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2 Revisão Bibliográfica

2.1 A Sociedade da Informação

2.1.4 As transformações cognitivas na era do hipertexto

É indiscutível que os jovens de hoje têm um talento inato para processar e responder a estímulos simultâneos em ambientes altamente multimodais e interativos, repletos de jogos, vídeos, música e redes sociais, como o YouTube e Facebook. A tecnologia parece assim não ter segredos nem levantar quaisquer barreiras para estes nativos digitais.

Kress (2003) refere que a nova geração terá certamente alterações na sua estrutura cognitiva, com o desenvolvimento de capacidades que serão benéficas nos panoramas mediáticos que se adivinham no futuro. Contudo, outros pesquisadores começam a questionar se essas habilidades multitasking podem surgir em prejuízo de habilidades importantes relacionadas com a leitura sustentada (Wolf, 2007).

Segundo Wolf (2007), são necessários anos de prática de leitura concentrada para desenvolver vocabulário e habilidades de descodificação, e é durante esse tempo de prática que são formados os circuitos cerebrais para a leitura proficiente. Para além disso, combinações relacionadas com a leitura são responsáveis por criar novos caminhos neurais no cérebro, afetando positivamente as capacidades cognitivas.

Tudo isto aponta para a enorme plasticidade do cérebro, não sendo de admirar que os neurocientistas estejam ansiosos para saber como os comportamentos infligidos pelo contacto com as novas TIC e os novos media irão moldar as capacidades cognitivas das gerações futuras. Hoje vive-se portanto uma verdadeira ansiedade relativamente aos efeitos que as novas tecnologias têm na nossa estrutura cognitiva. Esta euforia parece estar presente em torno de todos os grandes avanços nas tecnologias de informação desde o livro impresso, que muitos na época temiam ser uma forma de “diluição” do conhecimento, até à internet na atualidade, que muitos acreditam estar a alterar de forma considerável a forma como pensamos e como processamos a informação.

Neil Postman (1985) começa por analizar os efeitos que a massificação do uso da televisão teve nos indivíduos, apontando que este uso tornava os indivíduos menos inteligentes. Postman refere ainda que a Geração X, que cresceu num ambiente em que a televisão ocupava um espaço central no seu ambiente, tendo mesmo sido apelidada de “television nanny”, acabou por demonstrar grandes dificuldades de concentração, impedindo-a de aplicar níveis mais elevados de raciocínio que têm a concentração como base. Postman refere ainda as implicações do desvio de atenção da palavra escrita provocado pela televisão, mas deveremos notar que Postman levanta estas questões muito antes do boom da internet, que com a forma ativa e absorvente com que permite obter informação e fazer pesquisa, acabou por roubar à televisão horas de utilização e permitir agora que os indivíduos voltem a ter acesso à informação a partir da palavra escrita.

Prensky (2001), por sua vez, sugere que se torna claro que os alunos de hoje pensam de forma diferente dos seus antecessores, como resultado da interação com o meio ambiente da sociedade da informação. Prensky chega mesmo a afirmar que é muito provável que os cérebros destes alunos se tenham alterado fisicamente como resultado do meio em que cresceram.2

Nicholas Carr (2010) é mais um dos defensores de que a Internet está a provocar alterações em partes do cérebro que cimentam a base da inteligência, numa logica segundo a qual o cérebro se adapta a nível fisiológico ao uso que fazemos dele. Segundo Carr (2010), os múltiplos e contínuos estímulos do hipertexto treinam a nossa capacidade de tomar pequenas decisões. Contudo, o aumento dessa capacidade dá-se à custa da perda de capacidade de preservar a nossa memória de longo prazo e de estabelecer raciocínios mais complexos, daí se tornar cada vez mais comum o sentimento de dificuldade, impaciência e sonolência diante de textos mais longos e complexos, fruto do contacto continuado com a Internet.

A internet, por estar tão infiltrada nas nossas atividades diárias, torna-se uma tecnologia com uma capacidade enorme de influenciar a forma como pensamos e como comunicamos. Tendo este aspeto em conta, Carr teme que apesar de extremamente útil, a Internet nos esteja a tornar superficiais na maneira como processamos a informação.

Por sua vez, também Wolf (2008) sugere que o novo estilo de leitura potenciado pela internet possa enfraquecer a nossa capacidade de leitura mais reflexiva, uma vez que, segundo ela, na internet apenas decodificamos informações e, por excesso de informação e pressão de tempo, não avaliamos ou interpretamos convenientemente os textos.

Ainda em relação às implicações das alterações cognitivas que a utilização da Internet poderá ter para a leitura, Carr argumenta que o livro impresso protege-nos de distrações e foca a nossa atenção nas palavras do autor, no argumento ou na história, uma vez que a página

2 It is now clear that as a result of this ubiquitous environment and the sheer volume of the

interaction with it, today's students think and process information fundamentally differently from their predecessors... It is very likely that our students' brains have physically changed – and are different from ours– as a result of how they grew up. (1).

impressa é capaz de estimular a atenção e a calma e de encorajar uma forma mais profunda de leitura, na qual somos capazes de colocar o máximo da nossa capacidade interpretativa para descodificar o texto. Em contraponto, Carr assume que o ecrã do computador não tem a calma da página impressa, uma vez que os textos competem constantemente com outros estímulos que distraem o leitor, que assim é impedido de ler com profundidade, passando muitas vezes à leitura na diagonal.

Segund Car (2010), todas as tecnologias que usamos para fins intelectuais acabam por influenciar todo um conjunto de premissas sobre as quais assenta a forma como pensamos. Deste modo, a internet valoriza certos tipos de pensamento orientados para a solução de problemas, que encoraja o multitasking e a rápida transmissão ou receção de fragmentos de informação.

Por tudo isto, Carr chama a atenção para os riscos culturais desta influência, uma vez que, com o passar do tempo, a forma como as pessoas leem acabará por influenciar a forma como escrevem.