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1. O TRABALHO COMO EIXO ESTRUTURANTE

1.3 As transformações

Reconheçamos, há como que uma reversão de perspectiva entre a temporalidade do homem e a do mundo. O homem da tradição é um transeunte, cuja vida se escoa vulnerável, em meio a uma paisagem imutável, na qual reside toda sabedoria. Com a irrupção da ‘modernidade’, é a paisagem, ao contrario que se transforma e se desfaz diante de nós numa rapidez sempre crescente. (FORQUIM, 1993).

O novo século trouxe mudanças na estrutura educacional, o desafio de instrumentalizar todos os cidadãos brasileiros em leitores, fez com que aumentasse o tempo do aluno na educação básica e novas discussões institucionalizaram a entrada dos alunos com seis anos no processo especifico de alfabetização, denominado ensino de nove anos. A inclusão é uma realidade na escola pública legalmente um ganho sem precedentes, no entanto, sem o suporte de uma Rede de Proteção, o poder público lança mais uma responsabilidade à escola e lhe atribui mais um desafio que se junta a tantos outros - como a inclusão social - e transforma a escola em um local de grandes responsabilidades.

Os avanços tecnológicos democratizaram o acesso à informação, no entanto, não garantem a transformação da informação em conhecimento. Há um conflito entre os nativos digitais, que têm fácil acesso a informação, mas sem habilidade para transformar esse instrumento em acesso de conhecimento e os professores que têm conhecimento e habilidade em orientar o processo de aprendizagem, mas não circulam nesse universo de forma suficiente, para instrumentalizar esses alunos.

Podemos considerar que o mundo atravessa uma situação de mudança com paralelismo em outras situações históricas, em que pelo seu efeito

transformador, sobressai à revolução industrial. Porém, o valor não esta hoje na capacidade de seguir instruções dadas por outros para fazer funcionar as maquinas, mas sim na capacidade de transformar em conhecimento a informação a que, graças às maquinas temos um rápido acesso. As novas máquinas são hoje apenas uma extensão do cérebro. O pensamento e a compreensão são os grandes factores de desenvolvimento pessoal, social, institucional, nacional, internacional. (ALARCÃO, 2003:16-17).

Esse efeito traz uma mudança estruturante relacionado ao conhecimento humano, que afeta diretamente a forma como o trabalho passa a ser concebido. A escola é afetada diretamente nesse ponto, já que socialmente a escola é o local de aprendizagem e conhecimento. Novas exigências relacionadas a esse fenômeno tornam- se requisitos no trabalho de professor e, mais uma vez, observamos que não há uma distribuição justa e igualitária com relação a esse fenômeno. A acessibilidade tecnológica muitas vezes é insuficiente na realidade brasileira; assim como os bens culturais, econômicos e sociais.

(...) eu me sinto realizada no aspecto que eu faço uma coisa que eu gosto, eu gosto de trabalhar com gente, eu gosto de trabalhar com pessoas, de interagir, eu me sinto realizada. É bem com o que eu faço, eu gosto do que eu faço. Eu gosto de estar junto, gosto de me relacionar, porém assim, eu acho que a profissão esta um pouco desprestigiada, né? E ai, já teve alguns momentos que eu pensei assim, ah, se eu não tivesse há 20 anos nessa profissão eu iria fazer outra coisa. Mas são aqueles momentos que a gente se sente um pouco cansada, né? Com relação assim, as famílias, às vezes os pais, os próprios alunos a gente lida com um público que às vezes não valoriza o nosso trabalho, não vê o professor como uma figura importante dentro da formação do filho, dentro da sua formação, que pode aprender junto, que pode ensinar. Eu vejo que eles não têm esse olhar, assim, né? Como a sociedade de um modo geral foi desprestigiando o professor e alguns professores, é por conta disso também foram se desmotivando, não sei se uma coisa foi gerando a outra, foram se desmotivando, porque tem uma carência também na formação do professor, na relação que o professor estabelece e ai eu acho que vai fortificando essa ideia, né? Eu acho até que está relacionado à formação, a forma de lidar com o outro. É de conhecimento mesmo, porque, não tenho aquela ideia que o professor tem que saber tudo, mas ele tem que ter uma gestão do grupo, porque você esta a frente de um grupo de aluno, ou crianças, seja adolescente, você tem que ter um olhar pra esse grupo que você, é o par mais desenvolvido né? Ou é aquela pessoa que vai organizar as atividades, você não sabe tudo, porque ninguém sabe tudo, mas a gente tem um domínio, a gente tem um conhecimento um pouco maior pra organizar e ajudar que o outro se desenvolvam na aprendizagem dele. Eu percebo que tem um monte de professores que não tem muito esse olhar, esse cuidado, de ter esse ponto de referencia também para os alunos, ai eu acho que os alunos percebem isso, também. Eu acho que isso está muito ligado a formação que o professor teve, infelizmente eu acho que o professor

teve. O professor também sofre de uma carência na sua formação, né? É eu vejo assim, que eles acabam não investindo também na profissão, porque tudo é caro, se você pensar, assim um livro é caro, cinema é caro, teatro é caro. Curso bom é caro, pra você conseguir avançar e tudo. O salário que não ajuda também, a pessoa não tem o seu curso, não tem um incentivo politico do governo em função de garantir isso. Muitas horas de trabalho também, você acaba não se dedicando ao estudo, e ai a formação acaba ficando deficitária. O professor não tem é, o preparo, né? (Entrevista cedida ao autor, professor 028, dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental da Educação Básica, da prefeitura do município de São Paulo, em 18/11/2013).

A escola pública da qual a maior parte da população tem acesso, fica fora do tempo dessas novas tecnologias. Hoje na rede municipal de São Paulo, acontece uma aula semanal na sala de informática, no entanto, a maioria das aulas acontece sem recursos tecnológicos, enquanto as escolas das classes mais favorecidas contam com todos os recursos tecnológicos. Nesse ponto e verdadeiro, mais uma vez observar que o trabalho do professor é atravessado por interesses econômicos e o resultado final é a desigualdade de condições de trabalho do educador na rede municipal, quando comparamos com as condições de trabalho dos profissionais da educação da elite dominante.

Se o objetivo da educação básica é preparar o aluno para o exercício da cidadania, por meio da socialização no espaço escolar de conhecimentos, competências, habilidades, valores e atitudes, garantir que esse objetivo seja alcançado é um grande desafio. Muitas propostas podem ser lançadas, apesar disso, não são verificados grandes avanços; talvez por que, considerável parte dessas propostas está desvinculada de políticas públicas que enfrentem os problemas estruturais, em geral, essas ações adotam apenas medidas paliativas, sem resolver questões mais profundas, como a superlotação de salas de aula, estruturas físicas inadequadas, a desvalorização do professor.

Esse é um grande desafio da profissão, caminhar com um currículo, que legalmente apresenta propostas de valorização do ensino, mas completamente destituído de um compromisso político que garanta que essas propostas sejam alcançadas.

No documento O MAGISTÉRIO NO SÉCULO XXI: O TRABALHO DE (páginas 47-50)

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