tempo não teve mais. Aqui no Crato não; só se for no Juazeiro, lá todo ano é o dia todo os reisado tirando esmola na rua.” Diante de sua resposta nós argumentamos termos ouvido no rádio o anúncio de que haveria comemoração do dia de Reis no Crato, saindo da praça da Estação. Ao que mestre Antônio observou: “Minha filha, é o desfile, esse vai ter, de tardinha, mas ali, é só para passar”. A seguir, as Figuras 18, 19 e 20 são ilustrativas desse fato:

Figura 18: Cortejo Folclórico nas ruas do Crato - Dia de Reis

Fotografado por Lúcia Helena de Brito. Pesquisa de campo, Crato-CE, 6 de janeiro de 2005. Cortejo dos grupos de culturas populares em desfile nas ruas do Crato. A fotografia ilustra o desfile, organizado em formato de “pelotões”, por modalidade de brincadeira. - Ali, é só para passar... , como afirmou mestre Antônio Aniceto.

Figura 19: Cortejo Folclórico nas ruas do Crato - Dia de Reis

Fotografado por Lúcia Helena de Brito. Pesquisa de campo, Crato-CE, 6 de janeiro de 2005. Cortejo dos grupos de culturas populares pelas ruas do Crato.

Figura 20: Cortejo Folclórico nas ruas do Crato - Dia de Reis

Fotografado por Lúcia Helena de Brito. Pesquisa de campo, Crato-CE, 6 de janeiro de 2005. Cortejo dos folguedos nas ruas do Crato. Passando ao lado da Praça Siqueira Campos.

No documento Plano de Mudanças,66 o então governo, gestão 1987-1991, preconiza o desenvolvimento sustentável para o Ceará, prometendo dar ênfase à questão social e à interiorização do desenvolvimento econômico nas áreas rural e urbana.

O capítulo 6 do Plano de Mudanças trata da cultura em suas diferentes áreas. Em relação à cultura popular, o texto atribui ao folclore a expressão de nossas raízes históricas, ao perceber nelas a presença de etnias branca, índia e negra. Credita às manifestações do folclore um caráter de originalidade e constata no seu diagnóstico a ausência, por parte dos órgãos públicos de cultura, de ações dirigidas à “preservação dos grupos folclóricos.” Segundo entende, um dos obstáculos para a dinamização e difusão de trabalhos nessa área é o número reduzido de casas de espetáculo, a inexistência de um cadastramento e de uma regularidade de programações culturais.

No capítulo 7 o plano trata do Desenvolvimento Econômico Setorial, enfocando a modernização da agricultura. Ao mencionar este capítulo, não tencionamos discuti-lo, mas apenas ressaltar o item 7.5, o qual estabelece diretrizes para o “Fortalecimento do Turismo”, uma delas, constante como prioridade do governo, é criar uma infraestrutura para viabilizar o turismo como atividade econômica.

Na região do Cariri, as festas religiosas e romarias, o artesanato e o folclore, a arquitetura e os eventos programados, como festivais, feiras e exposições, são considerados potenciais turísticos, além das belezas naturais. “Promover campanha educativa, visando criar uma mentalidade turística na população”, “apoiar a cultura local através do estímulo às manifestações folclóricas, artesanais e artísticas”, “tombar e preservar os atrativos naturais e culturais de interesse turísticos” são algumas das diretrizes67 traçadas desde 1987, e que, de um modo ou de outro, ganharam visibilidade com as ações de governos subsequentes.

Como parte da referida infraestrutura, inclui-se a construção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em 1996, e todo o projeto de desenvolvimento, promoção e difusão que se propõe a fazer. Numa política de interiorização da cultura e da arte no Ceará, tal construção torna-se um ícone deste projeto. Foi lá, nos seus variados palcos, que assistimos a inúmeras apresentações de grupos folclóricos de regiões interioranas. O Cariri sempre se faz presente, representado também por seus ícones do folclore local.

Outro ícone é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, que, através da sua 4ª Sessão Regional, em parceria com a Universidade Regional do Cariri - URCA, implanta na região do Cariri o Inventário Nacional das Referências Culturais-INCR,

66 Estado do Ceará. Plano de Mudanças. Governo Tasso Jereissati 1987-1991. 67 Id. Ibid. 7.5.4. Diretrizes (p 134)

cujo objetivo é selecionar bens culturais para seu registro como patrimônio cultural do Brasil. Chamado Projeto Piloto, esta ação do IPHAN tende a inscrever diversas manifestações no referente aos bens culturais imateriais. Estes, por sua especificidade mutante, esclarece Paiva (2004, p.15), “são protegidos pela figura jurídica do registro, que pode ser feito em um dos seguintes livros”: I - Livro do Registro dos Lugares; II – Livro de Registro das Celebrações; III – Livro de Registro dos Saberes; IV – Livro de Registro das Formas de Expressão.

Mencionamos, ainda, a criação do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará - COEPA, pela Lei nº 13.078, de 20 de dezembro de 2000, a qual contempla tanto os bens patrimoniais materiais, como os imateriais. A Lei nº 13.351 estabelece o Registro dos Mestres da Cultura Tradicional Popular, que prevê a seleção anual de doze mestres de cultura popular, guardiões do saber da cultura tradicional popular de determinada localidade.

Vale ressaltar o seguinte: no dia 21 de junho de 2004 foram entregues os doze primeiros títulos de Mestres da Cultura no Ceará. Desses, nove são da região do Cariri, mais especificamente, três do Crato, quatro do Juazeiro do Norte, um de Barbalha e um de Milagres.

De modo geral, as ações da política cultural de Estado voltadas para a preservação e revitalização dos folguedos baseiam-se no seu reconhecimento como memória e identidade da cultura popular cearense.68 Vistos como “patrimônio cultural imaterial”, a preservação dos folguedos populares tem como objetivo “conhecer, reconhecer, preservar, promover e revitalizar manifestações, saberes, usos e costumes identificados com as nossas matrizes culturais.” (Plano Estadual da Cultura 2003 - 2006, Governo do Ceará, p. 29).

Ainda de acordo com o plano, o registro de “Mestres da Cultura Popular Tradicional” determina um pagamento de um salário mínimo ao mestre registrado, atribuindo- lhe a função de repassar seus conhecimentos às novas gerações.

68 Plano Estadual da Cultura 2003 - 2006 – “valorizando a diversidade e promovendo a cidadania cultural”.

Governo do Estado do Ceará/Secretaria da Cultura. Fortaleza, novembro de 2003. Este Plano incluiu como meta um “Programa Memória e Cultura” em que focaliza o “Reconhecimento e Revitalização do Patrimônio Cultural Imaterial”; um “Programa de Valorização das Culturas Regionais” e um “Programa de Desenvolvimento Artístico e Cultural” em que está contemplada, entre outras ações, a “Valorização das Tradições Populares”.