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As virtudes religiosas

No documento VÍCIOS E PECADOS EM AS VIRTUDES DA CASA (páginas 64-68)

3. CONSIDERAÇÕES SOBRE O PAPEL DA MULHER

3.4 A Casa e suas virtudes

3.4.1 As virtudes religiosas

A relação da família com a religião é evidente no decorrer da narrativa, todos são dominados pela fé, é ela que guia e dita as regras do lar. Eles vivem dentro de um ciclo diário de rituais e de cerimônias, de tal forma que parecem servir para

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conservar uma rotina de boas atitudes. O padre Gabriel, apesar de ter se desvirtuado da religião e da igreja, observava o quanto os rituais eram indispensáveis para as pessoas da estância da Fonte e aprovava esse processo, por cultivar a ordem:

Uma liturgia de gente rude que não dispensava as cerimônias, no que faziam muito bem. As cerimônias e rituais são bons apaziguadores das emoções, disciplinam, com método qualquer arroubo, e marcam o que se deve dizer e até pensar. Muito necessárias, as cerimônias, pois nada como uma boa disciplina para submeter os humores aquosos do organismo e, principalmente, subjugar os apetites. (p.340)

Um desses exemplos é que há, diariamente, a hora do Ângelus, onde são feitas as orações habituais, para relembrar do momento da anunciação do anjo Gabriel para a virgem Maria a respeito da concepção do Messias. Um paradoxo apresentado na narração é que a primeira vez que Micaela tem relações sexuais com o francês é marcada pelos sinos do Ângelus. A mulher de Baltazar, quando deveria estar rezando para rememorar o momento que as mulheres ficaram livre do pecado original, está cometendo o pecado carnal que tanto as mulheres deveriam abster-se: o adultério:

O sino da capela marcou o Ângelus. As pessoas, na estância da Fonte, preparavam-se para as rezas, e ela ao léu, sem compromissos, sem nenhum dever, aconchegando-se às pernas fletidas de Félicien. (p. 217)

Além disso, as imagens dos santos estão pela casa, no altar da sala, assim como a imagem do Santo Antonio no quarto de Isabel. O mais interessante é que assim como o título demonstra certa ironia, pois a trama apresenta o contrário de virtudes, a religião vai perdendo sua santidade no decorrer da narrativa: um exemplo é que Isabel vê nos olhos do santo de seu quarto o mesmo azul dos olhos do francês:

Percorreu as paredes, viu a imagem de Santo Antonio, que segurava o Menino Jesus entre os braços. Os olhos do santo eram aqueles que ela reconhecera no francês: azuis, cristalinos, quase transparentes, olhando-a com força. (p.32)

Dessa forma, a personagem mistura seu desejo carnal, que é um pecado, a uma imagem santa, que deveria representar apenas os valores positivos de cada

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indivíduo, mais uma vez destruindo conceitos desenvolvidos na época diegética. Algo semelhante ocorre com Micaela, pois ela é constantemente comparada a uma santa por sua postura virtuosa, escondendo em sua aura de honra todos seus pecados. Até mesmo o padre Gabriel tem essa impressão, ao chegar à estância:

A dona da Fonte tinha uma pálida beleza, a beleza das santas, e embora estivesse firmemente sobre o chão, era como se a sua figura se erguesse acima daquelas cabeças e pairasse sobre uma nuvem; seu aspecto se diluía, despegava-se das terrenas contingências e das ocupações humanas, ganhando uma aparência de vidro, ou de âmbar. (p.349)

Jacinto fica dividido na representação de Micaela e costuma defini-la dependendo do momento em que a vê. Em um momento que ele pensa que ela nunca teria tido um caso com o francês, que tudo era imaginação, ele acredita que a mãe, “não mais Nossa Senhora da Boa Morte, o manto negro e fúnebre, mas Santa Mônica, modelo de esposa e mãe, cuja claridade era uma benção a todos que a vissem” (p.171). Ao referir-se como a primeira está menosprezando a progenitora, pois esse é um dos nomes de Nossa Senhora que não é muito bem aceito pela Igreja Católica, inclusive, nunca foi aprovado pelo Papa, tanto que nem é muito utilizado, ou seja, a mãe é uma santa desvalorizada, que não merece ser cultuada. Ao passo que, quando comparada com Santa Mônica, a mais virtuosa mãe e esposa, cumpridora de seus deveres, que mesmo tendo sido menosprezada por seu marido e filho, sempre esteve apoiando, amando e protegendo-os. Micaela representaria uma mulher virtuosa, a mãe que segue os padrões vigentes pelo sistema patriarcal, ou seja, a única que deveria existir.

Essa ambiguidade que Jacinto percebe na mãe fica evidente em diferentes momentos da trama, como em determinado momento que Jacinto observa: “(...) Micaela, aquele rosto lindo, lindeza infernal. Porque os anjos, antes de terem pecados eram lindos” (p.101).

Devido a sua orientação religiosa, desde muito jovem, todo membro da família sabe o que é um pecado, assim como no que difere das virtudes. Jacinto, quando se lembra de fatos de sua juventude, pensa também que já possuía tais instruções: “Há duas coisas no mundo, só: o pecado e a virtude. De um lado Deus, com a virtude; de outro o diabo com o pecado. O diabo sempre nos quer levar para o inferno, e Deus sempre para o céu” (p.89). Toda a trama narrativa desenvolve-se criando um jogo de ideias antitéticas entre as virtudes que deveriam ser conservadas e o que realmente

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ocorre e os pecados dos personagens envolvidos na narrativa. O que evidencia a precisão que os personagens têm de cumprir seu papel social, cultivando, assim, a imagem que a igreja prega, do mesmo modo que a sociedade da época diegética exige. Tal situação acaba por criar um mundo de aparências, pois quem não possui as virtudes necessárias, para ser aceito ou respeitado, acaba apenas fingindo que as possui, para poder resguardar o que realmente importa: o bom nome, a honra.

A exigência de a obra narrada apresentar o ponto de vista dos diferentes personagens consiste em oportunizar ao leitor conhecer o pensamento deles para que, dessa forma, entenda que todas as “virtudes da casa” dos Rodrigues de Serpa não passam de um jogo de aparências para que o bom nome da família seja preservado. Para tal, faz-se imperioso um estudo mais apurado dos personagens principais da obra, destacando Micaela, que é o sujeito da ação narrada.

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4 CONSIDERAÇÕES SOBRE A OBRA

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