O E NSINO A D ISTÂNCIA NA AQUISIÇÃO E APRENDIZAGEM DO PLE
2. As teorias de aprendizagem e o b-learning 1 O construtivismo
A evolução do EaD (cf. Anexos 13 e 14) permite verificar que existe uma influência reciproca entre a forma como esse modelo de ensino evoluiu e o surgimento das teorias de aprendizagem.
Na década de 90, o crescimento da sociedade de informação e do conhecimento tornou mais frequente a partilha e a interação com os pares, reafirmando a necessidade de encarar a aprendizagem como o entrecruzar das dimensões cognitiva social do indivíduo, o que conduz a uma construção do conhecimento. As bases do construtivismo, que procura um compromisso entre as teorias cognitivas e sociais, revelam-se de extrema importância no caso do EaD, pois este tipo de ensino assenta no pressuposto de que os alunos têm um papel decisivo na sua formação, cabendo-lhes a escolha dos seus caminhos de aprendizagem. Neste processo, o contexto em que ocorra a aprendizagem deve ser rico em recursos e oferecer oportunidades de interação.
No âmbito do ensino das línguas, de acordo com uma abordagem comunicativa centrada no léxico, esses contextos deverão corresponder a problemas e situações que os alunos possam enfrentar no seu quotidiano, aplicando os seus conhecimentos linguísticos e as suas capacidades, o que encontra eco na opinião de Jonassen (1998) acerca do ensino ao referir que «since knowledge cannot be transmitted, instruction should consist of experiences that provide interpretable experiences and facilitate knowledge construction». Essas experiências surgem através da aplicação de um modelo de criação de ambientes construtivos de aprendizagem (Construtivism Learning
Environments- CLE) desenvolvido pelo referido autor. Jonassen defende que o
potencial interativo das tecnologias pode e deve ser aproveitado para construir este tipo de ambientes. O processo de ensino deverá basear-se na concretização de projetos, em que os aprendentes são confrontados com problemas do mundo real que têm de resolver (tal como na abordagem comunicativa, as tarefas devem apelar ao que eventualmente os aprendentes poderão enfrentar em situações reais), que devem ser relevantes e envolver uma aprendizagem significativa. A elaboração destes problemas deverá ser muito bem organizada, para que o aprendente tenha de refletir, de se envolver na questão e colocar em prática os seus conhecimentos, conseguindo efetivamente resolver a tarefa. Neste processo o recurso à Internet é uma mais-valia para, juntamente com os seus conhecimentos anteriores, o aprendente construir novo saber. Também as ferramentas multimédia poderão auxiliar no desenvolvimento do projeto, tornando a tarefa mais
52 apelativa, assim como a colaboração com os seus pares através de chats, fóruns e email, contribuindo assim para uma aprendizagem colaborativa. Por outro lado, ao efetuar as suas buscas os alunos correm o risco de se alienarem da tarefa, pois a Internet é uma rede à qual é muito fácil ficar preso. Por isso, cabe ao professor organizar uma espécie de banco de documentos, recursos multimédia ou outras fontes que orientem o aluno, evitando a dispersão. Assim conclui-se que o processo de ensino aprendizagem construtivista deverá ser colaborativo, conversacional, reflexivo, contextualizado (as atividades de aprendizagem têm base em problemas reais), complexo, intencional (os objetivos dos alunos ao resolver o problema devem articular-se com o processo de aprendizagem), ativo, manipulativo e construtivo.
A partir do que foi referido, acentuam-se duas das características inerentes ao construtivismo e, particularmente à aprendizagem construtivista online, nomeadamente a necessidade de estabelecer uma espécie de rede de ligação de conhecimentos e a importância da interação com o objetivo de fomentar a construção do saber. Estas características prendem-se precisamente com a noção de conetivismo e de aprendizagem colaborativa.
2.2 O conetivismo
Com o advento da era digital, o aparecimento da WWW, a sua rápida evolução e a introdução das TIC no ensino, a forma como os mecanismos de aprendizagem são encarados sofrem algumas alterações e surgem novas teorias encetadas pelas Ciências da Computação. Uma dessas teorias foi proposta por George Siemens (2004), que considera que as anteriores teorias de aprendizagem (cognitivismo e construtivismo) não se aplicam completamente à aprendizagem da era digital, porque apenas se preocupam com o processo de aprendizagem e não com o que é aprendido. Isto coloca o problema de os indivíduos permanecerem num mundo que está ligado em rede (sistema de conexões entre entidades), em que a informação é superabundante, havendo a necessidade imperiosa de submeter essa informação a uma análise. Quando a informação era reduzida, o aprendente intrinsecamente conseguia analisar e selecionar o que realmente era importante, mas com a rede o processo de avaliação da informação tem de ser rápido e é necessária a capacidade de reconhecer ligações e sintetizar a informação. Para Siemens (2004) a aprendizagem já não se efetua a partir da experiência adquirida, mas da competência de estabelecer conexões, até mesmo a partir das experiências dos outros. Esta teoria da aprendizagem digital, que defende que o
53 conhecimento está distribuído numa rede de conexões e que, desse modo, a aprendizagem consiste na capacidade de construir essas redes e circular nelas(Downes, 2007), foi designada por Siemens como conectivismo, podendo ser sintetizada nos seguintes pontos: (i) a aprendizagem e o conhecimento baseiam-se na diversidade de opiniões; (ii) aprender é um processo que consiste em ligar várias fontes de informação; (iii) aprender pode não depender das capacidades humanas; (iv) a capacidade de saber é mais crítica do que se conhece; (v) a promoção e manutenção de ligações são necessárias para facilitar a aprendizagem continua; (vi) a capacidade para reconhecer relações entre áreas, ideias e conceitos é central; (vii) a manutenção de um conhecimento atualizado é o objetivo das atividades de aprendizagem conetivistas; (viii) a tomada de decisões é em si um processo de aprendizagem. A escolha do que aprender e o significado da informação recebida está dependente da realidade exterior: o que hoje é, amanhã pode não ser.
Na nossa opinião, apesar de o autor estabelecer uma oposição entre o construtivismo e o conetivismo, que entre outros aspetos se baseia no facto de este não considerar o conhecimento e a aprendizagem baseados na linguagem, eles complementam-se, pois mesmo ao estabelecer redes de conexões, ao selecionar a informação pertinente e ao atualizar-se continuamente, o indivíduo, está a aplicar a sua experiência e a construir conhecimento. Essa construção depende também das relações de colaboração que os aprendentes concretizam com os seus pares, pelo que a ideia da aprendizagem colaborativa17 tem-se revelado importante nestas teorias de aprendizagem. Comummente o conceito refere-se a uma aprendizagem centrada em métodos que encorajam os alunos a trabalhar juntos em tarefas académicas, sendo diferente do modelo de ensino tradicional, em que o professor era o único recurso do saber. A aprendizagem colaborativa é vista como uma construção social, facilitada pela interação, avaliação e cooperação entre pares (Hiltz,1998) «com objetivos e valores comuns, colocando as competências individuais ao “serviço” do grupo ou da comunidade de aprendizagem» (Morgado, 2003:82). Para além de ser uma aprendizagem ativa, baseada na interação e que, consequentemente, envolve o confronto de ideias e o feedback, através das estratégias colaborativas que desencadeia aumenta o
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Neste ponto é necessário efetuar uma distinção entre trabalho colaborativo e trabalho cooperativo que, embora parecendo o mesmo (trabalhar com alguém) a forma como se desenvolve não o é. Assim, utilizando as palavras de Carvalho, 2007:31) dizemos que «numa abordagem cooperativa as tarefas são divididas pelos membros do grupo e são realizadas individualmente, numa abordagem colaborativa as tarefas são realizadas por todos num contínuo de partilha, diálogo e negociação».
54 envolvimento dos alunos nas tarefas, tornando-o mais efetivo e contribuindo para o sucesso dos aprendentes (Hiltz, 1998).