DESENCANTOS NA RESISTÊNCIA DOS CANDOMBLÉS
O jornal A Ordem publicou diversos editoriais onde as mulheres apa- recem como categoria da qual os homens dispõem, no sentido de lhes for- necer princípios morais para a boa convivência na família e na sociedade. De maneira geral, as mulheres não figuravam nos artigos e notícias do pe- riódico, à exceção se fazia quando os valores “morais” e “civilizatórios” eram colocados em risco, segundo as considerações dos articulistas. Então, títulos como “A missão da mulher”, “A mulher e a virtude”, “A mulher e o cristianismo” ou “A mulher e a família”, ocupavam longos e disciplinadores editoriais. Na mesma sintonia foi possível encontrar, ocupando não menos espaço na primeira página, muitos artigos denunciando “os crimes da feiti- çaria” e consequentemente as feiticeiras.
Assentado em valores patriarcais, esses textos eram geralmente construídos a partir de uma erudição que reclamava a longa história da civilização e também “tratados filosóficos” de escritores europeus sobre a educação da mulher. Nesses reclames, a mulher era apresentada bela e vir- tuosa, guardiã de desígnios divinos, frágil por natureza, porém soberana no espaço a ela destinado socialmente – o lar. Entretanto, para que pudesse desempenhar a sagrada missão de rainha do lar “conscienciomente”, seria necessário lhes dedicar uma “educação conveniente”303.
Os editoriais eram escritos para as mulheres de uma maneira geral, sem expressa distinção de cor, raça ou classe social. Contudo, diferenças sutis ou mesmo gritantes podiam ser observadas no tratamento que a folha dispensava às mulheres brancas e negras. Isso pode ser notado, por exem- plo, em um dos editoriais sobre a educação da mulher. Este divide a casa entre a família e os serviçais. Quando se refere ao “pessoal” da casa (servi- çais), estes devem ser “bem treinados”, ao contrário da esposa e dos filhos, que devem ser “educados para as ordens do chefe” (marido)304. Por sua vez,
referências mais diretas às mulheres negras figuram em outro espaço da folha – as notícias sobre feitiçarias, crimes e desordens.
303 A ORDEM. 5 mar. 1910. p. 1. 304 Ibid.
No que concerne às mulheres participantes do culto aos voduns e orixás, na maioria das vezes o jornal as trata como prostitutas que viviam em “pândegas e orgias com ogans e pais-de-santo”. Mulheres promíscuas dando mau exemplo “às moças e senhoras de família”305. Os episódios em
que esteve em cena a Ialorixá Judith demonstram um pouco desse trata- mento. Mãe Judith, como já nos referimos, foi uma das ialorixás mais per- seguidas pelo jornal A Ordem. Entre os anos de 1914 e 1923, ela figurou com frequência nas páginas deste periódico. Mãe Judith atuou em cenas que o periódico classificou de “um ultraje a família cachoeirana.” 306
No jornal, ela aparecia como “pontífice” de “torpíssima miséria” que era o “fetichismo africano”. Além disso, ela liderava “um desses covis de degradação a que dão o nome grotesco de pygi”307. Outras mulheres, sacer-
dotisas do candomblé, figuravam nas páginas do jornal A Ordem sob a forma do que chamei aqui de “retórica do fetiche”. Mulheres como Mãe Paulina, Mãe Gertrudes, Mãe Porfíria ou Aleijadinha308, entre outras que aparecem
como o joio em meio ao viçoso trigal da boa sociedade cachoeirana.
Uma enorme preocupação com o crescimento e consequente aproxi- mação das práticas religiosas de matriz africana esteve presente em cada nova notícia contra o candomblé. Os articulistas se preocupavam, sobre- tudo, com a participação da polícia e da “parte sã” da sociedade, principal- mente meninas e mulheres, no que chamavam de “farras negras”. Apesar da menor frequência, nomes de pais-de-santo também aparecem nas de- núncias do jornal A Ordem. Junto com os ogans, são eles os que represen- tam um perigo ainda maior para as moças, como aparece neste trecho de um artigo sobre Mãe Judith:
[...] e muitos outros pygis, antros de ignomínias e perdi- ção, que enxameiam a cidade e nos quais tantas incautas donzelas, umas levadas pelas faliazes promessas dos pais de
terreiro, outras sob a ação narcotizante de estúpidas
beberagens, tem visto perdido o precioso bem de sua vir- gindade.309
305 Para situação semelhante ocorrida em Salvador, ver : Alberto Heráclito Ferreira Filho (1994). 306 A ORDEM. 24 nov. 1017. p. 1.
307 Ibid.
308 Nas notícias de jornal dona Porfíria aparece com o cognome “Aleijadinha”. Gaiaku Luiza esclareceu que D.
Porfíria possuía uma deficiência na perna. Informação fornecida por Gaiaku Luiza Franquelina da Rocha (1909- 2005). 23 nov. 2003.
A julgar pelas notícias do jornal A Ordem, as mulheres constituíam a grande maioria das lideranças dos candomblés de Cachoeira nas três pri- meiras décadas do século XX. Os candomblés, por seu turno, representa- vam para setores letrados locais o “africanismo barato”, “os bródios”, “as orgias”, liderados por mulheres de “baixa candura” e “degeneradas”. Essas mulheres eram representadas como o avesso do ideal patriarcal exaltado nos editoriais da folha.
Os candomblés figuravam nas páginas do jornal como lugares de “sa- tânica promiscuidade com a virgindade incauta de pobres rapariguinhas mal desabrochadas para as misérias terrenas da cidade”310. Amparando-se
nesses argumentos, reitero, o jornal lançou mão de intensa campanha de perseguição aos terreiros, apontando localização, lideranças e “protetores” dos espaços religiosos de matriz africana. Assim, o jornal exigia que a polí- cia reprimisse esses espaços e acabasse com as demonstrações de incivilida- de dos terreiros e de seus integrantes.
Numa batida policial que obteve “sucesso” em 1922, num candomblé próximo ao túnel do ramal da estrada de ferro Central da Bahia, foram presas 13 pessoas, entre elas algumas mulheres:
Entre os feiticeiros presos vieram algumas mulheres tra- jando as vestes características das graduadas dos pigys, de saiote, contas e penacho, as quais, pela manhã, foram des- cidas da sua alta dignidade de sacerdotisas de Ogan para um ligeiro trabalho de faxina, em frente às cadeias da ci- dade, à vista do Público, que teve, com o pitoresco espetá- culo, momentos de agradável deleite.311
O tratamento dispensado a essas mulheres, presas e ridicularizadas pu- blicamente, demonstra, por um lado, o lugar que os responsáveis pela repres- são aos candomblés pressupunham que elas deveriam ocupar, ou seja, o “tra- balho de faxina”. Por outro lado, revela o perigo que essas mulheres, “guardiãs da tradição”, representavam para os ideais de civilidade almejados por seto- res letrados da sociedade cachoeirana312. O terreiro e suas mulheres eram
310 A ORDEM. 9 set. 1922. p. 1. 311 A ORDEM. 9 set. 1922. p. 1.
312 Para Achile Mbembe, o signo da tradição definiu os africanos e seus descendentes como tendo identidade
própria, ontológica, marcada nos costumes, e que não podia ser apagada, mas, ao contrário, deveria ser inscrita numa ordem desigual e hierarquizada, ou seja, numa posição de inferioridade natural que justificaria a discrimi- nação ou a segregação. Ver: Achile Mbembe (2001, p. 3-4).
representados no sentido inverso do discurso daqueles que se autodenominavam como a parte sã da civilizada e heróica cidade de Cacho- eira. Esses setores reconheciam, mas não admitiam a “alta dignidade” que o candomblé proporcionava aos seus participantes, oferecendo uma dimensão espiritual, material e estética de vida e resistência às adversidades.