“Um dia, ao cair da tarde, um camponês sentou-se à porta de sua casa, para gozar do ar fresco. Por aí passava um caminho que seguia em direção ao povoado.
Passou por ali um homem que, ao divisar o camponês sentado, pensou: ‘Este homem é um preguiçoso. Não trabalha, e passa o dia sem fazer nada, sentado à sua porta.’ E seguiu o seu caminho.
Em seguida, passou outro caminhante em direção ao povoado, e ao ver o camponês sentado, pensou: ‘Este homem é um mulherengo. Passa o tempo sentado, junto ao caminho, para ver passar as moças e conversar com elas.’ E seguiu o seu caminho.
Passou outro viajante em direção ao povoado, e ao ver o camponês sentado à sua porta, pensou: ‘Este homem é trabalhador. Trabalhou duro o dia todo, e agora, ao entardecer, toma um merecido descanso.’ E seguiu o seu caminho.
Ensinamento da parábola:
Na realidade não podemos dizer muito do caráter e dos costumes do camponês que sentou à porta de sua casa. Mas podemos dizer algo dos três homens que passaram pelo caminho.
Do primeiro, podemos dizer que era preguiçoso. Do segundo, podemos dizer que era um mulherengo, e do terceiro, podemos dizer que era um homem trabalhador.”
(De um “apoftegma” dos Padres)
Repitamos mais uma vez. Para os Padres e Madres do deserto, a ascese, a abnegação e a luta contra as paixões não são valores que terminam em si mesmos. O que eles buscam, através desse caminho, é libertar-se daquilo que os impede de amar e entregar-se totalmente a Deus e a seus irmãos, e é purificar-se para que a luz de Deus lhes revele a verdade sobre si mesmos, e os caminhos para se identificarem com a vontade de Deus.
Isso está na natureza mesma de toda espiritualidade cristã: purificação em vista da liberdade e da luz. Séculos mais tarde, São João da Cruz escreveria que as imperfeições e infidelidades, embora não desviem do caminho para Deus, escravizam o espírito, sujam-no, enfraquecem-no, e o cegam. Os ermitães do deserto sabiam isto por experiência. Seu itinerário espiritual é um itinerário de iluminação; por isso suas melhores contribuições não estão tanto na ordem da ascética, mas na ordem da arte da iluminação: o discernimento dos espíritos, a direção das consciências, os caminhos da contemplação.
Como fundamento desta iluminação, e coerentes uma vez mais com a tradição mística, os Padres davam a maior importância ao espírito de humildade.
Para os Padres, a humildade como valor cristão (e não como forma de temperamento) nada tem a ver com algum tipo de complexo, ou de atitude psicológica, e menos ainda, com atitudes exteriores. Porque em sua raiz, a humildade verdadeira não é o resultado de uma relação com os outros, nem consigo mesmo, mas é fruto da experiência e do conhecimento de Deus. A humildade começa por uma luz sobre Deus, seus mistérios e sua bondade, e como que por acréscimo esse conhecimento de Deus se reflete sobre o que somos em relação a Deus. Humildade é experimentar a realidade de Deus e, através dela, a própria realidade. E isso, necessariamente, cria uma atitude verdadeira com relação ao que somos e aos que temos, e com relação aos demais. Para os Padres, o orgulho é uma forma de mentira e de cegueira, que afeta em primeiro lugar a Deus, distorce o que alguém pensa de si mesmo e o que pensa dos outros.
Por outro lado, a humildade nos santos do deserto vai unida à compunção pelos pecados passados e pelas faltas presentes. A compunção, como ingrediente da humildade, é a dor continuamente renovada da condição frágil e pecadora do homem, unido à gratidão pela misericórdia de Deus que o libertou e o liberta a cada dia.
Essa humildade evangélica, que não é feita de palavras ou de atitudes externas ou de psicologia humana, é tipicamente dom e experiência contemplativa, mas para os Padres era mais ou menos verificável por alguns sintomas que se podem perceber nas relações com os demais. Concebiam a humildade, na prática, como uma qualidade da caridade fraterna, inseparável dela, como um de seus fundamentos que a tornam possível. Se tudo tem que ser resolvido no crescimento de amor, a humildade é a luz que ilumina as razões do amor.
Assim, a humildade tem que ver com a caridade no modo de falar dos outros (os ausentes, diziam os Padres). Tem que ver com os juízos internos que fazemos dos demais, e sobretudo com a carga de misericórdia que pomos em nossos juízos. A humildade se revela na paciência com que aceitamos as ofensas e prontamente as perdoamos. A humildade também se mostra, para os monges do deserto, na liberdade e no desapego das próprias idéias, e portanto na disposição para escutar, para ser iluminado pelos outros, para transformar.
Um dos sintomas de humildade, mais típicos para os eremitas, é a obediência às pessoas a quem é devida. Mais tarde, ao se estruturar a vida monacal e religiosa, humildade e obediência religiosa estariam em estreita relação, mas já os Padres do deserto haviam descoberto o valor da obediência cristã e eclesial, e a praticavam com seus mestres espirituais, em atitude de humildade e como procura de luz. Os modos de obediência e da prática da humildade dos Padres nos parecem às vezes desconcertantes, para nossa consciência atual de liberdade e dignidade humanas. Mas temos que recordar que, através da história, a obediência religiosa (e a obediência em geral como valor humano) teve tantas modalidades quantas foram as culturas em que se realizou, e teve tantos modelos válidos quantos foram os modelos de vida consagrada. Uma coisa foi a obediência na vida eremítica, outra na cenobítica, outro bastante diferente foi o modelo da vida monacal
nas grandes comunidades, outro foi o da vida religiosa ativa e apostólica, etc...
Para os monges e monjas do deserto, um dos sintomas e frutos importantes da humildade é a capacidade de discernir espíritos. O discernimento de espíritos é uma atividade de iluminação, e sem humildade não há luz. O que discerne espíritos sem humildade é um cego que guia outro cego.
Na tradição do deserto, o discernimento de espíritos, em si mesmo e em outros, consiste em saber distinguir o bem do mal nos corações, no que fazemos e no que nos sentimos inspirados a fazer. É ajudar a perceber o que é inspirado por Deus, ou pelo demônio, ou por paixões ou ilusões. O discernimento de espíritos pertencia já à tradição judeu-cristã, e se desenvolveu como disciplina religiosa nas comunidades de Qumrã. Jesus instou seus discípulos a discernir os tempos e os espíritos (Mt 7,15ss: “Pelos seus frutos os conhecereis”; Mt 16: “não sabeis interpretar os sinais dos tempos?” Mt 24,32). O Novo Testamento, particularmente São Paulo, é rico em critérios para discernir o que vem do Espírito e o que procede da carne; para Paulo, o discernimento de espíritos é um carisma (1Cor 12,10).
Discernimento e conselho
Se o discernimento é um dom do Espírito, então requer humildade, contínua purificação e oração. Devido à sua forma de vida isolada dos grandes centros cristãos, onde os eremitas eram mestres uns dos outros, os Padres do deserto cultivaram e mesmo elaboraram com grande extensão e profundidade a prática do discernimento. Grande número de seus “apoftegmas” guarda relação com sua experiência nesta matéria. O discernimento de espíritos, que ficará como elemento permanente da mística cristã, teve nos Padres sua primeira grande síntese original. Mais adiante, místicos também de sínteses, como João da Cruz ou Inácio de Loyola, aprofundarão o discernimento de modo magistral e definitivo (hoje nos servimos deles), mas os fundamentos de sua doutrina terão que ser buscados sempre na melhor tradição medieval que tem sua origem nos Padres do deserto.
Muito unido ao dom de discernimento se encontra o dom de direção ou guia espiritual. Discernir o espírito é o conteúdo habitual da direção espiritual; por isso os Padres são considerados igualmente como iniciadores da arte mística da direção espiritual e da formação da consciência cristã. Em contato permanente com os discípulos que queriam imitá-los e seguir sua vida, os Padres os guiavam pelo árduo caminho do espírito, animando- os, dando-lhes segurança, discernindo e iluminado. Essa guia era sobretudo indispensável no início do período de conversão, de aprendizagem da oração, de educação na caridade e no modo de ascese a que Deus chamava cada um. A “direção espiritual” tomará muitas formas através da história, mais ou menos estritas, mantendo sempre o princípio de que a direção da Igreja é necessária no itinerário espiritual; os Padres do deserto inauguram
a modalidade própria da vida consagrada, de mestre a discípulo, e na qual este deseja a santidade sobre todas as coisas.
A direção espiritual se torna mais urgente não só no período de iniciação, mas também em tempos de crise e eleição, e em tempos de tentação e obscuridade. Em tudo isso, os Padres fizeram da direção espiritual uma verdadeira arte do espírito, e com poucas palavras, justas e oportunas, freqüentemente oradas e refletidas por longo tempo, iluminavam seus irmãos, às vezes por toda a vida. Esta sabedoria, que transcende ao deserto e a sua época, é a que hoje conservamos nos célebres “apoftegmas” ou “ditos e sentenças” dos Padres do deserto.
A cegueira do coração
O tema da cegueira do coração é clássico na espiritualidade; é uma variante do discernimento de espíritos. Conscientes de que não só pecamos ou erramos por má vontade, mas também por falta de verdade e de luz, todos os místicos deram grande importância à iluminação da consciência como elemento de conversão. Seguindo os Evangelhos e o Novo Testamento em geral, todos os místicos entenderam que a obra de Cristo, em nós, é libertar-nos do pecado e levar-nos das trevas à luz.
A condição humana está marcada pelo pecado e pela cegueira. Esta cegueira de coração impede distinguir bem e mal; impede perceber o defeito que há em nós; impede discernir em nosso espírito, e tomar assim o caminho correto. Os Padres estavam convencidos, por experiências, que a iluminação das áreas cegas que todos tempos é parte indispensável da libertação interior e do acesso à humildade e à verdadeira caridade. Por isso o tema da cegueira foi tão elaborado por eles; é nos místicos do Oriente que encontramos pela primeira vez o termo “cegueira do coração”, e os remédios para dispor-se para a luz.
Os remédios espirituais da cegueira de coração ficaram clássicos na espiritualidade: A oração, que é sempre iluminação da raiz de nosso ser, embora muito lenta e gradual. A Palavra de Deus, que a Igreja nos confere, entre outras coisas, para iluminar todos os aspectos de nossa vida. A
direção espiritual, a correção fraterna, a comunidade: Deus nos dá a luz
através dos nossos irmãos, e com freqüência, sem que eles mesmos disso se apercebam.
Por outro lado, os Padres estavam conscientes dos aliados da cegueira, que temos que combater com a renúncia. Assim entendemos melhor como sua ascética é, antes de qualquer outra coisa, uma disposição para a iluminação e uma purificação das raízes mais típicas da cegueira. Em sua análise da cegueira, os Padres não necessitavam ser Gênios da psicologia; acostumados a referir-se aos Evangelhos, encontravam neles, nas próprias palavras de Jesus, os perigos habituais de toda forma de cegueira do coração.
Assim, a falta de amor fraterno; por isso seu empenho por uma caridade sempre mais aprimorada (“O que ama o seu irmão permanece na luz”) (...) (“o que odeia o seu irmão está nas trevas”) (1Jo 2,10.11).
Igualmente a riqueza; por isso o empenho em vida despojada e austera. (“Os cuidados do mundo e a sedução da riqueza sufocam a Palavra” [Mt 13,21.22]). A auto-suficiência e a falta de humildade; por isso a insistência na humildade. (“São cegos conduzindo cegos.” [Mt 15,14])
A cegueira de coração é uma categoria bíblica que os Padres elaboraram como categoria espiritual da condição humana, assentando as bases para todo humanismo realista e toda espiritualidade evangélica. Talvez, em nossos tempos, necessitemos tomar consciência da vigência do tema. Hoje somos muito mais sensíveis ao mal como ação do que como cegueira. Somos mais sensíveis à ética que à verdade; aos resultados que ao sentido último desses resultados. E não percebemos que muitos males do mundo atual vêm mais por cegueira que por maldade deliberada. Os problemas da guerra, da miséria e dos contrastes econômicos; a desumanização criada por ideologias e seitas, são problemas criados por cegos que guiam outros cegos e não por procura deliberada de fazer o mal. O erro é tão desumanizante como o pecado, quando provém da cegueira; as aberrações da ética moderna provêm de cegueiras coletivas e culturais. É por isso que Jesus utiliza tanto o tema da luz e das trevas, sendo ele mesmo a verdadeira Luz que dissipa a obscuridade das cegueiras do coração e das sociedades e culturas.
Essa é a luz que em definitivo os eremitas iam buscar no deserto, fugindo da tentação das cegueiras de seu tempo, que para eles eram evidentes nos grandes centros urbanos.
VII