CAPÍTULO II – AS NOVAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC)
2.2. As TIC nas escolas: Contributo para o mapeamento do debate
“As metáforas centrais da relação com o saber são hoje, portanto, a navegação e o surfe, que implica uma capacidade de enfrentar as ondas, redemoinhos, as correntes e os ventos contrários em uma extensão plana, sem fronteiras e em constantes mudanças” (Lévy, 2000: 161).
As tecnologias e a Escola sempre estiveram interligadas. Nas salas de aula há ou houve quadros negros, giz, lápis, canetas, papel em abundância, retroprojetores, mimeógrafos, rádio, cinema, materiais pedagógicos diversos, televisores, videocassetes, DVDs, computadores, internet, lousas digitais ou projetores tridimensionais. A educação, nas escolas, sempre usou a tecnologia como um fator na relação aluno/professor/conhecimento. O problema não reside, por isso, no uso, ou não, da tecnologia na escola, mas no modo como tem sido utilizada e como é que a poderemos utilizar. Não sendo uma problemática inédita, é, hoje, uma problemática urgente com a erupção das TIC no mundo e das operações cotidianas que as mesmas nos possibilitam. Hoje, é necessário reconhecer que os “sistemas educativos estão ainda em um mundo pré-informático” (Lindo, 2014: 634) e esse é um problema com o qual teremos de lidar, podendo considerar-se até que a “incongruência entre a cultura escolar tradicional e a nova realidade é uma das causas do mal-estar nas instituições educativas” (ibidem).
Seja como for, e independentemente desta leitura, há que reconhecer que as TIC, apesar de tudo, deixaram de ser objetos estranhos à Escola e que a sua inclusão nas salas de aula é uma ocorrência que se saúda, havendo cada vez mais publicações (livros, artigos em revistas científicas, artigos em jornais comuns, etc.), projetos de investigação e investimento em programas de intervenção educativa ao nosso dispor. Trata-se de indicadores que merecem uma leitura e uma análise.
Como já o referimos, a escola sempre se apropriou da tecnologia para promover e estimular o processo de ensino e aprendizagem, mas dois eventos básicos ampliaram o uso das TIC na educação. O primeiro evento é que saímos do paradigma das máquinas
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de apoio e ilustração (TV, projetor de slides, som, lousas), para máquinas que permitem a interação e o acesso ao mundo digital (Papert, 2008; Haetinger e Haetinger, 2011). A televisão ajudou imensamente muitos professores e professoras a ilustrar e motivar suas aulas, mas é um veículo unidirecional, sem possibilidade de interação direta. O computador traz um conceito fundamental para educadores: a possibilidade de diálogo que permite promover através das máquinas, de poder fazer, de interagir, de ser efetivamente produtor de conteúdos e procedimentos. Do ponto de vista das suas potencialidades educativas, os computadores oferecem possibilidades que nenhum dispositivo anterior oferecia.
O segundo evento que gostaríamos de referir tem a ver com o fato da nova tecnologia digital nos contribuir para o desenvolvimento da convergência digital. Um computador não é somente um computador: é TV, vídeo, cinema, pesquisa, enciclopédia, rádio, editor de textos, calculadora, é telefone e, dependendo do software utilizado, pode ser o que quisermos, de forma quase ilimitada (Haetinger, 2003; Veen e Vrakking, 2009; Bender, 2014).
Papert (2008), um dos grandes idealizadores e defensores da utilização dos computadores na escola, determina os efeitos desta tecnologia na educação, quando afirma que o “computador é um dispositivo técnico aberto que estimula pelo menos alguns estudantes a avançar seu conhecimento até onde puderem, dando realce ao projeto por meio de uma ilimitada variedade de efeitos” (Papert, 2008: 74).
As tecnologias da informação e comunicação poderiam existir sem o computador, mas nunca teriam a importância que têm hoje nem a influência na formação de centenas de milhares de jovens e crianças no mundo todo. Sancho (2006) afirma a mudança dos comportamentos pelo uso destas novas tecnologias, “Deste ponto de vista, o estudo, a experimentação e exploração da informação, em qualquer área do currículo escolar, melhora imediatamente a motivação, o rendimento e as capacidades cognitivas dos alunos” (Sancho, 2006: 21).
As TICs possibilitam-nos experimentar “novos papéis, novos conteúdos e novos métodos de ensino aprendizagem” (Veen e Vrakking, 2009: 14). As tecnologias atuais derrubam fronteiras e fazem nascer o ser humano mediático e antenado que propiciam oportunidades de aprendizagem que, muitas vezes, são inesperadas no contexto de educação formal. Papert (2008) acredita, a partir de suas pesquisas e publicações ou das experiências com jovens do mundo inteiro, em oficinas e cursos promovidos pelo MIT
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(Massachusetts Institute of Technology), que as interações mediáticas poderão ter um impacto inequívoco nas aprendizagens a realizar pelos alunos nas salas de aula.
Veen e Vrakking (2009), em sua obra inovadora Homozapping, destacam os novos tipos de competências que os meninos e meninas da geração digital poderão desenvolver através das suas atividades de aprendizagem no ciberespaço, são elas:
a) Competências Icônicas, relacionadas com a leitura de imagens, dos ícones, dos sons, dos audiovisuais. As informações são assimiladas de forma mais rápida ou de forma mais dinâmica e motivadora. “As crianças navegam intensivamente pela internet e foram apresentadas a um mundo de multimídia em que toda tela que veem é colorida, tem imagens múltiplas, em geral com som e movimento, tais como ícones piscantes e, é claro, textos” (idem, p.53).
b) Competências relacionadas com a execução de múltiplas tarefas, como capacidade de trabalhar, simultaneamente, com diversos estímulos comunicativos, direcionando a atenção para cada coisa, e estabelecendo momentos de partilha no âmbito deste processo. “Isto dá aos indivíduos a capacidade de processar informação três ou até quatro vezes mais rápido” (idem, p.58).
Siqueira (in Oliveira e Santanna, 2014) destacam, igualmente, outras competências que as TICs podem potencializar no âmbito da Escola, nomeadamente:
“- Habilidades de Processamento da Informação: localizar e coletar informação relevante, ordenar, classificar, sequenciar, comparar e contrastar; analisar relações tipo parte/todo.
- Habilidade de Raciocínio: poder explicar as razões de suas opiniões e ações, tirar interferências e fazer deduções, usar linguagem precisa para justificar seu pensamento e fazer julgamentos apoiados em evidência e justificativas.
- Habilidades de inquirição: saber fazer perguntas relevantes, colocar e definir problemas, planejar procedimentos e investigações, prever possíveis resultados e antecipar consequências, testar conclusões e aperfeiçoar ideias.
- Habilidades de Pensamento Criativo: gerar e estender ideias, sugerir hipóteses, aplicar a imaginação e procurar resultados inovadores alternativos.
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- Habilidades avaliativas: saber avaliar informação e julgar o valor do que lê, escuta e faz; desenvolver critérios para a apreciação crítica de seu próprio trabalho e de outros e ter confiança nos seus julgamentos” (idem, p.4).
Suscitar estas habilidades no dia a dia das atividades em sala de aula não é fácil, principalmente em escolas que ainda cultuam a instrução como método e razão de interação em seus ambientes. O que significa que não basta a utilização das TICs para mudar o que quer que seja, ainda que as TICs possam estimular e facilitar essa transformação pedagógica paradigmática. Se este é um obstáculo a vencer, importa reconhecer que a própria introdução das TICs é, em si mesmo, um outro obstáculo. É uma reação natural da entidade escola face ao desconhecido. A escola lida com a entrada das TICs em um primeiro instante como um “corpo estranho” (Papert, 2008) e tenta combatê-lo, mas agora não tem outra saída além de “digerir e assimilar” (idem) a entrada dos novos dispositivos tecnológicos nas salas de aula.
Em suma, a escola tem muito a beneficiar com a incorporação das TIC nas salas de aula, o que obriga, no entanto, a reformular práticas que permitam que as escolas se transformem em espaços de interação dos alunos com outros alunos, com documentos, imagens, músicas, etc. As próprias Nações Unidas defendem esta possibilidade quando o seu departamento para a Educação, a Ciência e a Cultura mostra que o uso de novas tecnologias na construção de currículo tem impacto direto e indireto sobre o desenvolvimento social e econômico. As novas tecnologias são percebidas como um catalisador para a mudança no ensino e aprendizagem de estilos diferentes, e acesso à informação. Argumenta-se que o uso das tecnologias em sala de aula beneficia o aluno/a a ser capaz de aprender as competências relacionadas com tarefas reais de sala de aula (Chigona, Chigona e Davids 2014: 1).
Pierre Lévy (2000), por sua vez, ilustra os níveis de interação que podemos observar em cada dispositivo tecnológico e sua relação com as mensagens ou conhecimentos. Lévy sintetiza as TICs e seus impactos no processo de comunicação que dão o suporte fundamental ao ato educativo: a interação e a mensagem.
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Tabela 01 – Sobre os diferentes tipos de interatividade (Lévy, 2000: 83).
Relação com a mensagem Dispositivo de comunicação Mensagem linear não-alterável em tempo real Interrupção e reorientação do fluxo informacional em tempo real Implicação do participante na mensagem Difusão unilateral Imprensa
Radio Televisão Cinema Bancos de dados multimodais Hiperdocumentos fixos Simulações sem imersão nem possibilidade de modificar o modelo Videogames com um só participante Simulações com imersão (simulador de voo) sem modificação possível do modelo. Diálogo
Reciprocidade Correspondência postal entre duas pessoas. Telefone Videofone Diálogos entre mundos virtuais Diálogo entre vários participantes Rede de correspondência Sistema de publicações em uma comunidade de pesquisa Correio eletrônico Conferencias eletrônicas Teleconferência ou videoconferência com vários participantes Hiperdocumentos abertos acessíveis on-line, frutos da escrita/leitura de uma comunidade Simulações (com possibilidade de atuar sobre o modelo) como de suportes de debates de uma comunidade RPG multiusuário no ciberespaço Videogame em realidade virtual com vários participantes Comunicação em mundos virtuais, negociação continua dos participantes sobre suas imagens e a imagem de sua situação comum
Trabalhar com as TICs na escola, requer, então, um novo educador que tenha algumas qualidades fundamentais nestes novos tempos, como destaca Haetinger (2003):
“(a) Escutar mais, (b) aprender a aprender, (c) gostar de pesquisar, (d) ser curioso não em sua área especifica apenas, (e) entender e aceitar as opiniões e ações dos alunos, (f) reciclar-se constantemente, (g) participar, (h) planejar coletivamente, (i) falar menos e
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por final (j) tornar-se observador do mundo e de sua sala de aula, ou seja, estar sempre de olhos abertos.” (Haetinger, 2003: 33).
É importante destacar que o uso das TICs permite modificar não só o ambiente como o próprio desenho das aulas, defendendo-se que “as TICs podem ser utilizadas como recursos pedagógicos com a finalidade de ser fonte de informações ou tornar as aulas mais dinâmicas e atrativas (Oliveira e Santanna, 2014: 4).
Seja como for, o que se constata, é que, hoje, cada vez mais alunos, professores e escolas estão convivendo neste universo. “Os adolescentes e adultos jovens atuais passam, por semana, 50 horas ou mais em contato com mídias digitais, enquanto apenas 30 a 35 horas semanais são passadas em ambientes escolares” (Bender, 2014: 73). Aumenta, cada vez mais, o número de aplicativos e software utilizados na educação e, assim, também aumenta a capacidade de trabalharmos de forma mais dirigida em alguns temas antes nunca explorados de forma mais concreta em classe (idem). Os conteúdos podem ser trabalhados a partir de simulações e as redes sociais utilizadas podem assumir um papel decisivo no cotidiano das salas de aula. (Haetinger e Haetinger, 2011). É que
“a tecnologia atual, as opções de jogos e simulações são quase ilimitadas. Recomenda- se que os professores considerem todos os jogos e simulações disponíveis em sua área de conteúdo, bem como reflitam sobre os tipos de atividades que poderiam atrair o interesse dos alunos” (Bender, 2014: 78).
Temos, hoje, ao nosso dispor, do ponto do universo que as TICs configuram, um manancial de opções e possibilidades educativas cuja importância não se pode menosprezar. Tal como temos vindo a afirmar de forma reiterada, as TICs, por si só, não mudam a escola, já que é o modo como podemos utilizá-las que permite entendê-las como um instrumento transformação educativa (Sandholtz, Ringstaff e Dwyer, 1997). Isto é, como um instrumento que poderá permitir que cada aluno seja protagonista no âmbito do processo de construção dos saberes, em que se envolve, assim como poderá facilitar a possibilidade de cada um aprender ao seu ritmo e tendo em conta a pessoa que é. Para além disso, pode constituir-se como um dispositivo ao serviço da construção de comunidades de aprendizagem (Trindade & Cosme, 2013) e, igualmente, como dispositivo capaz de apoiar a afirmação da autonomia intelectual dos sujeitos, o que
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pressupõe que poderá facilitar as possibilidades de auto e heteroreflexão e de tomadas de decisão relativamente ao programa de estudos e de trabalhos a seguir. Neste sentido, estamos longe quer do propósito circunscrito que associa as TIC à existência de uma enciclopédia moderna ampliada ou à procura de um eficientíssimo que, muitas vezes, é incompatível com o propósito da promoção de aprendizagens significativas.
Não se poderá, por isso, dissociar a reflexão sobre a introdução das TIC nas escolas da reflexão sobre as condições que são necessárias para que estes contextos educativos rompam com a instrução como modo de ação pedagógica. Daí que se deva ter em conta o que Papert (2008) afirma quando defende que
“Meu argumento paradoxal é que a tecnologia pode apoiar uma megamudança na educação tão ampla quanto a que vimos na medicina, porém em um processo diretamente oposto ao que conduziu às mudanças na medicina moderna. A medicina mudou, tornando-se cada vez mais técnica em sua natureza; na educação, a mudança virá pela utilização de meios técnicos para eliminar a natureza técnica da aprendizagem na escola” (Papert, 2008: 64).
Este é um depoimento muito interessante que abre as portas a um outro, da autoria de R. Trindade, o qual considera que
“a utilização pedagógica das TIC tanto pode ‘servir velhos modos de fazer’ (Pinheiro, 2012: 7) como pode contribuir para ampliar as possibilidades de partilha, de interlocução, de descoberta e de formação, sabendo-se que são as intenções, os pressupostos e os conceitos curriculares que modelam os ciclos didáticos e pedagógicos onde as TIC se enquadram que determinam o seu potencial pedagógico” (Trindade, 2014: 230).