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4. ENTRE PENSAMENTOS INTERROMPIDOS E LINHAS INCONCLUSAS... A

4.5 As viagens

Como é bom viajar com eles! Tem a tensão de cuidar de um monte de adolescentes, mas ao mesmo tempo tem a energia deles, cantando, fazendo graça, atualizando aquele nosso repertório musical. E os olhos deles brilhando com a possibilidade de sair sem os pais e conhecer outros lugares. O IFF têm possibilitado isso para muitos alunos por meio de viagens técnicas. No início eram voltadas apenas para o aprimoramento da formação técnica específica, mas depois de muito debate entre professores, servidores e a própria política do Instituto que visa uma formação integral, o discurso foi sendo alargado e o teatro pode viajar bastante, inclusive para fora do estado. São Paulo! Como a nova geração sonha em poder ir para SP! Esse ano não foi possível, os cortes orçamentários do governo atingiram também os Institutos Federais

Desde 2014 o grupo entrou no universo dos Festivais estudantis de teatro. Antes deste ano, realizamos algumas viagens curtas para apresentações teatrais. Geralmente eram apresentações vinculadas a algum evento do próprio IFF, em sua maioria ligada à extensão.

O ano de 2014 foi um ano de mudanças. A sala de teatro foi transformada em um laboratório, eu fui transferida de setor. Saí do Departamento de Ensino onde tinha muito contato com alunos e professores e onde podia, além do teatro, realizar um trabalho pedagógico e fui colocada no Departamento de Registro Acadêmico e passei a executar um serviço burocrático que também impedia que dentro da carga horária de trabalho eu pudesse também realizar as atividades com o teatro. Nesse ano também, devido à

116 mudança de setor afastei-me do grupo que foi assumido por uma professora. De janeiro a julho permaneceu sobre sua supervisão. Durante esse período, por vezes, os alunos do grupo me procuraram, mas foi a partir de agosto que comecei a retornar e retomar o meu lugar de coordenadora. A professora em questão foi muito importante para o grupo, trabalhando outras referências teatrais e também despertou nos integrantes o desejo de participar do mundo dos festivais. De fato ela não chegou a acompanha-los nas viagens, devido ao seu mestrado, e também se afastou. Retorno ao grupo para ajudá-los na preparação para participar do festival de teatro de Mogi das Cruzes, em SP. Esse foi nosso primeiro festival. Neste ano participamos também do Festival de São Caetano, também em SP e outro em Cabo Frio, no RJ. Participar do universo de festivais estudantis foi uma experiência marcante para mim e pelas falas acredito que marcou também os alunos. Aprendemos muito com a interação com outros grupos e também com a avaliação dos jurados. Na verdade nem sabíamos que poderíamos pleitear esse tipo de viagem dentro da instituição.

Essa professora teve um papel fundamental nesse sentido. Estimulou os alunos e eles começaram a buscar coisas que até então não tinham nem sonhado. Houve uma maior aproximação da direção da escola e, além das viagens, os alunos conseguiram uma nova sala para o teatro. Participei do processo, mas nesse ano pouco atuei como coordenadora. Foram eles que se inscreveram nos festivais e também que encontraram a sala que estava subutilizada como depósito e pleitearam junto à direção o espaço para ser a sala do teatro. Foram muitas mudanças, conquistas de espaço dentro da instituição.

Passamos a receber apoio de muitos professores. A nossa visibilidade aumentou, o compromisso institucional também. Com a visibilidade acho que o nosso “ego” inflou um pouco. De uma certa forma às vezes parece que perdemos um pouco a dimensão do que o IFF nos proporciona. O cuidado que essa instituição promove com a formação dos alunos. A dimensão do direito também pode nos afastar do conhecimento do movimento de luta para conquista. Perder essa dimensão é perigoso. Já tivemos sala e todo apoio institucional no início do grupo em 2010. Perdemos esse apoio entre os anos 2013 e 2014. Já no final de 2014, a partir do movimento do grupo, conseguimos apoio novamente. Final de 2014 e os anos de 2015 e 2016 foram anos de usufruir as conquistas. Realizamos viagens para eventos, festivais. Tivemos uma atuação bem marcante, dentro e fora da escola. Aponto nessa direção, pois sinto que o grupo se afastou da dimensão do cuidado. E quando conquistamos algo e não cuidamos a possibilidade de perder torna-se eminente.

117 E foi isso que aconteceu com o grupo. No final de 2016 e início de 2017, quase perdemos a sala. Estamos finalizando 2017 com um grupo um pouco mais forte, mais consciente, um pouco mais cuidadoso, buscando dimensões perdidas, tentando renascer.

Mas esse tópico era para falar da viagens, como fomos parar nesse assunto? Bom a história não acontece mesmo de forma linear. São pontos que se entrecruzam e tomam novas direções. Estamos aprendendo juntos, todo dia, e avaliando nosso caminhar.

Falando em viagem e avaliação, em 2016 fizemos a nossa última grande viagem. Vou compartilhar com vocês um momento especial. Passamos três dias em SP. Esse ano o grupo levou uma peça completa e duas esquetes. As apresentações foram muito boas, os alunos empenharam-se organizando para que tudo saísse melhor possível. Dividiram tarefas e tudo foi feito por eles. Luz, iluminação, maquiagem, marcação de palco. Muito trabalho e um bom espetáculo. No dia seguinte folga, fomos ao teatro municipal, ao museu de arte moderna, e não faltou a “social”, momento de interação entre eles no próprio hotel. Reunidos em uma espécie de sala, tivemos momento de conversa, brincadeiras, descontração. Depois de três dias de muita atividade, a volta para casa. Aquela viagem era o momento de despedida para muitos ali que estavam concluindo os cursos e o começo para a nova geração do Parada, os alunos do primeiro ano. Aquela interação entre a velha e a nova geração do Parada Artística.

Esse momento de encontro e de despedida foi marcado por risos e lágrimas, por depoimentos emocionados que mostram uma escola viva de muitas possibilidades. A caminho de casa, dentro do ônibus de viagem, proponho que façamos uma avaliação da viagem. O que aconteceu foi uma avaliação mais ampla, que falava da escola, do grupo, da aprendizagens para a vida, e um clamor a nova geração, transformado em paródia a partir de um samba. “Não deixem o Parada morrer, não deixa o Parada acabar...”

Não posso reproduzir aquele momento, ou o que significou para cada pessoa que estava naquele ônibus. Arrisco-me a compor versos a partir do que ouvi e senti.

Duas gerações, o encontro

A despedida, o compromisso, o recomeço Eu era muito tímido....

118 Aprendi a falar em público...

Puxões de orelha... Cuidado...

Não sou uma máquina... Peço desculpas...

A gente criar junto... Um desafio...

Trazer nossas verdades sem medo, O que a gente tem dentro da gente... O que nós somos...

O que queremos ser....

Frases recortadas, desconexas, com nexo Jovens engajados com um propósito

Abraçando causas, aproveitando o que IFF pode ser Provoca em nós muitas emoções

Essa diversidade de caminhos Não somos máquinas

Carne, osso, sangue

Multiplicidade, diversidade Mais que teatro,

119 Parar o fluxo

Ser mais do que esperam de mim

Interromper, criar um outra lógica, produzir-se Sair do piloto automático

Viver como arte.

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