2 A GENEALOGIA COMO INDICADOR DE PISTAS PARA A PESQUISA
2.4 Problematizando as relações de poder
2.4.1 As tecnologias de poder na soberania e na disciplina
Antes de adentrarmos nas análises de biopoder, propriamente ditas, vamos com Foucault realizar um percurso desde o Regime Soberano, por volta do século XVI, quando a inserção do poder no corpo se dava por meio de suplícios, momentos caracterizados por uma série de espetáculos de torturas públicas, em que a figura do soberano era correspondente à lei e este exercia um poder absoluto sobre a vida. Época do ―fazer morrer‖ ou ―deixar viver‖ (FOUCAULT, 2008f), em que ―O poder era, antes de tudo, nesse tipo de sociedade, direito de apreensão das coisas, do tempo, dos corpos e, finalmente da vida; culminava com o privilégio de se apoderar da vida para suprimi-la.‖ (FOUCAULT, 2007, p. 148).
mutilação do corpo, portanto, tratava-se de técnicas políticas de punição direta do corpo, já que os crimes eram julgados como atentados ao próprio rei. O corpo era inserido em um ritual de tortura, que fazia parte do cerimonial judiciário: ―O suplício tem então uma função jurídico-política. É um cerimonial para reconstituir a soberania lesada por um instante. Ele a restaura manifestando-a em todo o seu brilho [...]‖ (FOUCAULT, 2008f, p. 42). Nesse sentido, seu intuito não era restabelecer a justiça, mas reativar o poder, por meio da tutela do medo.
Na metade do século XVIII, conforme nos reporta Foucault (2008a), reformadores expondo discursos sobre sentimentos humanitários pedem a extinção dessas práticas de suplício. A preocupação dos reformadores em abolir as práticas violentas de punição aplicadas às pessoas teve um caráter muito mais voltado para a eleição de novas estratégias de controle e submissão dos corpos. Era uma tentativa de encontrar dispositivos mais eficientes de controle de delitos, que pudessem servir como modelo para inibir as ações de outros ―não infratores‖, mais do que uma preocupação, de fato, com respeito à vida.
Nesse mesmo contexto histórico, alguns juristas6começaram a questionar as teorias de direito da soberania, já que todo o sistema era centrado no rei, o que lhe dava muitos privilégios, principalmente de dominação (FOUCAULT, 2008a; 2005). Dessa maneira, não houve uma substituição do sistema jurídico-político da soberania, mas uma reorganização, na tentativa de limitar a dominação e suas consequências.
Para o tema que se aborda neste trabalho, esses estudos chamaram muita atenção e provocaram uma inquietação. Em nossa contemporaneidade, quando temos trabalhadores superexplorados, que sofrem diversos tipos de práticas de violência, como torturas, coação, assassinatos, por parte de fazendeiros, ou quando são obrigados a sair de determinadas terras pela Justiça, depois de julgarmos viver em uma sociedade democrática de direitos, será que podemos falar de ―atualizações‖ de práticas de suplícios?
Embora se entenda que poder e violência não são correspondentes pela perspectiva adotada neste trabalho, será que a forma como determinados empresários se apropriam da vida de alguns trabalhadores, lhes privando de seus direitos, não parece uma abertura encontrada para atualizar um poder soberano na sociedade atual? Sobre esse assunto, voltar-
6Vale lembrar que esse processo não foi homogêneo, o que se apresenta aqui é apenas um breve recorte das
importantes pesquisas genealógicas de Foucault nesse sentido. Assim, legitimar, limitar ou justificar o direito soberano, foram elementos que compuseram discursos utilizados como estratégias de luta política e teórica por diferentes grupos em diferentes países, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, como bem demonstrado nos Cursos de 1976: ―Em defesa da Sociedade‖.
se-á a abordá-lo mais tarde prossigamos na passagem não linear para outro modo de estratégia do poder.
Durante os séculos XVII e XVIII acontece uma significativa mudança na tecnologia de poder, ou seja, surge ―[...] a invenção de uma nova mecânica de poder, com procedimentos específicos, instrumentos totalmente novos e aparelhos bastante diferentes, o que é absolutamente incompatível com as relações de soberania‖ (FOUCAULT, 2008a, p. 187).
Emerge aqui uma nova sociedade onde são inventados mecanismos completamente voltados para o corpo, por meio de práticas de incitação à vida, com o objetivo de controlar, vigiar, corrigir e reformar o indivíduo, com a aplicação de dispositivos disciplinares que transformariam esses corpos em corpos dóceis, tão bem explicitados por Foucault (2008f, p. 118-119) em ―Vigiar e Punir‖.
Nesses esquemas de docilidade, em que o século XVIII, teve tanto interesse, o que há de tão novo? Não é a primeira vez, certamente que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõe limitações, proibições ou obrigações. Muitas coisas entretanto são novas nessas técnicas. [...] O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma ―anatomia política‖, que é também igualmente uma ―mecânica do poder‖ [...]; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ―dóceis‖.
Neste resumo de Foucault, ele explicita algumas das características das técnicas disciplinares utilizadas por essa mecânica de poder:
Eram todos aqueles procedimentos pelos quais se assegurava a distribuição espacial dos corpos individuais (sua separação, seu alinhamento, sua colocação em série e em vigilância) e a organização, em torno desses corpos individuais, de todo um campo de visibilidade. Eram também as técnicas pelas quais se incumbiam desses corpos, tentavam aumentar-lhes a força útil através do exercício, do treinamento etc. (FOUCAULT, 2005, p. 288).
Cabe ressaltar que esses procedimentos disciplinares desempenharam um importante destaque na manutenção do capitalismo, uma vez que a sujeição dos corpos e seu desempenho foram aproveitados nos aparelhos de produção, extraindo-se sua força de trabalho e diminuindo ou reduzindo sua capacidade combativa, ao normalizar suas condutas, comparando, diferenciando e homogeneizando os indivíduos-corpos (FOUCAULT, 2007).
Foucault (1979, p. 6) lembra igualmente que esses procedimentos permitiram o delineamento de um novo tipo de objeto, o sujeito, e seu controle por meio da emergência de diversos domínios de saber, que foram possibilitados, dessa forma, com essas ―práticas sociais de controle e vigilância‖, tais como a Criminologia, a Psiquiatria, a Psicanálise, a Psicologia, a Patologia e outras.
São domínios que sujeitam os corpos, ao estabelecerem ―padrões de normalidade‖. A norma, por conseguinte, é um dos principais elementos destacados por Foucault para a eficácia desses procedimentos sutis de sujeição, pois é ela que possibilita que o poder se ramifique em suas extremidades, nas relações sociais, escapando às regras do direito: ―As disciplinas veicularão um discurso que será o da regra, não da regra jurídica derivada da soberania, mas o da regra ―natural‖, quer dizer, da norma; definirão um código que não será o da lei, mas, o da normalização‖ (FOUCAULT, 2008a, p. 189).
Esse elemento irá transitar tanto na disciplina quanto na regulamentação da população, quando mecanismos de segurança são instalados por meio de vários programas de saúde, urbanização, controle da circulação, das riquezas etc., fazendo aparecer, assim, uma nova tecnologia política: a biopolítica (FOUCAULT, 2008e) como se verá abaixo.