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4.1 DAS STRUCTURAL INJUCTIONS ÀS MEDIDAS ESTRUTURANTES

4.1.3 As structural injuctions e as bases para o processo estrutural

O panorama ilustrado anteriormente serve como base inicial para a compreensão do objeto de estudo, qual seja, as medidas estruturantes e o processo estrutural em si. Assim, apoiado nos casos trazidos, buscar-se-á compreender as características do procedimento estrutural, em sua concepção original. Isto é, como fora pensado o processo estrutural, quando formulado no direito norte-americano.

123 VIOLIN, Jordão. Holt v. Sarver e a reforma do sistema prisional no Arkansas. In: ARENHART, Sérgio Cruz; JOBIM, Marco Félix (Org.). Processos Estruturais. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 303-352.

124 No processo em questão o "special master" foi chamado de "compliance coordinator", sendo nomeado após a consolidação de um acordo entre as partes, em 1978, que buscava a solução de 39 problemas específicos, com a função de acompanhar a implementação de medidas, além de sugerir eventuais alterações para melhor cumprimento do acordo. VIOLIN, Jordão. Holt v. Sarver e a reforma do sistema prisional no Arkansas. In: ARENHART, Sérgio Cruz; JOBIM, Marco Félix (Org.). Processos Estruturais. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 303-352.

125ARENHART, Sérgio Cruz. A tutela coletiva de interesses individuais: para além da proteção dos interesses individuais homogêneos. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 374; e VIOLIN, Jordão. Holt v. Sarver e a reforma do sistema prisional no Arkansas. In: ARENHART, Sérgio Cruz; JOBIM, Marco Félix (Org.). Processos Estruturais. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 303-352.

58 A partir da análise em especial das decisões dos Tribunais estadunidenses, em especial as proferidas no caso Brown v. Board of Education, pensou-se numa nova fórmula de processamento, que serviria para combater as ameaças a garantias constitucionais, praticadas por organizações burocráticas estatais, a partir de sua reconstrução. Para isso, denominou-se de "structural reform" esse novo modelo de procedimento, o qual seria campo fértil para a aplicação das "structural injuctions"126.

Owen Fiss foi o precursor no direito americano do que se tem atualmente por processo estrutural, estabelecendo como premissa inicial a ideia de que o Poder Judiciário de seu país dotava de provimentos jurisdicionais tradicionais, os quais não comportavam, de forma apropriada, a solução de certos conflitos, de modo que propôs a introdução de mais três: o preventivo, o indenizatório e o estrutural127.

A "structural injunction" teria a missão de reorganizar instituições existentes, a ponto de reinseri-las dentro dos limites constitucionais, isto é, impedir que determinada organização prossiga com constatadas violações a valores constitucionais, buscando a mudança de postura - ou a própria reestruturação da entidade -, possibilitando um comportamento que atenda aos preceitos ditados na Constituição128. O objetivo do processo estrutural, portanto, é reestruturar certas instituições para readequá-las a uma nova realidade social, e não reestabelecer o status

quo, como o é no procedimento "convencional"129.

Assim, a partir dessa ideia inicial, e analisando os conflitos judiciais norte americanos, tendo como exemplos os anteriormente tratados, determinou-se como "função social" do processo estrutural a atribuição concreta de sentido a princípios constitucionais, os quais passam a adquirir uma nova identidade, demandando a reestruturação de certos órgãos, com o intuito de readequação a essa nova realidade130.

126 FISS, Owen M. Two Models of Adjudication. In: DIDIER JUNIOR, Fredie; JORDÃO, Eduardo Ferreira (Org.). Teoria do Processo: panorama doutrinário mundial. Salvador: Juspodivm, 2007. p. 761-767.

127 FISS, Owen M. The Civil Rights Injuction. 1978. Disponível em:

<https://www.repository.law.indiana.edu/harris/7>. Acesso em: 10 out. 2018. p. 7. 128 FISS, Owen M. The Civil Rights Injuction. 1978. Disponível em:

<https://www.repository.law.indiana.edu/harris/7>. Acesso em: 10 out. 2018. p. 11.

129 FISS, Owen M. Two Models of Adjudication. In: DIDIER JUNIOR, Fredie; JORDÃO, Eduardo Ferreira (Org.). Teoria do Processo: panorama doutrinário mundial. Salvador: Juspodivm, 2007. p. 761-767.

130 "The social function of the structural suit is not to resolve private disputes but rather give concrete meaning and expression to our public morality within the context of the bureaucratic state". FISS,

59 Ou seja, a partir da constatação das mudanças de paradigmas culturais, a nova interpretação de valores constitucionais demandaria o ajustamento das práticas questionadas judicialmente131. Nesse sentido, utilizando-se como exemplos os casos já estudados, vê-se que houve mudança na definição do que se entendia pelo direito à igualdade, principalmente na quebra da doutrina "separados, mas iguais", assim como de outros direitos, tais quais o de proibição de penas cruéis, a liberdade, a privacidade, entre outros132.

Essa nova realidade social implicou na necessária readequação das instituições, que só se tornou viável a partir do processo estrutural, ou "structural suit". Porém, o processo estrutural demonstrou possuir características distintas do processo convencional, apontando-se a existência de uma "transformação" do próprio processo judicial norte-americano. Nesse sentido, Owen Fiss propõe mudanças no objeto do processo - já anunciada nesse tópico -, assim como na estrutura das partes, na postura do órgão julgador, bem como na fase executória133.

A relação jurídica processual entre partes e Estado-juiz sofre uma grande interferência. Isso porque, primeiramente, há uma quebra da lógica binária de antagonismo entre autor e réu. A parte demandante se torna um grupo, considerado como a vítima da violação ou ameaça de violação à direitos fundamentais, que não necessariamente está diretamente relacionada com a instituição demandada. Isto é, no caso Brown, a título de exemplo, o grupo de vítimas não eram só os alunos negros impedidos de se matricular em certas escolas, mas toda a população negra134.

Owen M. Two Models of Adjudication. In: DIDIER JUNIOR, Fredie; JORDÃO, Eduardo Ferreira (Org.). Teoria do Processo: panorama doutrinário mundial. Salvador: Juspodivm, 2007. p. 761-767. 131 "Existem alguns momentos em que o novo direito vem encarregado de modificar paradigmas

passados, sendo que é nesse momento que as medidas estruturantes entram no cenário, para, por meio de determinadas ações, conseguir criar condições de possibilidade de esse novo direito ser concretizado". FÉLIX, Marco Jobim. Medidas estruturantes: da Suprema Corte Estadunidense ao Supremo Tribunal Federal. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013, p. 181.

132 FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173.

133 FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173.

134 FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173.

60 A existência de grupos como sujeitos de ação impõe, também, a necessidade de se oferecer uma representação adequada135. Nesse contexto, cabe ao órgão julgador verificar se os interesses dos grupos estão adequadamente representados, de modo que se estimula a multiplicidade de representantes, incluindo-se entre eles os advogados institucionais136.

O demandado - ou os demandados - não é o autor de eventuais atos ilícitos: não se move a ação em face do agente penitenciário que aplicou uma pena cruel, ou contra o membro da escola que rejeitou a criança por sua etnia; mas sim, num contexto de processo estrutural, o polo passivo é preenchido pela burocracia do Estado. Ou seja, a demanda é ajuizada em face da organização estatal, cuja operação - ou existência em certos moldes - ofende ou ameaça direitos constitucionalmente protegidos137.

Ao juiz, por sua vez, é posto o dever de garantir uma ampla estrutura de representatividade138. E a "ampla estrutura de representatividade" não se limita às partes, mas também a "representantes do juízo", isto é, grupos ou organizações que também atuaram no processo não como partes processuais, mas como auxiliares do juízo, tais como a figura do amigo da corte e o "special master"139.

Por fim, a decisão judicial não indicará tão somente vencedores e perdedores. O provimento estrutural apontará qual ou quais práticas devem ser modificadas, introduzidas ou extirpadas. Em outras palavras, demonstrará mudanças na realidade social que tornam incompatível a existência e o funcionamento de determinado órgão público da forma que está,

135 FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173.

136 FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173.

137 FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173

138 "A resposta mais apropriada e tipicamente empregada no contexto estrutural é aquela que atribui ao juiz - geralmente agindo de ofício - a tarefa de construir uma ampla estrutura representativa". FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173.

139 FISS, Owen M. As formas de justiça. In: GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; COSTA, Susana Henriques da (Org.). O processo para solução de conflitos de interesse público. Salvador: Juspodivm, 2017. p. 119-173.

61 em virtude de flagrantes ou potenciais violações a valores constitucionais advindos desse novo contexto140.

Num segundo momento, estipulará, em conjunto com as partes e auxiliares, formas de reestruturar o órgão, para que a ameaça deixa de existir141. Nesse momento, utiliza-se das

medidas estruturantes ou "structural injunctions", em decisões cíclicas e suplementares ("em cascata"), que projetam a eliminação da prática considerada abusiva.

E assim, construíram-se as bases para um processo estrutural norte-americano, que serviu de sustentáculo para a aplicação das medidas estruturantes no processo brasileiro. Em virtude disso, avançar-se-á nos estudos acerca das medidas estruturantes para exemplos brasileiros, de modo a apontar as semelhanças e eventuais disparidades com o norte- americano.