A pós-modernidade operou uma verdadeira transformação da intimidade, como aponta Giddens (1991). Isso se deve em grande parte à confiança depositada nos sistemas
abstratos. Ou seja, cada vez mais as pessoas organizam sua vida cotidiana em relação aos sistemas peritos (ao discurso perito dos profissionais, da ciência, da impessoalidade).
Segundo o autor, se o futuro vem como uma possibilidade sempre aberta na pós- modernidade, o que confere tal perspectiva é a confiança depositada pelos atores leigos aos sistemas peritos que, cada vez mais, regulam as nossas práticas sociais. A confiança no outro não se dá mais pelas relações de amizade ou de intimidade, pelo menos não da mesma forma que anteriormente; mas, são reguladas pela deliberação e profissionalismo dos peritos, na confiança em seus conhecimentos e habilidades aos quais o indivíduo leigo não tem acesso. Nas palavras do autor, é a confiança na funcionalidade do sistema, devendo o indivíduo “agir-como-de-costume”.
A pós-modernidade, segundo Giddens (1991), instaura um ambiente em que o impacto da tradição e da religião são minimizados, valorizando o “conhecimento reflexivamente organizado, governado pela observação empírica e pelo pensamento lógico, e focado sobre tecnologia material e códigos aplicados socialmente” (p. 111). Contudo, mesmo que os sistemas abstratos, que se baseiam em princípios impessoais
(lógica, estatística, razão etc), e que a confiança no conhecimento perito, criem as condições necessárias para uma verdadeira ampliação das áreas de ação, com uma segurança e previsibilidade nunca antes imaginadas, tal sistema não conseguiu, talvez até piorou, a confiança e o estado de conforto mais gratificante, que é a confiança nas pessoas.
Isso se deve porque a confiança psíquica está, em grande parte, ligada às questões emocionais e estas, via de regra, são inconscientes, e não se baseiam na regularidade dos acontecimentos, das coisas e eventos, agora possibilitados pela pós-modernidade (Giddens, 1991). Ou seja, ela se dá a partir das relaçõe íntimas e na mutualidade das trocas interpessoais, principalmente nas relações precoces com os pais, ou as pessoas que exerçam essa função. Como aponta autor, a “confiança em sistemas abstratos contribui para a confiabilidade e segurança cotidiana, mas por sua própria natureza ela não pode fornecer nem a mutualidade nem a intimidade que as relações de confiança pessoal oferecem” (p. 117).
Esses fatores, brevemente apontados, já evidenciam grandes mudanças na intimidade. Não é que a vida privada, que era em grande parte controlada e vivida dentro da família, agora deixa de ter uma regulação pelos costumes, pela tradição, pela honra, para tornar-se “desinstitucionalizada”, com o predomínio de organizações burocráticas de larga escala e da influência geral da “sociedade das massas”? (Giddens, 1991). E por outro lado, a esfera da vida pública tornou-se “excessivamente institucionalizada”, marcada pelo imperativo impessoal e pela confiança na perícia e nos sistemas abstratos. O que isso vai acarretar? O seu “resultado é que a vida pessoal torna-se atenuada e privada de pontos de referência firmes: há uma volta para dentro, para a subjetividade humana, e o significado e a estabilidade são buscados no eu interior” (p.118).
Essas transformações se devem em grande parte às transformações na família (Ariès e Duby, 1992). Como apontam os autores, a família foi perdendo suas “funções públicas” para se ocupar cada vez mais das “funções privadas”. Contudo, nesse movimento, a família deixa de ser uma “instituição forte”, na verdade, o que se vê é uma verdadeira “desinstitucionalização” da família, em que ela se torna cada vez mais “privada”. A ponto de percebermos que hoje houve uma verdadeira inversão de valores. Anteriormente a família estava acima do indivíduo, devendo ser preservados os costumes, as tradições, e a família se encarregava de diversas funções, até mesmo pela organização do casamento de seus membros. Ou seja, era ela que orientava e determinava o espaço possível para à expressão da vida privada.
Hoje, o que vemos, é que o indivíduo passa à frente da família. A vida privada, pessoal, não precisa mais se desenrolar no seio e interior da família. Cada indivíduo regula sua “vida privada” como bem entender, o “indivíduo é o rei”. Na verdade, a relevância da família é julgada em função das contribuições que ela oferece à realização individual. Caso isso não ocorra, rapidamente o indivíduo vai procurar contatos que lhe são mais “enriquecedores”. Enquanto a vida privada, anteriormente, era incorporada à família, com regulações bem marcadas, como a necessidade do “casal”, da presença dos filhos etc, com a inversão dos valores, abriu-se espaço para o surgimento da “família informal”.
A instauração da chamada família informal, como apresentado por Ariès e Duby (1992), pode ser marcada por alguns pontos importantes como da passagem do casamento como contrato ao casamento por amor. A família não decide mais sobre o futuro amoroso dos filhos. Um outro exemplo, é a coabitação juvenil, em que se multiplicam os casais de jovens não casados que temem que o casamento, que a união formal “estrague a relação”.
O que não deixa de ser uma reivindicação de “liberdade” e tentativa de manter o projeto de vida privada, a “individualidade”, preservada; mesmo que seja preservada do objeto de amor. Ou seja, é a afirmação da vida privada de cada indivíduo sobre a vida comum, sobre a instituição matrimonial. Anteriormente, a vida privada ficava em segundo plano em relação à vida familiar, subordinada a ela. Agora o que se vê é a valorização da intimidade e do espaço pessoal. Não é à toa que se torna comum a adesão pela “vida de solteiro”. Alguns lares, o que já não gera estranhamento, serão compostos por uma única pessoa. Nesse ponto, Giddens se pergunta se a atual “busca pela auto-identidade” não seria uma “forma algo patética de narcisismo, ou ela é, ao menos em parte, uma força subersiva quanto às instituições modernas?” (1991, p.125).