CAPÍTULO 3 – OLHARES SOBRE AS VIOLÊNCIAS DOS JOVENS DAS
4.3 AS VIOLÊNCIAS DO JOVEM DAS CLASSES MÉDIAS
Intrigava-nos inicialmente uma crença, ainda presente no imaginário social, ou uma justificativa, de que os crimes cometidos por jovens de classes médias estavam vinculados essencialmente às drogas. Na verdade, passamos boa parte dessa pesquisa buscando dados que pudessem provar que os jovens de classes médias praticavam não só crimes de menor potencial ofensivo, mas também crimes de maior potencial ofensivo. Não foi uma busca em vão, pois os dados estatísticos deram sinais de que, independente da classe social, jovens e não jovens praticam crimes similares. Contudo, os dados relativos aos jovens de classes médias
apareceram sempre em menor quantidade e, majoritariamente, referiram-se a crimes considerados pela Justiça como de menor potencial ofensivo.
De todas as fontes pesquisadas, observamos que os jovens das classes médias participaram como autores de violências em pelos menos 9 categorias criminais – Crimes violentos letais intencionais e não intencionais; Crimes violentos não letais contra a pessoa; Crimes violentos contra o patrimônio; Delitos envolvendo drogas; Delitos no trânsito; Crimes contra a administração em geral; Crimes contra a fé pública; Contravenções contra a ordem pública; Outros crimes. Nos jornais, uma instituição formadora de opinião, a categoria que sobressaiu foi a dos “Delitos envolvendo drogas”; no CIODES sobressaiu a categoria “Crimes não letais contra a pessoa”; nos distritos policiais também sobressaiu a categoria “Crimes não letais contra a pessoa”; na VEPEMA os “Crimes contra o patrimônio”.
A categoria “Delitos envolvendo drogas” apareceu nas quatro fontes pesquisadas, mas os jornais foram a única fonte em que tal categoria ficou em primeiro lugar115 e, por “coincidência”, quando se fala em violências criminalizadas praticadas por jovens das classes médias parece haver um consenso social de que são principalmente os delitos envolvendo drogas e, na esteira destes, os crimes contra o patrimônio, os crimes que eles praticam – estes últimos utilizados como meio para conseguir a droga, o que desvirtua totalmente a natureza criminosa do ato, e por esta via a sua (in)visibilidade.
E a maioria dos nossos entrevistados reproduziu integralmente esse discurso, quando lhes perguntamos quais os crimes comumente cometidos por jovens das classes médias:
[...] aí uma coisa eu posso atestar para você, nessa classe aí [classe média], qual a percepção que às vezes a gente tem aqui: crimes envolvendo veículos automotores, é uma incidência muito grande, uso de substância entorpecente – uso de droga –, tóxicos e furto. Aí você pergunta para mim, por que furto? Muitas das vezes, furto atrelado à questão da dependência química, o camarada que a família não está querendo mais bancar o vício dele, e ele vai subtrair alguma coisa de alguém para vender e conseguir. Então, isso é uma situação, uma variável que
115 As notícias dos jovens das classes médias com envolvimento com drogas em geral são
apresentadas em letras grandes, fotos das drogas, e relacionam esses atores a estudantes ou universitários.
eu já pude perceber aqui. A gente tem uma incidência de furto nesse público, aí também, mas geralmente atrelado a uma questão de drogadição. (Sr. H.)
[...] É... é que eu consigo lembrar agora. Realmente é esse público que a gente falou, crime de trânsito, em geral, né: embriaguez ao volante, homicídio ou lesões corporais culposas na direção de veículo automotor, são crimes aí corriqueiros. (Sr. H.)
Crime de trânsito em geral, é... é... é pequenas violências – casos de lesão corporal – e eu acredito que estelionatos, também. (Sr. B.)
A violência geralmente é a violência física. Porque, na verdade, os jovens de classe média, os que estão atuando como no crime, é por causa de droga, né? São viciados e tudo. (Sr. C.)
É como eu te disse a questão de saltar aos olhos é a questão do envolvimento com tráfico e uso de drogas. Eles passaram a se envolver mais diretamente, mais frequentemente. Inclusive produzindo drogas em apartamentos, traficando, trazendo drogas sintéticas que não eram muito comuns aqui, como LSD, é ecstasy, esse tipo de coisa. (Sr. E.)
As respostas àquela pergunta muito se assemelharam e refletiram a imagem dos dados, do aparentemente real. O envolvimento com as drogas parecia uma justificativa plausível para a entrada dos jovens das classes médias nos crimes e parecia conformar o limite dos seus crimes: os ditos de menor potencial ofensivo. E por pouco não caíamos na mesma armadilha, não fosse a sagacidade de um dos entrevistados que sabiamente apontou para o (in)visível dos fatos aparentemente apresentados ao responder que:
Aí eu te digo que eu não sei. Porque o que chega para nós aqui. Eu tô dizendo, assim, porque eu não sei o que eles andam fazendo. Porque quando eles vêm para cá, geralmente, é porte de drogas ilegais, tráfico, alguns, delitos de trânsitos – bastante –, desacato, número bem pequeno, mas tem. Eu acho que isso que vem na maioria. O resto é, assim, alguns, algumas histórias, [...], algumas coisas que fogem a isso. Mas na maioria das vezes é porte de drogas. (Sr. A)
A partir daí, começamos a observar que, por várias vezes, se justificou que os crimes praticados por jovens das classes médias têm fundamento nas drogas, mas também se assumiu que com os jovens pobres não era muito diferente. Começamos a observar que as drogas não são a porta de entrada só dos jovens das classes médias para o crime, mas também dos jovens pobres.
E uma outra coisa também que eu parei e não coloquei que eu acho que tem feito muito, muito, muito, mas eu não sei se isso é consequência, ou, se é causa, é a utilização de droga. Assim, grande parte, grande parte mesmo, diria que 80% das pessoas que cometeram delitos e crimes aqui, tinham feito uso ou são dependentes, fissurados pela droga. Então queria comprar naquele momento que precisava. [...] tudo, tudo, igualzinho, igualzinho. O problema da dependência química leva mesmo. Porque se você precisa, organicamente falando, de alguma coisa, você vai fazer qualquer coisa para ter essa coisa. Né? Então assim, todo mundo, todos os dois casos [jovens pobres e de classes médias]. Não diferencia não. (Sr. A.)
[...] Nós temos um problema seriíssimo aqui que é a questão do crack, não sei se tem algum campo que você pergunte sobre isso, né. Nessas Varas Criminais a gente vê um problema seríssimo que é a dependência do crack, isso é um outro fator. [...]. Nós temos jovens de 18, 21, 25, 26 dependentes de crack. Isso está levando à prática de outros crimes para a manutenção do vício. [...] E aí, esse rapaz, se ele não for pego pelo porte da droga, ele vai aparecer aqui na Vara Criminal para ser processado por furto, como eu tive agora um jovem, um jovem que na mesma tarde praticou, foram roubos, na verdade né, 3 roubos. Ele roubou um celular, depois ele roubou um ipod, depois ele roubou uma sacola de uma senhora que tinha um monte de porcaria dentro, usuário de crack. Ele veio a ser preso na rodoviária de Vitória. [...] Ele furtava alguma coisa, ou roubava, trocava por droga, vinha furtava outro, roubava outro, mais droga, vinha e acabou sendo preso na rodoviária. O trajeto dele veio praticando crime, trocando por droga, usando, praticando novo crime e tal, numa tarde. Esse jovem é um jovem de classe baixa, é ladrão profissional? É assaltante? Não. O camarada está mantendo o vício dele. Isso daí também é um problema muito sério. [...]. (Sr. H)
Dessa releitura compreendemos que esse é um fenômeno que atinge ricos e pobres. Se é causa ou efeito ninguém definiu, mas todos admitiram que as drogas ilícitas, e até mesmo as lícitas – o álcool –, atravessam a maioria dos casos de envolvimento com a violência, tanto de jovens de classes médias quanto os de classes populares. Por outro lado, também foi consenso que os crimes que aqueles jovens praticam são os de menor potencial ofensivo:
[...] O classe média não, são crimes com potencial ofensivo menor, apesar de ser, como eu te falei, ser uma quantidade cada vez maior, e crescente. Né? Mas, como eles não têm uma agressividade tão grande nos crimes que eles se envolvem acaba que isso passa quase despercebido e não é muito tratado a nível social, ou algo desse tipo. (Sr. E.)
Em contraposição, os jovens pobres praticam os crimes de maior potencial ofensivo.
É, infelizmente, o que a gente acompanha na mídia, eles se envolvem em crimes de um potencial agressivo muito maior, por conta daquilo que a gente já tratou antes. Né? Eles se envolvem em crimes mais socialmente rechaçados: como homicídio, que envolvem uma violência mais latente. Né? (Sr. E.)
Implícita ou explicitamente, quase todos os entrevistados afirmaram que os jovens de classes médias praticam crimes de menor potencial ofensivo, deixando subentendido, ou mesmo explícito, como no caso acima, que jovens pobres praticam crimes de maior potencial ofensivo. Custou-nos entender por que, apesar de a droga estar na origem dos crimes de ambos, os dos primeiros eram de menor potencial ofensivo e os dos últimos de maior potencial ofensivo.
Isso custou-nos o tempo suficiente para entendermos que a aparência estava explicando a realidade. Custou-nos o tempo para entendermos que nossos entrevistados falavam do que viam, não do que se escondia. E é em defesa deles que nos reportamos a Chaui (1994, p. 78), que afirma que a ideologia “[...] não é um processo subjetivo consciente, mas um fenômeno, objetivo e subjetivo involuntário produzido pelas condições objetivas da existência social dos indivíduos”.
Foi com muito custo que percebemos que o limite entre um crime de menor potencial ofensivo – uso de droga – e um crime socialmente rechaçado – o homicídio – é muito tênue. E que enquanto alguns jovens são protegidos – pela lei, pela família,
pela sociedade – para não aparecerem, ou, quem sabe ainda, não serem alvos dos crimes de maior potencial ofensivo, outros para eles são empurrados e por eles socialmente massacrados. É por força ideológica, implicada na luta de classes, que enquanto para os jovens ricos o envolvimento com drogas é apenas uma diversão, para os pobres é a confirmação da certeza de sua natureza criminosa.