3.2 A transferência de valor em função da propriedade do capital
3.2.2 As transferências por rendas de monopólio
A entrada de capital estrangeiro nas economias dependentes, seja direta ou indiretamente, potencializa a própria dependência à medida que a tecnologia incorporada nos capitais fixos é monopolizada e, por isso, abre uma nova forma de transferência de valor: o pagamento de royalties, aluguéis de equipamentos e serviços técnicos:
Na verdade, a indústria manufatureira dos países dependentes se apoia em boa parte no setor de bens de capital dos países capitalistas avançados, por meio do mercado mundial. Por consequência, essa indústria manufatureira é dependente não só em termos materiais, no que se refere aos equipamentos e maquinaria enquanto meios materiais de produção, mas também tecnologicamente, ou seja, na medida em que deve importar também o conhecimento para operar esses meios de produção e,
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eventualmente, fabricá-los. Isso incide, por sua vez, na relação financeira com o exterior, dando lugar aos pagamentos na modalidade de royalties ou assistência técnica, que constituem outros tantos fatores de transferência de mais-valia, de descapitalização (MARINI, 2012, p. 27-28).
A conceito de ciclo do capital é chave para compreender que a dependência não é, como queriam os estruturalistas, simplesmente um elemento “externo”, mas que a relação entre países imperialistas e países dependentes se “internaliza” nestes últimos, implicando na tecnologia utilizada, na relação entre setores da economia, na prevalência de classes sociais específicas na estrutura do Estado, nas características do processo de trabalho, entre outras características. Como o próprio conceito sugere, o ciclo do capital é um processo reiterativo que tende a se perpetuar como tal, aprofundando-se, enraizando-se na economia dependente. Assim, a transferência de valor devido à importação dos meios de produção, assim como de técnicas e conhecimentos para operá-las, é um dos elementos constitutivos da estrutura econômica da dependência, na medida em que a burguesia latino-americana necessita dessas condições materiais para sua reprodução (LEITE, 2017, p. 260).
A dependência tecnológica da periferia em relação aos países imperialistas chamou a atenção de diversos autores já mencionados por nós ao longo deste trabalho. Além de Marini, já citado, Caputo e Pizarro já atentavam, na década de 60, para o processo de monopolização das tecnologias estratégicas por parte das transnacionais dos países imperialistas, dando origem a um desenvolvimento setorial profundamente desigual entre centro e periferia:
A empresa multinacional mantém controle absoluto sobre o processo de inovação e utilização de tecnologia e, mais importante, controla-o nos setores estratégicos da economia, tanto interna quanto externamente. Apesar desta situação, há uma transferência tecnológica para setores não estratégicos das economias dependentes, que se manifesta no uso de patentes e não constitui uma importante transferência de tecnologia, no sentido de que não vai para os setores-chave da economia. Entretanto, devido à natureza privada da tecnologia, o centro dominante pode obter uma renda significativa com o arrendamento de suas patentes, sem um custo significativo, pois não há fluxo de capital a partir do centro. Além disso, esta forma de transferência de tecnologia permite à empresa central assegurar importantes mercados de matérias-primas através de acordos de patentes, sendo uma das formas pelas quais ocorre a desnacionalização industrial dos países dependentes (CAPUTO E PIZARRO, 1971, pp. 26, tradução nossa).
Em Breda (2015), analisamos detalhadamente o atual processo de monopolização dos conhecimentos e das tecnologias estratégicas do paradigma eletroinformático131, e ficou claro que não há nada parecido a um processo de democratização do conhecimento e das tecnologias. Pelo contrário, o que se observa é um reforço da concentração das tecnologias estratégias na tríade EUA-Europa-Japão, sendo a única novidade, o que não é pouco, o surgimento da China na disputa pela hegemonia em setores tais como a computação de Big Data, a Inteligência Artificial, a robótica e a biotecnologia.
A questão teórica de maior relevância que surge do monopólio da tecnologia de ponta é sua classificação, ou não, como renda. É importante notar que não nos referimos, neste momento, às vantagens que o monopólio de uma tecnologia pode propiciar em termos de produtividade na concorrência intercapitalista, mas sim da possibilidade de violação da lei do valor através de um estabelecimento permanente de preços acima do valor, ou de um direito de apropriação de uma parte do valor produzido socialmente pelo simples fato de ostentar a propriedade de tal ou qual método, técnica ou produto mais avançado. Trata-se de uma fixação do mais-valor extraordinário.
Afirmamos que se trata de uma apropriação gratuita devido ao caráter eminentemente acumulativo e social do conhecimento, independentemente de que esteja materializado em uma técnica específica. Assim, cada novo avanço da ciência e da tecnologia, seja incremental ou revolucionária, só é possível devido ao acervo científico existente até o momento, o qual é produto do gênero humano. Do ponto de vista do valor, o tempo de trabalho utilizado para produzir um conhecimento ou técnica nova torna-se insignificante se diluído no universo de mercadorias produzidas a partir dessa nova descoberta. O software, como mercadoria, talvez seja o melhor exemplo: seu custo de reprodução é praticamente zero, a quantidade reproduzida é elevadíssima. O preço elevado de um produto desse tipo só pode ser mantido através de um artifício: a monopolização dessa “força social” que é a ciência e suas aplicações. Por esta razão, acreditamos que se deve tratar esse mecanismo de apropriação de lucros extraordinários como
renda monopólio, ou, como alguns autores definiram, como renda tecnológica132. Não há, com
131 BREDA, D. Dependencia tecnológica y acumulación del capital: América Latina en el paradigma electroinformático. Tesis de maestría. Tutor: Jaime Osorio Urbina.UNAM, Facultad de Filosofía y Letras, 2015. Ver, sobre o tema, o capítulo 4.
132 As rendas tecnológicas são superlucros derivados da monopolização do progresso técnico – isto é, de descobertas e invenções que baixam o preço de custo de mercadorias mas não podem (pelo menos a médio prazo) ser generalizadas a determinado ramos de produção e aplicadas a todos os concorrentes devido à própria estrutura do capital monopolista: dificuldades de entrada, dimensões de investimento mínimo, controle de patentes, medidas cartelizadoras, e assim por diante”(MANDEL, 1982 [1972], p. 135)
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a adoção dessa categoria, nenhum abandono da teoria do valor, como já deixamos claro mais de uma vez ao longo deste trabalho.
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A revisão do debate sobre intercâmbio desigual e demais formas de transferências de valor neste capítulo é a antessala para a aproximação empírica a que procederemos no capítulo final. Queremos deixar claro, antes de seguirmos adiante, que nossa revisão não aspirou a um esgotamento de todos os pontos de vista, e tampouco a uma conclusão definitiva das controvérsias sobre as formas de transferência de valor, muitas das quais ainda permanecem abertas. Diante das várias escolhas possíveis em relação ao andamento deste trabalho, optamos primeiramente por recuperar as contribuições mais importantes, as que estabeleceram os alicerces do debate.
Em segundo lugar, procuramos apresentar as contribuições da teoria marxista da dependência sobre o tema, tanto para sistematizar as ideais dos diversos autores quanto para ressaltar que a transferência de valor é, para essa tradição teórica, um elemento explicativo central, uma característica fundamental, da explicação sobre o lugar da periferia latino-americana da divisão internacional do trabalho capitalista. Voltaremos a essa última questão no capítulo 4, onde as categorias expostas nos capítulos 2 e 3 serão utilizadas para guiar uma aproximação empírica à transferência de valor na economia brasileira em anos recentes.
Após a revisão do debate sobre a transferência de valor e suas formas e sobre a inserção da América Latina e do Brasil na divisão internacional do trabalho contemporânea – inserção que se dá através do padrão exportador de especialização produtiva –, no presente capítulo avançamos na proposição de metodologias para uma aproximação quantitativa aos fluxos de transferência de valor no Brasil, entre 2000 e 2015.
A esta altura do texto, depois de termos passado por longos debates teóricos, é prudente retomar o fio das hipóteses que organizam este trabalho, a fim de torná-las presentes para o leitor que dedicará sua atenção aos dados expostos a seguir. Nossa hipótese principal é a de que o atual padrão de reprodução do capital, exportador de especialização produtiva, que vigora atualmente no Brasil tende a ampliar as transferências de valor a que está submetida a economia do país, como economia dependente que é. A centralidade da transferência de valor como elemento característico da dependência já foi debatido no capítulo 2. A ideia de que o atual padrão de reprodução exacerba aquelas possibilidades de transferência justifica-se: i) pela regressão industrial observada no Brasil desde a década de 1990, fato que caminha lado a lado com a crescente importância do setor primário exportador na balança comercial; ii) pela crescente estrangeirização da economia a partir do aumento investimento direto e do investimento em carteira, ambas as tendências derivadas da abertura produtiva e financeira neoliberal; e iii) pela manutenção, em seus aspectos fundamentais, das políticas macroeconômicas neoliberais durante desde a década de 1990 até 2015. Com o ponto iii queremos apontar para o período histórico que nos interessa em particular, os anos dos governos do Partido dos Trabalhadores, 2003-2015.
Os anos de 2003 a 2012 foram anos suis generis. Por um lado, o crescimento da economia mundial realmente favoreceu a economia brasileira; por outro, a bonança deu origem a uma euforia que, olhando em perspectiva, provou-se injustificada. O que ocorreu nesse período foi uma rara combinação entre melhoria conjuntural na inserção externa do país e aprofundamento das características estruturais de uma economia dependente. Isso quer dizer que pode ter ocorrido, nesse intervalo, uma diminuição relativa da transferência de valor – e, portanto, uma maior retenção interna do mais-valor produzido –, porém, sem que esse maior excedente interno fosse utilizado em medidas de transformação produtiva com um sentido progressista.
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Ao longo da preparação deste trabalho surgiu a necessidade de levar a discussão dessas hipóteses a um terreno mais concreto, o do comportamento quantitativo das transferências de valor. No caso das formas de transferência derivadas da propriedade do capital, não há maiores problemas metodológicos, como ficará claro ao longo deste capítulo. As dificuldades e os contratempos aparecem no cálculo da transferência de valor através do intercâmbio desigual. Por estarem excluídas da contabilidade burguesa, categorias relacionadas ao valor (mais-valor, valor social médio, valor de mercado, composição orgânica do capital, preço de produção) só podem ser captadas através dos movimentos encontrados na superfície das relações sociais capitalistas, as quais aparecem, necessariamente, sob a forma de preços.
O estudo da controvérsia sobre o intercâmbio desigual e demais formas de transferência de valor tem como premissa a não identidade entre valor produzido e valor apropriado por capitais individuais ou por setores da economia capitalista. Do ponto de vista da economia nacional, a transferência de valor é o resultado líquido, em termos de tempo de trabalho abstrato, do intercâmbio de mercadorias e do fluxo do mais-valor produzido em território nacional. Assim, o presente trabalho não tem como objeto a transferência que ocorre entre setores produtivos da economia nacional, no caso a brasileira, mas entre os capitais desses setores no Brasil e capitais localizados em outros países. Tal advertência é necessária para ressaltar que a transferência de valor, em qualquer de suas formas, é um fenômeno que ocorre entre capitais, e não entre países.
A geografia, porém, importa: vimos no capítulo anterior que a configurações dos capitalismos imperialistas e dependentes implicam tendências opostas em relação ao fluxo do valor produzido mundialmente. Os capitais instalados nos primeiros tendem a se apropriar de mais-valor produzido nas regiões dependentes, enquanto os capitais dessas últimas tendem a transferir de forma recorrente mais-valor produzido nesses territórios.
Passemos, então a detalhar as metodologias que utilizaremos para mensurar os fluxos de valor. É importante deixar claro que o interesse nesse procedimento é pela tendência dos fluxos, muito mais do que pela precisão das medições. Assim, os resultados que apresentamos para o intercâmbio desigual devem ser vistos como um proxy. Estamos cientes de que as metodologias aqui utilizadas são objeto de controvérsia e interpretações distintas, e se as apresentamos é também pela motivação de que este debate prossiga e ganhe corpo daqui para frente.