A visão de uma educação de qualidade, que proporciona a formação de alunos e cidadãos competentes no exercício de suas habilitações profissionais, passa inegavelmente pela existência de um processo educacional que os prepare para enfrentar novas situações a cada dia. Da mesma forma, é necessário priorizar a educação motivadora e renovável.
A pedagogia de Freire (1996) evidencia a importância do comprometimento pedagógico do professor com o aluno, não somente transmitindo conhecimentos, mas criando no aprendiz a curiosidade por adquiri-los, por buscar sua própria construção. Nas palavras de Freire, o ato de ensinar não é a ação de transferir a inteligência do objeto ao educando, mas de instigá-lo no sentido de que, como sujeito cognoscente, se torne capaz de comunicar o inteligido.
E para a construir o conhecimento, o aluno precisa ter autonomia, a qual não é produzida de forma individual, isolada, mas sempre em uma relação mediada pela cultura e pelo processo sócio-histórico – em uma relação dialética com as condições objetivas. As pessoas com atendimento educacional especial podem construir essa autonomia, bastando que lhes seja dado o direito de manifestá-la.
Para Sassaki (1997), um sujeito diferente ou com necessidades especiais adquire autonomia quando tem domínio do ambiente físico e social que queira e/ou necessite frequentar.
Já Dewey (1979) afirma que, ao estabelecer conexões com conhecimentos adquiridos no passado, um indivíduo constrói o novo conhecimento. A ideia-chave dessa pedagogia, portanto, é a do aprender fazendo, que envolve ações significativas para o aluno, as quais o possibilitam questionar, problematizar, refletir e desenvolver uma atitude de busca constante do conhecimento.
Nessa concepção, a prática didática de construção da aprendizagem e de saberes aponta para o respeito à diversidade, para o ensino estendido a todos. Logo, é necessário que a sociedade se modifique, repense seu formato educacional, pois só assim conseguiremos alcançar a acessibilidade e a total inclusão.
De acordo com Sassaki (1997), inclusão social é o processo de adaptação da sociedade para a inserção de cidadãos que foram privados do acesso aos seus direitos fundamentais28 nos sistemas sociais. Consequentemente, a inclusão digital refere-se a ações de cunho tecnológico e político desse paradigma em construção, que diz respeito ao desenvolvimento de tecnologias que ampliem a acessibilidade de pessoas com deficiência. Trata-se da democratização do acesso às tecnologias da informação, de forma a promover o desenvolvimento humano, direito pleno de todo cidadão.
28
Direitos reconhecidos e positivados na esfera do direito constitucional positivo de um determinado Estado nacional. No Brasil, descritos no Artigo 5º da Constituição Federal.
Orrico, Canejo e Fogli (apud Glad, 2009) afirmam que as tecnologias e recursos são poderosas ferramentas para favorecer o sucesso na inclusão de alunos com baixa visão ou cegueira no ensino regular, contribuindo para a construção da igualdade de oportunidades acadêmicas.
Ao proporem, através de construções teórico-metodológicas, modos de conduzir eficientemente as práticas educacionais inclusivas, Karagiannis, Stainback & Stainback (1996) assinalam que:
As tecnologias educativas e a inclusão constituem duas realidades presentes na escola de hoje e do futuro. No entanto, falta ainda um longo caminho para que o uso das tecnologias da informação e da comunicação permita promover as tão desejadas práticas inclusivas em contextos de educação formal e não-formal. Quando utilizadas de forma fundamentada e planificada, as tecnologias educativas podem promover atitudes positivas face à diversidade e promover ganhos ao nível acadêmico e social, do desenvolvimento de um sentido de comunidade e das práticas não- discriminatórias, que são as componentes da filosofia inclusiva (KARAGIANNIS, STAINBACK e STAINBACK, 1996, p.4).
Um dos maiores desafios que surgem na utilização dos recursos tecnológicos relacionados às TIC é o despreparo do professorado, decorrente da falta de capacitação e especialização. Estes profissionais enfrentam grandes dificuldades em apropriar-se daqueles recursos e incorporá-los ao seu fazer pedagógico.
Ao discorrer sobre os processos e procedimentos exigidos pelas legislações e conferências mundiais em educação inclusiva, Bergo et al (2002) salientam que:
Um dos pilares para a realização desse processo é a presença de professores, tanto das classes comuns quanto das classes especiais, especializados e capacitados para o auxílio às necessidades educacionais dos alunos. O professor especialista na área da deficiência realiza um atendimento especial com os alunos que apresentam mais dificuldades nas salas de apoio ou salas de recurso, que são salas equipadas com materiais didático-pedagógicos específicos para os alunos com NEE [necessidades educacionais especiais]. O especialista trabalha em cooperação com o professor da classe comum no desenvolvimento de práticas que são necessárias para promover a inclusão dos alunos com NEE (BERGO et al, 2002, 4).
Os autores dizem, de modo subliminar, que não bastam apenas os recursos tecnológicos para se construir uma educação inclusiva eficiente e que produza resultados contextualizados.
As instituições escolares privadas e, principalmente, as públicas, para levar a termo propostas educacionais inclusivas para alunos com dificuldades de aprendizagem de todas as matrizes, deverão dispor de profissionais especializados e garantir que todos compreendam o funcionamento da escola, seu currículo, modelo de gestão e tipo de avaliação preconizada. Assim, poderão direcionar esses saberes à promoção de uma educação apta a minimizar as diferenças e ampliar as possibilidades de aprendizagem das crianças, possuam elas limitações ou não.
Nesse sentido, conforme conclui Schneider,
o desafio da superação das dificuldades de inclusão do aluno com necessidades especiais no ensino regular requer que se ultrapasse as práticas tradicionais e os sentimentos acerca das pessoas com necessidades educativas especiais, realizando a integração, nos âmbitos escolar, laborativo e comunitário, isto é, física, funcional, social e societal, deparando-se sobre a proposta que apresente, na atualidade, possibilidades concretas de promover o processo integracionista, defenda e implante a inclusão dos diversos grupos de alunos com necessidades educativas especiais, na escola de ensino regular (SCHNEIDER, 2003, p.3).
O professor que trabalha na escola pública brasileira enfrenta, em seu cotidiano, inúmeros entraves ao pleno exercício de sua atividade, uma vez que convive, historicamente, com uma realidade de falta de investimentos, baixos salários (que o obrigam a ter mais de um vínculo profissional), políticas públicas não efetivadas plenamente, deficiências quanto à formação continuada, entre outros.
Ao analisarmos como as TAs serão incorporadas ao espaço escolar e ao trabalho concreto do professor junto aos seus alunos com dificuldades especiais de aprendizagem, importa ressaltar o conjunto de ajudas técnicas existentes no mercado e comumente utilizadas no processo de ensino, tais quais: informática acessível; auxílio para cegos ou pessoas com visão subnormal; auxílio para surdos; comunicação alternativa e ampliada (CAA), entre outros.