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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.2 A educação dos surdos

2.2.2 As Tecnologias digitais como recursos metodológico e

O processo de educação dos surdos e bem como seu processo de exclusão ao longo da história ocorreram em função das formas de organização da vida humana em sociedade e em decorrência dos anseios de uma elite excludente (MOURA, 2000). Atualmente, surge um paradigma diferente, não somente em decorrência da legislação vigente com relação à inclusão dos surdos e da nova forma de organização social, mas também em decorrência dos aparatos tecnológicos, os quais têm propiciado novas formas de interação, aprendizagem e socialização e que, consequentemente, têm acarretado mudanças na forma de pensar e viver em sociedade.

Tomando como base os dizeres de Soto et al. (2009),sobre o fato da relação existente entre o ensino-aprendizagem e a tecnologia não ser algo novo, pois é sabido que em cada época foram criadas diferentes ferramentas, sejam para facilitar ações, ou “transmitir” conhecimentos e/ou instigar ao novo, que acaba por cunhar relações diretas com determinadas práticas sociais. Fala-se de instrumentos criados pelo homem que modificam sua forma de pensar, agir e se relacionar com o próximo, consigo mesmo e com o mundo que o cerca. Desde a pedra lascada, passando pela invenção da escrita, pelo papiro, pelo pergaminho, pelo papel, pela invenção da imprensa e chegando ao computador, tem-se uma gama de inovações tecnológicas relacionadas à educação. Entendendo-se tecnologia como algo que introduz uma ruptura na forma de agir e interagir de um determinado grupo para o contexto dessa investigação, o termo tecnologia representa o computador conectado a internet.

Os avanços tecnológicos, principalmente em informática e redes vêm gerando mudanças culturais e, consequentemente, formas diferentes de aprender e perceber o mundo. Isso implica também no campo educacional e acaba por

exigir transformações nos métodos de ensino e nos sistemas educacionais que decidam fazer uso dela em beneficio do processo de ensino-aprendizagem. (BELLONI, 2002).

Hoje, na sociedade do conhecimento, a escola, como instituição social, tem a função de preparar os cidadãos para o trabalho e para a vida. Isso implica que a mesma não pode ficar à margem do processo de “tecnologização” da sociedade para que não se torne retrógrada, desinteressada e desarticulada da realidade (SAMPAIO; LEITE, 2003).

Belloni (2002) afirma que a alfabetização é fenômeno de inserção, socialização no mundo e interpretação do mesmo. Nesse sentido, a autora utiliza a terminologia “alfabetização tecnológica” e explica que ela se faz necessária para ação crítica junto às tecnologias e formas de comunicação. Com base nesse pressuposto, a escola e seus educadores têm a função de estimular, orientar sobre o uso das tecnologias como ferramentas de interação e aprendizagem. Para tanto, a formação desse profissional da educação deve ser repensada e vista pelo prisma de uma educação formadora de docentes conscientes da realidade, críticos e letrados tecnologicamente.

O uso dos recursos tecnológicos, comunicacionais e informáticos deve ser encarado como uma mudança de paradigma, como possibilidade para docentes e discentes assumirem posturas diferenciadas das atuais frente a construção do seu próprio conhecimento. O uso das ferramentas tecnológicas pelo bel prazer da novidade, sem reflexão crítica desse uso, implica utilizar velhos moldes com maquiagem do novo. Isto é, não basta simplesmente ter sala de multimeios, laboratório de informática, computadores de última geração e internet se o uso pelo uso não tem como pano de fundo suporte teórico e uma metodologia crítica-construtiva para a formação, interação, construção do conhecimento, participação no mundo e na vida social e preparação para o mundo do trabalho.

Belloni (2002) diz que, com relação ao desafio de integrar a tecnologia como processo educacional, a educação deve visar não apenas a aprender sobre o uso da ferramenta como instrumento, mas objetivar, primordialmente, a formação de receptores/usuários críticos e autônomos que, por meio de uma metodologia adequada, sejam capazes de criar suas próprias respostas às tecnologias. Dessa forma, direcionando as considerações supracitadas sobre o uso da tecnologia e voltando para o viés que norteia este investigação, um dos grandes desafios, segundo Oliveira (2010 citado por VICTOR, 2010), está relacionado ao uso das mídias pelos educadores, o que compreende o redimensionamento de práticas educativas, principalmente no que diz respeito às práticas que envolvem não só os alunos ouvintes como também os alunos surdos, foco dessa investigação. A formação de professores e a reflexão crítica acerca do uso das ferramentas tecnológicas devem ser repensadas se o contexto de ensino foge do “padrão” de uma sala de aula composta apenas de alunos ouvintes.

Com relação especificamente à introdução da tecnologia – Internet – no processo de ensino para alunos surdos, Cruz (2004 apud BASSO, 2003) relata sobre uma experiência desenvolvida na UNICAMP em 2000 que aponta as potencialidades da Internet na educação dos surdos. De acordo com ele, a Internet configurou-se como: a) um local de igualdade, onde os surdos sentiram- se aceitos; b) fonte de informação escrita; c) disponibilidade de recursos visuais os quais facilitam a inserção das pessoas surdas; d) ampliação da possibilidade de comunicação (e-mail, chat, etc). Com base nesse estudo, verificou-se grande melhoria nas habilidades de leitura e escrita dos surdos, além, é claro de ter ampliado a possibilidade de interação com outras realidades e culturas diferentes.

Ainda com relação à tecnologia e os surdos, Gianini (2004:4 apud BASSO, 2003) relata que, no ambiente telemático, os surdos tiveram a

oportunidade de dialogar sem a opressão das diferenças. Contudo, tal ambiente se constituiu como um espaço de denúncia do fracasso escolar e da falta da educação dos surdos.

Com base em tais pesquisas, pode-se dizer que a tecnologia utilizada como ferramenta pedagógica aprimorou a escrita dos surdos, pois o interesse pelo correio eletrônico possibilitou, segundo Cruz (2004 apud BASSO, 2003), um avanço gradativo no desenvolvimento cognitivo, na autonomia e na satisfação dos alunos surdos em relação com a comunicação escrita. Nesse sentido, a tecnologia pode ser vista como ferramenta assistiva11.

De acordo com Ramos (2012), tecnologias como o notebook, o tablet e os celulares que permitem o acesso a centrais de intermediação telefônica surdo/ouvinte (escrita/fala/LIBRAS), as mensagens escritas via celular, msn, skype, youtube, orkut e outros recursos de comunicação via internet são considerados como ferramentas assistivas direcionada aos surdos, pois é uma forma de adaptação ao meio ambiente seja usando a escrita, recursos visuais.

Vale ressaltar que para que seja configurada como ferramenta assistiva, tendo em vista as considerações anteriores, dependerá do modo como o docente elabora as atividades; ou seja, dependerá de sua habilidade didático pedagógica para dar aula utilizando tal instrumento. Assim, há possibilidade de ocorrer apenas a digitação de uma atividade para que seja completada pelos alunos (como por exemplo, preencher lacunas, palavras cruzadas, atividade de caça palavras, entre outras, as quais não configuram a ferramenta como ferramenta assistiva) ou confeccionar outras mais elaboradas e direcionadas de forma a

11 A ferramenta assistiva é uma área de conhecimento com característica

interdisciplinar que engloba recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetiva promover a funcionalidade relacionada à atividade e a participação de pessoas com deficiência, incapacitadas ou com mobilidade reduzida, visando a sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (CORDE – Conhecimentos de Ajudas Técnicas – ATA VII, de 14 de dezembro de 2007).

mitigar as limitações dos alunos surdos e, assim, se configurar como demanda a descrição de ferramenta assistiva.

Importante ressaltar que para o contexto dessa investigação, esta habilidade é entendida como o desenvolvimento do letramento digital que, segundo Smith (2002 apud SILVA, 2005), vai além do conhecimento funcional da tecnologia possibilitada pelo computador. Trata-se de conhecimento crítico do uso do computador.

Diante do já exposto sobre a educação dos surdos e o uso da tecnologia na situação de sala de aula, especificamente, como instrumento mediador/facilitador do ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira, faz-se necessário um olhar mais acurado sobre a prática docente. Importante ressaltar que o professor configura-se como o propiciador de todo o processo seja o da inclusão, o do ensino-aprendizagem de Língua Inglesa para alunos surdos e ouvintes e a utilização dos recursos tecnológicos em tais contextos.