2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2 AS VEREDAS: ASPECTOS GENÉTICOS E AMBIENTAIS
As veredas podem ser conceituadas tanto do ponto de vista geomorfológico, quanto do fitogeográfico. No primeiro caso, apresentam-se como depressões abertas, rasas e alongadas, com vertentes côncavas suaves e fundos planos, preenchidos por sedimentos argilosos, freqüentemente com elevada concentração de restos vegetais em decomposição (Boaventura, 1978). Por outro lado, do ponto de vista fitogeográfico podem ser definidas como comunidades vegetais que ocorrem nas regiões de vegetação aberta tipo savanas. São caracterizadas principalmente, pela presença imponente da palmeira de buriti (Mauritia
flexuosa) da família Arecaceae que ocorre, em geral, nas partes mais úmidas das referidas
depressões. Além do buriti, que alcança em torno de 10 a 15 m de altura, podem ocorrer também estratos compostos por vegetação herbácea, representada principalmente por espécies das famílias Cyperaceae, e Poaceae e também estratos arbustivos ou subarbustivos de Melastomataceae e Rubiaceae conforme aponta Carvalho (1991).
As veredas estão presentes em todas as áreas de cobertura savânica da América do Sul. Conhecidas como morichales na Colômbia e Venezuela, e aguajales no Peru, constituem-se como componentes indissociáveis deste bioma (Rull 1998). No Brasil, as veredas destacam-se na região central, ao longo dos domínios de cerrados (denominação regional para savanas) compreendendo áreas dos estados de Minas Gerais e Goiás (Carvalho 1991; Lima 1996; Lima & Queiróz Neto 1996) e são abundantes também nas savanas amazônicas, com destaque para a região nordeste do estado de Roraima. Nessa região, as veredas funcionam como elo de ligação entre as inúmeras bacias lacustres presentes na paisagem e os igarapés e rios da bacia
do rio Branco. Indivíduos de Mauritia flexuosa também aparecem com freqüência circundando esses lagos.
As condições de formação das veredas podem envolver aspectos geológicos, geoquímicos, geomorfológicos e climáticos. Segundo Boaventura (1978) as veredas são formadas a partir do contato de duas camadas estratigráficas de permeabilidades diferentes. Deste modo, em locais onde a ação erosiva intercepta o contato de uma camada permeável superposta a uma camada impermeável, ocorre o extravasamento de um lençol freático, originando, assim, uma nascente do tipo vereda. O autor considera ainda que, além disto, outros fatores de ordem geomorfológica como a existência de superfícies de aplainamento,
exorreísmo podem também contribuir para a formação de uma vereda.
Especificamente para as veredas das chapadas da região central do Brasil, o referido autor descreve o processo geral da formação desses ambientes como sendo o produto da interligação de depressões circulares situadas em áreas de má drenagem da superfície pleistocênica (chapadões). Essas interligações geradas sazonalmente através do escoamento superficial, ocasionado pelas precipitações e conseqüente extravasamento do lençol freático subsuperficial, passam a funcionar como canais de drenagem do sistema hídrico da região. A umidade aflorante nesse ambiente proporciona então, as condições para o desenvolvimento de vegetação típica do ambiente de vereda.
Lima & Queiroz Neto (1996), acreditam que o surgimento das veredas e sua posterior evolução representam um estágio de evolução da paisagem e do relevo de determinada região. Esse processo se iniciaria no topo de platôs, começando a partir da instalação de canais de drenagem em locais de acumulação preferencial de umidade, em zonas de fraqueza ou fraturas de rochas ou ainda em zonas de falhas. Segundo estes autores, as perdas geoquímicas ao longo das zonas de fraqueza e fraturas das rochas, decorrentes do intemperismo, e a intensificação do processo de pedogênese, relacionada ao aumento das transformações do solo ao longo do vale, deformam a cobertura pedológica seguindo o abatimento da topografia.
Nesse sentido, o inicio da incisão do vale seria de natureza geoquímica e não fluvial. A erosão só começaria quando as vertentes e os principais canais atingissem uma declividade critica. A partir deste ponto, a evolução se tornaria mais complexa com o aumento dos processos pedomorfológicos incluindo erosão das vertentes, eluviação e perdas geoquímicas, causando assim o aprofundamento dos canais. Quando a vereda desaparece, surge em seu lugar a floresta ciliar. Nesse sentido, em fases mais evoluídas, podem ser encontradas na vereda, junto aos buritis, ilhas de vegetação lenhosa. Em outras palavras, quando os vales
tornam-se mais encaixados e o lençol freático é rebaixado, as veredas então, dão lugar às matas ciliares (Melo 1992).
De acordo com Carvalho (1991), durante o processo de evolução das veredas podem ser reconhecidas quatro fases: na primeira distingue-se um estrato herbáceo denso entremeado com a palmeira buriti; na segunda surgem os primeiros arbustos e subarbustos; na terceira ocorre um estrato arbóreo evoluindo para o início de uma estrutura florestal e finalmente na quarta fase, define-se uma floresta de galeria relativamente densa com a presença de buritis em fase senil.
A estes fatores de naturezas geomorfológicas e litológicas responsáveis pela formação e evolução das veredas, pode-se acrescentar o fator de ordem climática, que para González (1987), é preponderante sobre os demais. Para ele, a dominância de um clima tropical quente e úmido com mais de 1.000 mm anuais de precipitação e a presença de solos permanentemente inundados são fatores essenciais para o desenvolvimento das veredas.
A importância do fator climático na origem e evolução das veredas foi demonstrada nos trabalhos de Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau (1996) e Barberi et al. (2000) que através de estudos realizados nas veredas da região de cerrados no Brasil Central, concluíram que as variações climáticas dos últimos 32.000 anos AP propiciaram alternâncias nos ambientes e conseqüentemente no processo de instalação e evolução das veredas.
Estudos palinológicos realizados em uma vereda situada em áreas de terra baixa, na região de Cromínia, no estado de Goiás, Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau (1996) mostraram que entre 32.000 e 23.390 anos AP o clima era úmido, com presença de ambiente de veredas. Entre 23.390 e 6.500 anos AP, houve períodos de variação climática, intercalando fases secas e úmidas, afetando sensivelmente o ambiente de veredas e a presença de Mauritia
flexuosa. Por volta dos 6.500 anos AP, a Mauritia reaparece, indicando uma retomada de
clima úmido, restabelecendo o ambiente de veredas, com aumento gradativo da presença de buritizais.
Estes resultados são correlatos com aqueles encontrados em Águas Emendadas (DF) onde uma vereda também foi estudada (Salgado-Labouriau et al. 1998; Barberi et al. 2000). A abundância de grãos de pólen de Mauritia flexuosa presentes nos sedimentos a partir de 7. 000 anos AP sugere aumento na umidade e o inicio da vereda a partir de 5.600 anos AP. Desde então, os tipos de vegetação que recobriram o topo do platô de Águas Emendadas são os mesmos do presente, com presença de cerrados, floresta de galeria e veredas. Diante de tais informações, pode-se inferir que as veredas atuais remontam a esse último período úmido, portanto, são jovens e ainda em estágios evolutivos. Entretanto, Rull (1998), supõe que o
gênero Mauritia, principal componente das veredas, caracterize-se como um velho elemento da flora neotropical, originário possivelmente do Paleoceno (65 Ma). Para o autor, a consistência do habitat registrada através do tempo pelo Mauritia sugere que sua presença constitui-se em um importante indicador de condições ambientais pretéritas nas planícies neotropicais, da mesma forma que a ocorrência de elementos como, por exemplo, Alnus ou
Quercus tem sido usada inversamente, como indicação de presença de altas elevações (Van
der Hammen 1982). A presença de grãos de pólen de Mauritia pode ser considerada um indicador confiável de áreas inundadas e também ao longo das zonas costeiras (combinadas com tipos polínicos das espécies de manguezais, como por exemplo, a Rhizophora) ou ao longo de rios e pequenos cursos d‟água (ocorrendo associada a grãos de pólen de Poaceae e de árvores de terra firme).
A atual distribuição geográfica das veredas que ocorrem em ambos os hemisférios norte e sul, segundo Rull (1998) preferencialmente até as faixas latitudinais de 10º e as necessidades climáticas requeridas para seu estabelecimento, têm levado alguns pesquisadores a acreditarem que a bacia amazônica seria o centro da diferenciação genética da Mauritia
flexuosa e de sua dispersão em direção as áreas periféricas das planícies amazônicas. Van der
Hammen (1957), propôs a região de Roraima como o centro de origem de várias palmeiras, inclusive do gênero Mauritia.
No Brasil, a maior parte dos estudos realizados em ambientes de veredas concentra-se em sua porção central, nos estados de Minas Gerais (Boaventura 1978; Ramos 2000; Araújo
et al. 2002; Oliveira 2005) e Goiás (Ferreira 2003) nos domínios de cerrados, onde ocorrem
amplamente. Estes estudos, em sua grande maioria inserem-se no campo da botânica e se preocupam, sobretudo, com a composição florística, estrutura fitossociológica e estado nutricional da vegetação (Boaventura 1978; Carvalho 1991; Araújo et al. 2002), em alguns poucos casos, com a dinâmica geomorfológica (Lima 1996; Lima & Queiroz Neto 1996) e solos (Guimarães 2001). Ultimamente, com o advento dos estudos voltados para a investigação paleoclimática e paleoambiental, as veredas têm desempenhado novo papel, o de fonte de informações a respeito das mudanças climáticas ocorridas nos últimos milênios; uma vez que, esses ambientes se comportam como áreas de acumulação de sedimentos turfosos que registram as variações do ambiente ao longo do tempo geológico através da preservação de palinomorfos, proporcionada pelas condições anaeróbias e ácidas, consideradas ideais para a preservação dos mesmos.
As veredas desempenham ainda um importante papel para o ecossistema savânico, uma vez que, segundo Lima (1996), funcionam como filtros, regulando o fluxo de água,
sedimentos e nutrientes, entre outros terrenos mais altos da bacia hidrológica e o ecossistema aquático. Além disto, protegem nascentes e fornecem água, alimento e abrigo para a fauna silvestre contribuindo assim para o equilíbrio geoecológico do bioma savanas. A despeito da importância desses ecossistemas para as regiões de savanas, observa-se no estado de Roraima, em especial, nos domínios da capital Boa Vista, a degradação contínua de veredas através da atividade agropecuária, construção de estradas e canais de drenagem, e principalmente do avanço da urbanização que se arremete sobre estas indiscriminadamente, ocasionando assoreamentos, ressecamento dos solos, diminuição do volume hídrico, erosão e perda irreparável de sua beleza e biodiversidade.