3. ANÁLISE DA NARRATIVA
3.1. AS VIRTUDES EM TOLKIEN: SUA VIDA EM SUA OBRA
O autor de O Silmarillion possui uma característica marcante: tornou-se um católico devoto desde sua infância, e permitiu que sua fé conduzisse sua vida pessoal, profissional - e literária. John Ronald Reuel Tolkien, natural da África do Sul, perdeu seu pai com apenas 4 anos de idade, regressando ao país natal de seus pais, a Inglaterra, com sua mãe e irmão. Oito anos após o falecimentos de seu pai, John Tolkien, com apenas 12 anos, perde também sua mãe para a diabetes, que na época não possuía tratamento, após anos de abandono por parte de sua família, a qual havia retirado o auxílio financeiro que recebia, pois Mabel Tolkien tinha se convertido ao catolicismo, e consequentemente, se recusava a retornar à fé metodista de sua família ou à fé anglicana da família de seu marido. Tal fato, que Tolkien considerava um ato de fé de sua mãe, aliado à tutoria de Padre Francis Xavier Morgan (que recebeu a guarda de John e Hillary Tolkien após o falecimento da mãe), foram os principais motivadores da convicção do próprio Tolkien ao catolicismo, convicção esta que acompanhou o autor durante toda sua vida, já que, como afirma Michael White (2016), “esta convicção reforçou a própria fé de Tolkien e o conduziu à religião, tornando-se talvez o25 aspecto mais importante de sua própria vida.” (p. 86)
Apesar da importância da fé católica em sua vida, Tolkien nunca se propôs a escrever uma literatura com cunho religioso. Sua intenção inicial com a criação da Terra-média era a de elaborar uma espécie de mitologia inglesa, com relatos sobre sua criação e seus
25 A convicção a que se refere White é a de que Tolkien estava convencido, e assim permaneceu até o fim de
sua vida, de que a doença de sua mãe foi agravada pelo abandono financeiro e emocional de sua família, causada pela rejeição ao catolicismo de Mabel Tolkien.
personagens fantásticos. A própria presença de um ambiente mitológico, que possui como característica a ausência da influência cristã, é uma contradição à um autor que possui uma fé tão marcante em sua vida pessoal. Como afirma White (2016) “um dos aspectos mais surpreendentes da mitologia de Tolkien é que, como as antigas tradições na qual se baseava, ela descreve um mundo destituído de cristianismo.” (p. 86) Uma das possíveis explicações para este fato é oferecida também por White, que argumenta que o mundo mitológico de Tolkien “é o mundo da primeira infância de Tolkien, um tempo e um lugar anterior ao encontro de sua mãe com a Igreja; [...] um mundo no qual sua mãe é jovem e saudável, um mundo onde eles estão juntos.” (WHITE, 2016. p. 86)
Entretanto, sejam quais forem os motivos, é notável a importância da fé para a vida de Tolkien. Em uma carta à seu filho, Michael Tolkien, o autor comenta: “apaixonei-me pelo Santíssimo Sacramento desde o começo - e pela misericórdia de Deus nunca me afastei dele outra vez.” 26 e por este motivo “desde aquele tempo ele foi um católico devoto, se não evangelista, certamente convertido [...], esta devoção religiosa guiou sua vida e sua carreira, mas também indicou as raízes de sua mitologia e frequentemente guiou sua caneta.” (WHITE, 2016. p. 40)
O interesse de Tolkien por idiomas surgiu ainda em sua infância, quando sua mãe lhe ensinava os rudimentos do latim e do francês e, mais adiante, aprenderia um pouco de grego com um de seus professores no Colégio King Edward. Sua habilidade e afinidade naturais com as línguas fizeram de Tolkien um apaixonado pela linguagem e um exímio linguista. Apesar de seu profundo conhecimento sobre as estruturas gramaticais de diversas línguas, modernas ou antigas, o autor enxergava na linguagem algo além da simples aglomeração de palavras que buscam transmitir uma mensagem
.
Para Tolkien existia uma relação intrínseca entre língua e cultura, e o professor inglês dava muita importância a essa relação.
“Assim, a partir do estudo de línguas antigas, Tolkien começou a apreciar o conceito de mito, que atuava como um documento da cultura. Percebendo isso, ele poderia então começar a construir sua própria mitologia para descrever uma cultura ficcional, um completo universo ficcional, na verdade, cujas raízes estão assentadas nas línguas dos povos de seu reino fantástico. Para Tolkien, a
língua, e particularmente as línguas dos elfos, forneceu a semente para o seu épico.” (WHITE, 2016. p. 84)
Porém, o interesse de Tolkien pelas mitologias greco-romanas nunca foi muito acentuado, pois este enxergava nas mitologias islandesa, germânica e escandinava fontes muito mais atrativas. Daí surgiu em Tolkien o desejo de construir uma mitologia sua, uma mitologia para o seu país, uma mitologia inglesa.
Amigo íntimo de outro famoso escritor inglês - que também se interessava pela criação mitológica - Tolkien mantinha longas conversas com C. S. Lewis, sendo tido como um dos responsáveis pela conversão deste ao cristianismo. Lewis, que após lutar na Primeira Guerra Mundial, acreditava na existência de um deus, mais próxima aos paganismos ocidentais do que do Deus judaico-cristão. Sua visão de Cristo estava ligada a sua visão de mitologias, vendo toda a religiosidade cristã como mais uma cultura, com suas lendas e mitos, que na realidade não passam de mentiras. Tolkien é tido como um dos responsáveis pela mudança de opinião de Lewis. Para Tolkien, entretanto, nenhum mito deveria ser considerado uma mentira, especialmente o que Lewis chamava de “mito de Cristo”, já que para Tolkien este era construído em cima de eventos reais, regados com uma verdade profunda e irrevogável. White (2016) afirma que para Tolkien “o mito que reside dentro do cristianismo fornece um caminho a ser seguido em busca dos aspectos não materialistas de cada ser humano, uma estrada para uma verdade espiritual mais profunda.” (p. 131)
A relação de Tolkien com a escrita mitológica remonta a 1914, em seu primeiro esforço literário, intitulado “A Viagem de Earendel, Estrela Vespertina”, na qual é apresentada a história de Earendel, o Marinheiro das Estrelas. Tal história se desenvolveria, com Tolkien ampliando e adicionando histórias a narrativa do Marinheiro ao mesmo tempo em que desenvolvia os primórdios do Quenya e do Sindarin - os idiomas élficos amplamente utilizados nas suas narrativas principais. Entre os anos de 1918 e 1919, após voltar da Guerra com febre das trincheiras para se tratar em casa, Tolkien trabalhou em sua obra mitológica, que a época tinha o nome de “O Livro dos Contos Perdidos” e o que viria a se tornar o trabalho de sua vida. Dada a importância d’ O Silmarillion e do catolicismo na vida de Tolkien, fica claro que suas obras poderiam sofrer uma influência desta sua devoção.
Apesar do autor ter construído um mundo aparentemente pagão, “a devoção de Tolkien ao catolicismo era provavelmente a coisa mais importante em sua vida; ele era quase um cristão fanático.” (WHITE, 2016. p. 193). O próprio Tolkien afirma que sua obra tinha certa natureza cristã. Entretanto, esta natureza não se revela de maneira explícita, com crucifixos, igrejas e sacerdotes, mas encontra-se entremeada no fluxo narrativo, um pano de fundo sempre presente na história e em seus personagens. De acordo com White (2016), “ o ‘espírito cristão’ está em toda parte. O núcleo essencial da história é o bem contra o mal e o triunfo do bem, mas também é sobre sacrifício, tentação, autodeterminação e livre-arbítrio.” (p. 192). Tais valores, essenciais dentro do cristianismo, são encontrados tanto na vida pessoal de Tolkien como em suas obras.
Para Damien Casey (2004) “Tolkien pode não falar de Deus diretamente, mas ele realmente o faz de maneira indireta, de acordo com uma apreciação da revelação baseada na ideia da história da salvação, de acordo com a qual Deus é melhor revelado na e através da história.” 27 (p. 1, tradução nossa). Para o autor, sua visão teológica é melhor inserida de uma maneira subconsciente, indireta e sutil, através das imagens e símbolos presentes em sua narrativa. Narrativa esta que o próprio Tolkien não enxergava como um mundo puramente imaginário, inexistente, mas ante um passado imaginário de nossa própria história, de nossa própria “terra-média”. Podemos ver, então, como o discurso ideológico-religioso tem como característica a de extrapolar o mundano, trazendo de volta um sentido fantástico para a existência humana. Neste ponto, para Tolkien, é onde encontram-se a literatura e a religião.